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CEO do Xbox busca saída para crise dos videogames – 01/10/2026 – Negócios


Redmond (EUA)

| The New York Times
Asha Sharma, CEO de 38 anos do Xbox, console de videogame da Microsoft, responde às perguntas com o otimismo diante das câmeras de Zohran Mamdani e o pragmatismo corporativo de Sam Altman. Como os outros líderes millennials, ela responde rapidamente, com palavras assertivas na ponta da língua.

“Grandes coisas acontecem com o tempo, e acho que a maioria das pessoas desiste cedo demais”, disse Sharma, que se tornou o rosto do Xbox em fevereiro, apesar de não ter experiência anterior no setor de videogames. Sua nomeação ocorreu em meio a uma crise na indústria, na qual os custos de produção estão disparando.

Mulher com cabelo longo, liso e escuro, vestindo camisa azul escura com botões, olhando levemente para a direita, em fundo claro neutro.

Asha Sharma, CEO da divisão Xbox da Microsoft, na sede da empresa em Redmond, Washington

–
David Jaewon Oh/New York Times

Os desafios são particularmente graves na Microsoft, que vendeu muito menos consoles nesta geração do que Nintendo e Sony. Franquias emblemáticas como Halo e Gears of War perderam relevância cultural. Uma estratégia baseada em aquisições, que incorporou Minecraft e Call of Duty, gerou lucros modestos.

“Nosso negócio hoje não está saudável”, declarou Sharma em uma carta enviada aos funcionários do Xbox em julho.

Sharma, que anteriormente foi presidente de produto da divisão CoreAI da Microsoft e diretora de operações da Instacart, transformou seus primeiros 100 dias no Xbox em uma campanha de alto risco para conquistar apoio.

A versão mais cara do Game Pass, serviço de assinatura com centenas de jogos novos e antigos? Desconto. Mascotes dos consoles em plataformas concorrentes? Restrição. A integração desajeitada de IA (inteligência artificial)? Cancelada.

Sharma deu seu número de celular pessoal a jornalistas e influenciadores. Seu novo diretor de estratégia orientou repórteres sobre os desafios econômicos da empresa. Ela desviou habilmente de perguntas sobre erros estratégicos de seu antecessor.

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A estratégia pareceu funcionar.

As manifestações de ódio misóginas e racistas que receberam Sharma, filha de indianos que imigraram da Nova Zelândia para Wisconsin, diminuíram algumas semanas depois do início de seu mandato. Influenciadores passaram a publicar sobre o “problema impossível do Xbox”, descrevendo a divisão de US$ 23 bilhões como uma espécie de azarão.

O consenso entre muitos jogadores resistiu até mesmo a um verão difícil, quando 20% dos funcionários perderam seus empregos no Xbox e a empresa se desfez de cinco de seus estúdios de desenvolvimento. Três dias após as demissões, foi anunciado que Sharma havia sido nomeada para a força-tarefa de Produtividade e Empregos do Fed (Federal Reserve), o banco central dos Estados Unidos.

Em setembro, Sharma havia retornado à sede da empresa em Redmond, Washington, após uma turnê nacional pelos estúdios do Xbox. Em Maryland, sindicalistas haviam plantado centenas de bandeiras vermelhas, uma para cada emprego perdido. Depois de tudo o que havia visto, por quanto tempo mais poderia durar a ofensiva de charme?

“Na vida, só existem vitória e aprendizado”, disse Sharma em seu escritório, enquanto mexia em uma bola antiestresse e lançava mais uma de suas máximas gerenciais de inspiração confuciana. “Estou aprendendo todos os dias.”

“O XBOX NÃO ESTÁ À VENDA”

Microsoft, Sony e Nintendo enfrentam uma série de problemas econômicos. Consoles de videogame como o Xbox Series X|S estão ficando mais caros de produzir à medida que empresas de IA, incluindo a Microsoft, aumentam a demanda por chips de memória e processamento. O público está escolhendo jogos gratuitos em celulares, e até mesmo os mais vendidos têm dificuldade para cobrir os custos crescentes de desenvolvimento.

Líderes do setor estão chamando o momento de pior crise desde os anos 1980, enquanto uma pesquisa apontou que um terço dos funcionários havia perdido o emprego desde 2024.

O Xbox também perdeu relevância dentro da Microsoft na última década, respondendo por cerca de 6% dos lucros totais de uma empresa cada vez mais concentrada em infraestrutura de dados e inteligência artificial.

“O Xbox sempre foi uma parte aspiracional do portfólio da Microsoft”, disse Jesper Juul, professor da Royal Danish Academy que pesquisa videogames. “Agora eles enfrentam uma questão existencial.”

A Microsoft ainda precisa do Xbox? O Xbox sobreviveria sem a Microsoft?

“O Xbox não está à venda”, disse Sharma. “Faremos o que for necessário para preparar a empresa para o sucesso e analisaremos as parcerias certas, o modelo operacional adequado e tudo o que for necessário para alcançar isso.”

