
A ausência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no debate da TV Globo nesta quinta-feira (1º) é tratada pela campanha petista como uma decisão estratégica. “Não vejo sentido para o presidente Lula se desgastar para fazer um debate que não terá discussão programática”, disse Marco Aurélio de Carvalho, coordenador da campanha. O candidato Flávio Bolsonaro (PL) confirmou a participação neste debate televisivo, o último antes da votação do domingo (4), dia do primeiro turno.
Lula, por sua vez, já tinha sinalizado a possibilidade de não participar de debates eleitorais sob a alegação de que o formato dos eventos não funciona, por privilegiar a troca de acusações e a “lacração” nas redes sociais em vez da discussão de propostas. O próprio Lula, no entanto, foi um dos críticos da ausência de Jair Bolsonaro (PL) em confrontos nas eleições anteriores.
Em 2018, Bolsonaro liderava as pesquisas de intenção de voto no primeiro turno e, após ser hospitalizado em razão da facada sofrida durante a campanha, deixou de participar dos debates do segundo turno. A junta médica que o acompanhava havia recomendado que ele não participasse de debates e atos de campanha.
Quatro anos depois, em busca da reeleição, Bolsonaro cogitou faltar aos confrontos do primeiro turno e chegou a condicionar sua participação à presença de Lula. O então presidente, contudo, acabou participando dos debates promovidos pela Band e pela Globo.
Em agosto daquele ano, na condição de adversário, Lula desafiou Bolsonaro para um confronto na USP (Universidade de São Paulo): “Ele não vai vir porque ele não gosta de estudante, ele não vai vir porque o ministro da Educação dele [ex-ministro Milton Ribeiro] disse que universidade não precisa ser para todos, é só para uma pequena parte”, disse então Lula durante discurso na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
Antes disso, em julho daquele ano, Lula havia afirmado que iria a debates com “qualquer pessoa”. O petista ainda havia cobrado Bolsonaro por não ter participado dos debates da eleição anterior.
Lideranças petistas criticaram ausência em debates
A contradição também é observada no entorno petista ao longo da atual campanha. Em julho, ao defender a possibilidade de ausência do presidente, Rui Costa (PT-BA), que havia deixado a Casa Civil para disputar o Senado pela Bahia, afirmou: “A participação em cada debate e em cada entrevista, cada candidato leva em conta sua estratégia eleitoral, e o presidente fará isso.”
O mesmo Rui Costa, no entanto, em outubro de 2018, criticou diretamente a ausência do então candidato do PSL. A declaração foi feita durante o programa de redes sociais “Papo correria”, depois do primeiro turno e enquanto Rui fazia campanha por Fernando Haddad.
“Não dá para ter presidente da República covarde, desqualificado, sem preparação. Treme as pernas quando fala em debate. Pede até remédio para dor de barriga. Fica com medo de olhar para câmera e dizer o que pensa para o país. Se fosse nos EUA esse candidato já tinha despencado nas pesquisas, porque o povo americano não aceitaria candidato frouxo, covarde”, afirmou Costa em referência a Jair Bolsonaro.
Rui ainda acrescentou: “Para debater é preciso ter conhecimento dos problemas do país e das soluções, e um bocado de coragem, ele não tem”. Na eleição seguinte, Rui Costa recorreu ao episódio envolvendo Bolsonaro em 2018 para criticar a ausência de ACM Neto em um debate para o governo da Bahia.
“Nada justifica alguém que se julga preparado fugir de um debate. Só tem uma coisa que justifica: medo de errar, medo de não saber responder uma pergunta evidente, medo de confessar que não conhece a Bahia. O país aprendeu com as eleições de 2018 que, quando alguém foge dos debates, é ruim”, disse o petista.
Haddad faria debate “até em enfermaria”
Outros aliados de Lula também haviam criticado a ausência de Bolsonaro em debates. Em 2018, Fernando Haddad (PT), então candidato à Presidência, cobrou repetidamente a participação de Jair Bolsonaro nos confrontos do segundo turno.
Em outubro daquele ano, mesmo depois de os médicos vetarem a presença de Bolsonaro nos debates por causa da recuperação da facada sofrida em setembro, Haddad afirmou que estava disposto a ir até uma enfermaria para enfrentá-lo. “Ele precisa debater. Estou disposto até a ir a uma enfermaria para debater com ele”, disse.
Dias depois, Haddad voltou ao tema e rejeitou a justificativa de que a ausência seria uma estratégia eleitoral. “Os correligionários dele dizem que é estratégia não ir ao debate. Eu nunca vi alguém que se diz do Exército dizer que a estratégia é se esconder. É fujão. Ele não honra nem as Forças Armadas, a que ele diz pertencer”, afirmou em um ato de campanha no Recife.
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Pimenta, Wagner e Lindbergh também criticaram Bolsonaro por não ir a debate
Na mesma eleição, em 15 de outubro, o então líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), afirmou que Jair Bolsonaro estava participando de outras atividades, mas evitando debates com Haddad. Pimenta chegou a classificar o documento médico como “atestado fake”.
“Vamos insistir muito na história dos debates. Imagina se fosse nos Estados Unidos, na França, na Inglaterra, se um dos candidatos se recusasse a participar dos debates. Já está evidente que a história do atestado é seletiva. (Ele) pode gravar para programas, pode fazer atos, fazer live no Facebook, só não pode participar de debates com o Haddad”, disse.
No mesmo período, o então senador eleito Jaques Wagner (PT-BA) também atribuiu a ausência de Bolsonaro à falta de disposição para o confronto. “Bolsonaro foge do debate por covardia”, afirmou em outubro de 2018, após visitar Lula preso na sede da Polícia Federal, em Curitiba. Segundo Wagner, “ele foge do debate porque não tem o que dizer”.
Depois da eleição, a crítica continuou. Em 31 de outubro de 2018, o então senador Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que “os brasileiros foram iludidos por um candidato que fugiu dos debates”, ao comentar a vitória de Bolsonaro e projetar o futuro do governo.
Aliados do PT levaram cobrança para além da disputa presidencial
A discussão voltou a aparecer dentro do campo de apoio a Lula em 2022. O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), integrante do núcleo da campanha petista, afirmou que a ausência do adversário poderia prejudicar a estratégia de Lula.
“Bolsonaro e Lula reúnem juntos quase 70% dos votos válidos da eleição. A candidatura de Lula é a grande antagonista a de Bolsonaro. No meu entender, a ausência de Bolsonaro torna o debate incompleto, pois os demais candidatos vão se voltar contra o principal líder da oposição”, afirmou. Segundo ele, o debate ficaria comprometido se Bolsonaro não comparecesse.
A cobrança dos aliados extrapolou a disputa presidencial. Em março de 2022, Guilherme Boulos (PSOL) desafiou Eduardo Bolsonaro a um debate para a disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados.
Depois que o deputado recusou o convite, Boulos fez referência à ausência de Jair Bolsonaro em 2018: “São sempre assim: machões de internet e covardes na hora do debate cara a cara. O pai já fugiu em 2018, o irmão desmaiou. Não esperava outra coisa de você, Bananinha”.
Boulos se referiu ao ao quase desmaio de Flávio Bolsonaro durante o debate promovido pela Band com os candidatos a prefeito do Rio de Janeiro. Ao receber uma pergunta do mediador, ele ficou em silêncio. E quando estava prestes a cair, foi amparado pelos oponentes Jandira Feghali (PCdoB) e Carlos Osório (PSDB na época). O debate foi interrompido para atendimento médico e Flávio não conseguiu seguir no encontro.
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