Nova York e Londres
| Reuters
Os reguladores bancários estão intensificando os esforços para conter os riscos crescentes da (IA) inteligência artificial, de acordo com seis pessoas familiarizadas com o assunto. Algumas delas apontam para a possibilidade de ataques cibernéticos a bancos ou de agentes autônomos fora de controle comprometerem a estabilidade financeira global.
O escrutínio regulatório, cujos novos detalhes são divulgados aqui pela primeira vez, reflete o reconhecimento crescente de que os avanços da IA de fronteira podem exigir investimentos dispendiosos em recuperação após ataques cibernéticos, maior atenção às dependências de fornecedores externos de tecnologia e, em algumas jurisdições, orientações regulatórias mais formais, disseram as fontes.

Reguladores temem que falhas em sistemas autônomos comprometam contas, pagamentos e serviços essenciais
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Aly Song – 09.out.26/Reuters
Três dos principais órgãos reguladores dos Estados Unidos, incluindo o Fed (Federal Reserve), estão questionando os bancos sobre o uso de modelos avançados de inteligência artificial, disseram duas das pessoas à Reuters. A iniciativa amplia o escrutínio já existente.
As perguntas incluem se as instituições utilizam tecnologias desenvolvidas na China, empregam agentes de IA na defesa cibernética e conseguem controlar sistemas cada vez mais autônomos, disseram três das fontes.
Na Europa, autoridades supervisoras, incluindo o Banco da Inglaterra e o BCE (Banco Central Europeu), estão pressionando os bancos a aprimorar seus planos de recuperação. A preocupação é que os rápidos avanços da IA possam provocar danos graves e perturbações nos mercados financeiros antes do que se imaginava, disseram três pessoas familiarizadas com as avaliações dessas autoridades.
Um executivo sênior de um grande banco europeu afirmou que também há preocupação com a possibilidade de danos significativos ao setor bancário e aos mercados financeiros nos próximos seis meses.
O debate sobre a supervisão da IA se intensificou em meio a alertas da própria indústria após incidentes recentes. O presidente-executivo do JPMorgan, Jamie Dimon, pediu que líderes empresariais participem de um grupo setorial nos Estados Unidos voltado a enfrentar os riscos da IA, informou a Reuters.
A CrowdStrike, empresa americana de segurança cibernética, afirmou neste mês que uma pessoa na China provavelmente utilizou um agente de IA desenvolvido no país e o Claude Code, da Anthropic, em um ataque contra bancos sul-coreanos. Agentes de IA desenvolvidos pela OpenAI também estiveram envolvidos em uma invasão à plataforma de inteligência artificial Hugging Face, informou a Reuters.
Pesquisadores da Anthropic alertaram que sistemas de IA cada vez mais poderosos podem, eventualmente, escapar do controle humano e até representar uma ameaça existencial, o que tem motivado pedidos por regras mais rigorosas.
O FMI (Fundo Monetário Internacional) alertou nesta terça-feira (13) contra a “complacência” nos mercados financeiros globais, citando diversos riscos, entre eles a possibilidade de um ataque cibernético. O organismo afirmou que um ataque de grandes proporções contra um serviço essencial ou uma instituição financeira poderia abalar a confiança e pediu que autoridades ampliem sua capacidade de defesa cibernética.
Os bancos disputam espaço na adoção da chamada IA agêntica, capaz de executar tarefas com supervisão humana mínima, enquanto enfrentam os desafios dos novos modelos, incluindo vulnerabilidades de tecnologia da informação identificadas pela ferramenta Mythos, da Anthropic.
“A adoção da IA frequentemente avança mais rápido do que a capacidade de implementar os controles necessários”, disse Michael Woodbridge, sócio da área de segurança cibernética da Grant Thornton em Londres.
PREOCUPAÇÃO NOS EUA SE CONCENTRA NA IA AGÊNTICA
As consultas dos reguladores americanos se concentram no uso de IA agêntica pelos bancos em áreas como segurança cibernética, com atenção para o emprego de agentes de IA na identificação, priorização e resposta a ameaças.
