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Médico recebe novo coração e muda área de transplantes – 27/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

Na primeira vez em que sofreu uma parada cardíaca e morreu, por alguns instantes, Robert Montgomery fazia uma trilha na Patagônia. Sentiu o coração disparar enquanto ficava para trás em relação ao filho John e ao guia. Então desabou, com o rosto na neve.

Segundos se passaram até que um dispositivo médico implantado em seu peito aplicasse um choque que restabeleceu os batimentos cardíacos e salvou sua vida.

Era 2010, e Montgomery, então com 50 anos, recuperou-se rapidamente. Mas ficava claro que ele precisava de um novo coração: aquele com o qual nascera estava falhando.

As chances de conseguir um transplante de coração eram desanimadoras. Cerca de 50 mil órgãos são transplantados nos Estados Unidos todos os anos, mas corações são tão raros que, muitas vezes, os pacientes nem sequer conseguem entrar na lista de espera até estarem à beira da morte.

Montgomery sabia disso porque ele próprio era cirurgião de transplantes. Na época de sua viagem à Argentina, ele dirigia um dos principais centros de transplante de órgãos do país, na Johns Hopkins Medicine.

Quando criança, Montgomery queria ser veterinário. Só reconsiderou aos 14 anos, quando seu pai desenvolveu sintomas de cardiomiopatia dilatada. A doença rara faz com que as câmaras do coração se distendam e aumentem de tamanho, podendo levar à insuficiência cardíaca, a batimentos irregulares ou arritmias, à parada cardíaca e à morte súbita.

Seu pai ficou cada vez mais debilitado e precisou de uma sonda de alimentação após sofrer danos cerebrais decorrentes de uma parada cardíaca. Quando ele morreu, em 1976, Montgomery, então com 16 anos, já havia decidido tornar-se médico.

Onze anos depois, ele mal havia começado a residência em cirurgia na Johns Hopkins Medicine quando recebeu o pior telefonema de sua vida. Seu irmão Rich, pai de dois filhos e com 35 anos, havia morrido naquela manhã.

Os patologistas descobriram que Rich Montgomery também tinha cardiomiopatia dilatada, provavelmente causada por uma mutação genética. Robert passou por exames e soube que também tinha a doença.

De repente, sua carreira estava em dúvida. A formação cirúrgica era extenuante, e uma parada cardíaca ou um desmaio poderiam colocar pacientes em risco.

Quando os medicamentos não conseguiram manter sua arritmia sob controle, Montgomery optou por um novo dispositivo médico chamado cardioversor-desfibrilador implantável, ou CDI, capaz de aplicar um choque no coração para fazê-lo voltar ao ritmo normal.

Ele voltou à Johns Hopkins em 1992. Queria se especializar em cirurgia de transplantes. Sua própria doença era uma motivação imensa.

“Eu não achava que teria uma expectativa de vida normal —sabia que precisaria de um transplante de coração ou morreria—, então estava com pressa e mantinha um foco absoluto”, diz ele.

Tão poucos transplantes cardíacos eram realizados no início da década de 1990 que trabalhar em tempo integral como cirurgião dessa área não era uma opção. Montgomery concentrou-se nos rins, o órgão mais comumente transplantado. Em Hopkins, ajudou a desenvolver uma técnica cirúrgica minimamente invasiva para retirar rins de doadores vivos saudáveis, que os médicos esperavam levar mais pessoas a doar um rim. E levou, sendo as crianças necessitadas as primeiras beneficiárias.

Em 2001, ao perceber que poderia aumentar o número de pacientes que recebiam um órgão se houvesse uma troca de rins entre pares incompatíveis de doadores e receptores, Montgomery criou um programa com esse objetivo. Logo, ele e sua equipe realizavam doações em cadeia. Um doador altruísta doava um rim a um desconhecido, cujo doador incompatível doava um rim a um segundo receptor, e assim por diante.

“Ele era visto como uma espécie de caubói”, diz Brigitte Sullivan, a administradora de transplantes que Montgomery descreveu como sua “companheira visionária”.

Depois, ele ajudou a desenvolver uma nova abordagem para reduzir a rejeição de órgãos em pacientes com alto risco de fracasso do transplante e apoiou uma iniciativa para utilizar rins retirados de doadores de órgãos com HIV, transplantando-os em pacientes soropositivos em vez de descartá-los. Foi necessário mudar a legislação federal, mas hoje esse é um tratamento padrão.

