“Quando um católico não compartilha das posições do candidato favoráveis ao aborto e/ou eutanásia, mas vota no candidato por outros motivos, isso é considerado cooperação material remota, que pode ser permitida na presença de motivos proporcionais.” Foi isso que o então cardeal Joseph Ratzinger escreveu em 2004 aos bispos norte-americanos, tendo em mente a acirrada disputa eleitoral entre o republicano George W. Bush, que buscava a reeleição, e o católico pró-aborto John Kerry. Já tratei com calma desse documento do cardeal Ratzinger em 2022, inclusive com uma explicação sobre os tipos de cooperação com o mal. Agora, saltando para 2026: ainda que o voto em um candidato abortista possa ser aceito por “motivos proporcionais”, juro que continuo sem entender católico que vota no Lula.
Reparem: não disse que não entendo católico que não vota em Flávio Bolsonaro; não disse que não entendo católico que anula, vota em branco ou vai passar o dia 25 viajando; esses eu entendo, porque sei que a consciência obriga, e sei de gente muito boa, de critério, para quem o candidato do PL tem plataformas das quais essas pessoas discordam muito profundamente, e que o tornam indigno do voto dessas pessoas. Mas nem por isso essas pessoas irão votar no petista. E aí eu reforço: entendo católico que não vota em Flávio; o que eu não entendo é católico que vota em Lula. E aqui, sim, vou tratar da tal evidência anedótica, ou seja, o que vêm argumentando os meus amigos e conhecidos que são católicos e vão “fazer o L”.
As razões que católicos vêm apontando para votar em Lula não me parecem ser o tipo de “motivos proporcionais” que tornariam lícito o voto em um abortista
Mas, primeiro, vejamos o histórico de Lula 3 com o aborto. A única coisa que Lula, o PT e a esquerda não fizeram nesses quatro anos foi tentar mudar a lei. Todo o resto eles fizeram: tiraram o Brasil do Consenso de Genebra; revogaram portarias relativas a procedimentos que deveriam ser adotados em caso de gestação decorrente de estupro (inclusive as que ajudariam a identificar o estuprador); publicaram cartilha para gestantes com informações sobre aborto, mas não sobre o encaminhamento para adoção de uma criança indesejada; e não nos esqueçamos da barbárie envolvida na defesa da possibilidade de abortos tardios, quando o bebê já chegou ao estágio da viabilidade fetal, inclusive com o uso do método crudelíssimo da assistolia fetal.
Eu sei que o cardeal Ratzinger afirmou que pode haver “motivos proporcionais” para alguém votar em um candidato que defende tudo isso aí em cima, mas eu tenho muita, muita dificuldade mesmo em ver que “motivos proporcionais” poderiam existir para justificar o voto em Lula. Vou descontar a ignorância de quem acredita no “Bolsonaro hipotético”, aquele que vai acabar com o SUS, o Bolsa Família, o Pix, vai mandar desmatar toda a Amazônia e matar todas as girafas; que me desculpe quem caiu nessa, mas lamento muito que vocês tenham desligado o cérebro dessa forma.
“Ah, mas o Lula defende os pobres.” Bom tema: nenhum governante é capaz de agradar a Deus se não olhar para os pobres. A “opção preferencial pelos pobres” infelizmente se tornou um slogan sequestrado por teólogos da libertação para inserir marxismo na Igreja, mas o conceito que ela realmente representa está em perfeita sintonia com a Doutrina Social da Igreja e não pode ser descartado por ninguém, nem individualmente (lembrem de Mateus 25) nem coletivamente. Mas, dito isto, pense comigo: um governo que gastou como nunca, desvalorizando a moeda e gerando inflação, e que incentivou todo mundo a gastar, gerando níveis recordes de endividamento, está mesmo preocupado em tirar gente da pobreza? Ninguém mais lembra da crise de 2015-16? Além do mais, será que o único meio lícito de ajudar os pobres é aquele promovido pela esquerda, ou a liberdade econômica e outras plataformas que dão mais protagonismo à iniciativa privada e à livre negociação também não são maneiras decentes de estimular geração de emprego e renda?
“Ah, mas Lula defende a soberania nacional.” Sinceramente, para alguém considerar uma abstrata “defesa da soberania nacional” um “motivo proporcional” que supere a promoção do assassinato dos mais indefesos e inocentes entre os seres humanos, e julgar em consciência que isso justifica um voto em Lula, é preciso estar com a bússola moral bem desregulada. E eu nem precisaria apontar a hipocrisia de quem fala em “soberania nacional” enquanto critica o “America first” e partidos políticos europeus que, por exemplo, defendem linha-dura contra imigração ilegal. Ou o fato de que Lula está entregando o Brasil para a China (ainda que sutilmente), e usando nossa diplomacia para defender ditadores e carniceiros mundo afora.
Por fim, obviamente, deveria causar imensa repulsa em qualquer católico o uso descarado que Lula está fazendo da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Que não católicos – e tenho visto muitos – apoiadores de Lula continuem aí compartilhando imagens da Virgem (especialmente ontem), é problema deles; o que podemos é rezar para que Deus tire daí algum bem e consiga algumas conversões. Agora, que um católico continue nessa, mesmo depois de todas as fake news terem sido desmentidas, para mim só se explica por muita ignorância ou muita má-fé – e ambas servem para perpetuar o aproveitamento eleitoreiro da Mãe de Deus, algo que, como já disse, não sei se Nosso Senhor haverá de deixar passar batido no dia do julgamento.
Não vejo uma obrigação moral absoluta de votar em Flávio Bolsonaro, nem mesmo como “mal menor”: como disse lá no começo, a consciência obriga, e se a consciência de alguém considera impossível votar no candidato do PL, então está resolvido. Eu tenho muito pé atrás com esse papo de “isentão” para desqualificar gente de bons critérios que, após muita reflexão, resolveu que nenhum candidato no segundo turno é digno de voto. Mas considero haver ainda mais razões para uma consciência bem formada rejeitar o voto em Lula.
Rezem pelo papa
No comecinho da tarde de hoje (horário de Roma; meio da manhã no Brasil), o papa Leão XIV chegou ao hospital Agostino Gemelli para a cirurgia que retirará um pequeno nódulo de um dos seus pulmões. De acordo com o Vaticano, o papa será operado ainda nesta tarde, e o primeiro boletim médico deve sair à noite (no horário local).
A pergunta que todos se fazem é: a situação é grave? Quanto a isso, só os médicos e o próprio papa devem ter a resposta. Nós não sabemos, por exemplo, quando ocorreram os exames de rotina que identificaram o nódulo. O pouco que se sabe é que a data da cirurgia forçou Leão XIV a se ausentar de ao menos um compromisso importante: o fim da reunião dos presidentes de conferências episcopais por ocasião dos dez anos de Amoris Laetitia. Por outro lado, dado o tempo de recuperação necessário – o papa deve ficar uma semana no hospital –, adiar demais o procedimento poderia arriscar a visita à América do Sul, marcada para novembro. E uma viagem papal é algo que só um papa pode fazer, enquanto um encontro no Vaticano pode ser tocado por outros membros da Cúria.
Mas ninguém precisa ter todas as informações para saber que precisamos – sempre, e não só agora – rezar pelo papa, inclusive por sua saúde, para que possa cumprir bem sua missão, certo?
Autor: Gazeta do Povo








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