As perguntas do OCC (Escritório do Controlador da Moeda), da FDIC (Corporação Federal de Seguro de Depósitos) e do Fed buscam esclarecer quais limites são impostos aos sistemas, como suas ações são monitoradas e aprovadas e se os bancos conseguem rastrear e auditar com clareza as decisões dos agentes de IA, disseram duas das fontes.
Os reguladores também questionam quais proteções impedem os agentes de ultrapassar suas atribuições, se seres humanos continuam envolvidos nas decisões importantes e como os bancos podem desligar sistemas autônomos.
O OCC, o Fed e a FDIC se recusaram a comentar.
Por meio das consultas, os reguladores investigam questões mais específicas relacionadas aos modelos avançados de IA, incluindo o uso de agentes autônomos, modelos desenvolvidos no exterior e novos riscos cibernéticos, disseram as três pessoas familiarizadas com as avaliações das autoridades.
As consultas, feitas por escrito e verbalmente a bancos de grande, médio e pequeno porte, mostram que os reguladores estão concentrados nas vulnerabilidades decorrentes do uso de IA pelas instituições e na preparação delas para responder a incidentes, acrescentaram as fontes.
Os reguladores ainda estão coletando informações e, por enquanto, não estão estabelecendo de forma prescritiva o que os bancos devem fazer, disseram as pessoas.
EUROPEUS SE PREOCUPAM COM A RECUPERAÇÃO DOS SISTEMAS
No Reino Unido, as autoridades supervisoras estão incentivando separadamente os maiores bancos a examinar os chamados planos de recuperação bare metal, disseram duas pessoas familiarizadas com as avaliações. Esses sistemas são totalmente independentes da estrutura tecnológica principal de um banco e podem entrar em funcionamento caso os sistemas operacionais primários sejam comprometidos.
Construir e manter esse tipo de estrutura avançada de recuperação, porém, é caro, disseram as fontes.
Em vez de introduzir novas exigências, as autoridades britânicas pretendem trabalhar em colaboração com o setor, acrescentaram.
O Banco da Inglaterra se recusou a comentar.
Em julho, o BCE estabeleceu o fim de outubro como prazo para que os bancos apresentem planos de combate a ameaças cibernéticas potencializadas pela IA, incluindo melhorias nos sistemas de backup e recuperação.
Questionado sobre sua estratégia de regulação da IA, o BCE remeteu à carta de julho e a um discurso de junho de seu membro do conselho Frank Elderson, que destacou a necessidade de criar um senso de urgência, e não de alarme, em relação às ameaças.
A necessidade de atuação dos supervisores ganhou urgência adicional depois que bancos e reguladores europeus manifestaram frustração com o acesso limitado ao Mythos neste ano, em meio à preocupação de que bancos americanos tenham prioridade nos testes de modelos avançados de IA.
Assim como seus pares americanos, os supervisores britânicos também estão pedindo aos bancos que utilizem modelos avançados de IA para identificar vulnerabilidades e acelerar a aplicação de correções de segurança, disseram duas fontes. Uma delas acrescentou que, até o momento, as instituições financeiras têm feito um bom trabalho.
A terceira fonte afirmou que os bancos da zona do euro também estão sendo orientados a mapear como a IA é utilizada em suas operações e por fornecedores terceirizados, a fim de identificar dependências importantes e garantir que consigam desligar e reiniciar sistemas de maneira controlada.
Ainda existem lacunas significativas em algumas instituições, acrescentou a fonte.
“Para se proteger contra ataques, a recuperação rápida é tão importante quanto a prevenção”, disse Sukand Ramachandran, diretor-gerente e sócio sênior do BCG (Boston Consulting Group).
Sem cópias íntegras e seguras de dados críticos armazenadas separadamente, “um ataque grave poderia impedir que clientes acessassem suas contas e interromper pagamentos em toda a economia”, afirmou Ramachandran à Reuters.
Autor: Folha








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