Em 2016, a NYU Langone Health recrutou Montgomery para criar um programa de transplante de órgãos de excelência mundial.

Apesar da experiência de quase morte na Patagônia, Montgomery voltou ao mesmo lugar em 2017. Queria passar um tempo com os filhos John e Max, mas sofreu outra parada cardíaca. O hospital mais próximo ficava a quase uma hora dali, e John fez compressões torácicas no pai dentro de um Jeep enquanto corriam para chegar ao local.

Quando saiu de um coma induzido mais de um mês depois, em Nova York, para onde havia sido levado de avião, Montgomery teve de reaprender a andar, falar e comer.

“À medida que eu passava por mais dessas experiências de quase morte, ficou muito claro para mim que a probabilidade de eu conseguir um transplante de coração era menor do que a de morrer antes de entrar na lista”, diz.

Alguns meses depois, seu coração parou no meio do musical da Broadway “School of Rock”. Ele recebeu reanimação cardiopulmonar no corredor do teatro. Em uma conferência médica na Itália, em 2018, sofreu quatro paradas cardíacas, uma após a outra.

O lado positivo, percebeu, era que agora estava tão doente que finalmente poderia entrar na lista de espera por um coração. Ele foi internado na unidade de terapia intensiva da NYU Langone e começou a esperar por um órgão. Seu médico alertou que poderiam se passar meses, talvez até um ano.

Pouco antes do amanhecer de 20 de setembro, recebeu uma ligação informando que havia um coração disponível. O doador, que morrera de overdose de heroína, estava infectado com hepatite C.

Havia motivos para hesitar: o programa de transplantes cardíacos do hospital era novíssimo; Montgomery o havia criado menos de um ano antes. E os transplantes com corações de doadores com hepatite C eram tão recentes que, se recebesse um, ele participaria de um ensaio clínico.

“Muitos dos meus colegas acharam que eu estava louco”, recorda Montgomery. Mas ele acreditava no programa e incentivava seus próprios pacientes a considerar órgãos com hepatite C, que poderia ser curada com medicamentos.

Após uma cirurgia de seis horas, Montgomery tinha um novo coração.

A maioria dos pacientes de transplante cardíaco está tão doente quando recebe um órgão que fica incapacitada; apenas cerca de 30% voltam ao trabalho. Mas, dois dias depois da operação, Montgomery estava sentado na cama, analisando casos.

Depois dessa experiência, ele passou a considerar insuficiente todo o trabalho que havia feito para encontrar mais órgãos viáveis.

Era hora de uma medida radical. Experimentos haviam comprovado que órgãos de porcos geneticamente modificados podiam ser transplantados para macacos. O passo seguinte era reunir evidências que justificassem os transplantes em seres humanos. Montgomery decidiu tentar primeiro em um paciente com morte cerebral, algo que nunca havia sido feito.

No segundo semestre de 2021, Montgomery anunciou ter transplantado, pela primeira vez, um rim de porco geneticamente modificado para um ser humano. Cientistas da United Therapeutics, que produziu o porco, haviam desativado um gene envolvido em uma resposta agressiva de rejeição ao órgão.

O rim não foi rejeitado e funcionou, produzindo urina e eliminando resíduos durante 54 horas, o limite estabelecido por um comitê de ética do hospital.

Nos anos seguintes, a equipe de Montgomery e outras de Maryland e Boston transplantaram rins e corações de porcos para um pequeno número de pacientes vivos em estado terminal que haviam esgotado as demais opções de tratamento.

Os pacientes morreram das doenças preexistentes em questão de meses, mas nenhum deles apresentou o tipo de rejeição imunológica devastadora que destrói um órgão —um feito importante, que demonstrou que órgãos de porcos podiam ser transplantados com segurança e funcionar adequadamente em humanos.

No ano passado, a FDA autorizou ensaios clínicos de transplantes de órgãos de porcos em pacientes muito doentes, com poucas chances de conseguir um rim de outra forma. Montgomery está liderando dois deles.

Desde a cirurgia, ele foi pescar salmão no Alasca com o filho John; viajou à África para celebrar a aposentadoria da esposa; e auxiliou cirurgiões renais na Ucrânia. Todas as manhãs, para proteger o novo coração, ele caminha 3,2 km até o trabalho.

Autor: Folha

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