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Falta de diagnóstico da menopausa leva a tratamento errado – 17/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

Insônia, ansiedade, dores musculares e lapsos de memória podem ser sintomas da transição para a menopausa, mas nem sempre são associados ao climatério. Sem uma avaliação médica adequada, mulheres podem acabar usando medicamentos sem necessidade e deixar de receber cuidados que ajudariam a prevenir problemas de saúde relacionados a esse período.

A dificuldade de reconhecer esses sintomas ocorre tanto na rede pública quanto na privada, segundo a endocrinologista Ana Priscila Soares, membro da Sobrac (Associação Brasileira de Climatério). Parte do problema está na falta de capacitação para identificar a perimenopausa, período anterior à última menstruação, quando as queixas podem surgir mesmo com o ciclo menstrual regular.

“Muitas vezes, essa mulher é encaminhada para um psiquiatra, para um ortopedista, porque ela tem um ombro congelado, ou porque está com ansiedade, depressão. A gente tem muita dificuldade em fazer o diagnóstico de perimenopausa“, afirma.

A dificuldade de reconhecer os sintomas e oferecer tratamento adequado ganha destaque neste domingo (18), Dia Mundial da Menopausa, data dedicada à conscientização sobre essa fase da vida.

A endocrinologista Cristina Bellotti, diretora da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) em São Paulo, relata atender mulheres que usam diferentes remédios sem que o climatério tenha sido considerado. Segundo ela, quando há indicação de terapia hormonal, é possível aliviar várias queixas e reduzir a necessidade de outras medicações.

A dificuldade de obter atendimento adequado marcou a experiência de Adriana Ferreira, 60, fundadora e presidente do Instituto Menopausa Feliz. Aos 47 anos, lidava com ondas de calor e irritabilidade, mas os médicos não relacionavam suas queixas à transição menopausal.

“É só seu corpo envelhecendo, Adriana, acostume-se”, relata ter ouvido de um médico. Também fez uso de diferentes ansiolíticos, medicamentos usados para tratar a ansiedade, sem conseguir aliviar suas queixas. Em seu prontuário, diz que chegou a encontrar a expressão “mulher poliqueixosa”, usada para descrever pacientes com múltiplas reclamações.

“Por trás daquela palavra havia uma mulher tentando explicar o que estava sentindo”, afirma.

Somente aos 53 anos, depois de buscar informações por conta própria, encontrou uma médica com experiência no atendimento a mulheres nessa fase da vida. Na avaliação, foram identificados 48 sintomas relacionados à menopausa. Com o tratamento, Adriana relata ter conseguido aliviar as ondas de calor e melhorar sua qualidade de vida.

A experiência levou Adriana a criar, em 2021, o Instituto Menopausa Feliz, que atua na conscientização e na defesa de políticas públicas voltadas à saúde da mulher.

Nas rodas de conversa promovidas pela organização, ela passou a ouvir histórias semelhantes à sua. Mulheres que procuravam atendimento por insônia, ansiedade e alterações de humor, mas recebiam tratamento para cada queixa sem que a transição menopausal fosse considerada.

“Antidepressivos e medicamentos para insônia podem ter indicação e ser fundamentais. O problema é quando a prescrição encerra a investigação e a mulher continua sem explicação e acompanhamento”, afirma.

Adriana também chama a atenção para as desigualdades no acesso à assistência. Para mulheres que dependem de transporte público, precisam faltar ao trabalho ou encontrar alguém para cuidar dos filhos, conseguir uma consulta pode exigir uma grande reorganização da rotina.

“Quando essa mulher consegue chegar, precisamos aproveitar a oportunidade para ouvi-la por inteiro”, afirma.

O problema não se limita aos relatos recebidos pelo instituto. Um estudo publicado em 2022 na revista científica Climacteric, com 1.500 brasileiras de 45 a 65 anos, identificou sintomas do climatério em 87,9% das participantes. Entre aquelas na transição ou já na menopausa, 52,1% haviam recebido alguma prescrição médica, mas apenas 22,3% tiveram indicação de terapia hormonal.

Sintomas vão além das ondas de calor

Além das conhecidas ondas de calor, as mudanças hormonais da menopausa podem provocar palpitações, dores musculares, rigidez nas articulações, zumbido, formigamento, ressecamento dos olhos e da boca e alterações nas dores de cabeça.

Também podem surgir fadiga, mudanças de humor e a chamada névoa mental, caracterizada por esquecimentos e dificuldade de concentração. Segundo Bellotti, essas queixas muitas vezes são atribuídas à sobrecarga do cotidiano.

Soares acrescenta que cansaço e problemas de sono podem aparecer antes das irregularidades menstruais. Sem reconhecer sua possível relação com o climatério, o tratamento pode aliviar queixas isoladas sem resolver o conjunto dos sintomas.

Além de prejudicar a qualidade de vida, os relacionamentos e o trabalho, o uso desnecessário de medicamentos pode causar efeitos adversos. Alguns remédios para dormir, por exemplo, apresentam risco de dependência.

Isabel Cristina Sorpreso, professora de ginecologia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), explica que os sintomas podem começar três ou quatro anos antes da menopausa e persistir por oito a dez anos.

No Brasil, a última menstruação costuma ocorrer entre os 48 e 50 anos. A menopausa é confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruar.

O diagnóstico da perimenopausa é principalmente clínico, explica Soares, que também integra a comissão de climatério da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia). O médico deve avaliar idade, histórico de saúde, ciclo menstrual e sintomas. Exames hormonais isolados não costumam ser suficientes, pois os níveis oscilam nessa fase.

Terapia hormonal é o tratamento mais eficaz

A terapia de reposição hormonal é o tratamento mais eficaz para aliviar os sintomas da menopausa. O SUS (Sistema Único de Saúde) oferece estrogênio conjugado (0,3 mg), acetato de medroxiprogesterona (10 mg), noretisterona (0,35 mg), estrogênio conjugado tópico vaginal (0,625 mg/g) e estriol tópico vaginal (1 mg/g).

O tratamento também ajuda a prevenir a perda de massa óssea e pode tratar problemas como ressecamento vaginal e desconforto nas relações sexuais.

A terapia costuma envolver estrogênio e, para quem ainda tem útero, progesterona, necessária para proteger o endométrio. Pode ser administrada por comprimidos, adesivos ou géis, conforme a avaliação médica. Há contraindicações, como histórico de determinados cânceres e algumas doenças cardiovasculares.

Isso não significa que outros remédios sejam sempre inadequados. Entre os exemplos citados por Sorpreso estão alguns antidepressivos, que aliviam ondas de calor em mulheres que não podem receber hormônios, embora não ofereçam os mesmos benefícios para a saúde óssea.

Bellotti também destaca a importância da atividade física e da alimentação saudável. A menopausa, ressalta, não é uma doença, mas uma fase da vida que exige cuidados específicos.

Autor: Folha

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