O CEO da Microsoft, Satya Nadella, recusou um pedido de entrevista, mas disse em um podcast recente que esperava que Sharma fizesse o Xbox voltar a crescer no próximo ano fiscal. Ele também reclamou que streamers do YouTube lucravam mais com os jogos do Xbox do que a própria Microsoft.

Muitos analistas preveem uma eventual separação. Um Xbox independente poderia formar uma parceria estratégica com a Microsoft para manter sua vantagem tecnológica sem prejudicar o balanço da empresa.

Executivos da Microsoft observaram que sempre há especulações sobre uma possível venda do Xbox e que isso nunca aconteceu. “Ainda temos um longo caminho pela frente com a Microsoft”, disse Sharma, “e vamos adotar uma visão de longo prazo.”

UMA BATALHA DIFÍCIL

Phil Spencer, CEO do Xbox antes de Sharma, baseou sua estratégia nos lançamentos bem-sucedidos dos serviços de assinatura Office 365 e OneDrive da Microsoft, com o objetivo de levar o Game Pass a 100 milhões de usuários. “Assinaturas estavam em alta naquela época”, disse Rhys Elliott, analista de mercado.

Nadella financiou uma grande onda de aquisições para abastecer o serviço. O movimento começou em 2014, com um acordo de US$ 2,5 bilhões (R$ 13,06 bilhões) pela Mojang, estúdio responsável por Minecraft, e culminou quase uma década depois na compra da Activision Blizzard por US$ 75,4 bilhões (R$ 393,95 bilhões), editora de Call of Duty, World of Warcraft e Candy Crush.

O negócio com a Activision pode ter custado ao Xbox sua vantagem tecnológica.

Temendo que a Microsoft monopolizasse os jogos em nuvem, reguladores britânicos analisaram a aquisição e disseram que ela poderia prejudicar a inovação. Para atender às exigências dos reguladores e equilibrar a dívida gerada pela compra, o Xbox abandonou projetos de controles dedicados a jogos em nuvem, segundo três ex-funcionários. A experiência que permaneceu apresentou falhas e decepcionou jogadores. (Um porta-voz do Xbox negou que os controles tenham sido abandonados por causa do processo regulatório.)

O Game Pass também ficou aquém das expectativas, chegando a 34 milhões de assinantes antes de o número começar a cair. Preocupada com a possibilidade de o serviço canibalizar as vendas de jogos, a Microsoft não adiciona mais os títulos de Call of Duty ao catálogo.

Esses são alguns dos desafios que Sharma precisa enfrentar de seu escritório em Redmond, onde quase uma dúzia de controles do Xbox repousa sobre pedestais como pequenas esculturas. Durante uma entrevista, sua televisão acende enquanto jogadores enviam solicitações de amizade para sua conta do Xbox Live.

“Clareza é gentileza”, disse Sharma, usando uma de suas frases favoritas. “Preciso criar clareza para que possamos enfrentar os desafios e resolvê-los.”

A VOLTA DA GUERRA DOS CONSOLES

Sharma quer que os produtos do Xbox entretenham 1 bilhão de pessoas, o que significa abrir mercados ainda pouco explorados na África, na América Latina e no sul da Ásia por meio da computação em nuvem para rodar jogos em computadores e smartphones.

Spencer divulgava a mesma ideia sob o slogan impopular “Isto é um Xbox”. Sharma mudou a perspectiva ao dizer que ofereceria “a possibilidade de jogar em qualquer lugar”. Outro pilar de sua estratégia é voltar a investir em Minecraft para competir com Roblox, que conquistou uma geração mais jovem de jogadores.

“Sempre dissemos que brincar é uma necessidade humana básica, mas acho que criar também é uma necessidade humana básica”, disse Jason Ronald, que lidera os esforços do Xbox para definir sua próxima geração. “Acho que as fronteiras entre jogadores e desenvolvedores ficarão cada vez mais indefinidas.”

Executivos da empresa descrevem o futuro de seus consoles — de codinome Project Helix — como uma materialização dessa ideia. Os executivos se recusaram a discutir detalhes, mas suas descrições fazem o aparelho parecer uma caixa de brinquedos, e desenvolvedores sugeriram que a Microsoft usará suas pesquisas em IA para viabilizar essa proposta.

Alcançar esse objetivo não será fácil. No fim de setembro, o Xbox anunciou que quase 270 funcionários seriam demitidos, em uma medida que desmantelou a equipe responsável por Halo e colocou o futuro da série de ficção científica sob o comando da Activision.

“Não acho que alguém aceite cargos como esse em busca de equilíbrio entre vida pessoal e profissional”, havia dito Sharma semanas antes, com certo ar de confiança. “Acho que você os aceita porque acredita na missão e faz o que for necessário.”

Autor: Folha

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