Seis meses depois de passar por um transplante capilar de quase 4.000 folículos, posso dizer que estou mais cabeludo. Não tanto quanto gostaria, é verdade, mas as entradas que avançavam perigosamente em direção ao meio da cabeça já diminuíram bastante. O cocuruto, por outro lado, continua deixando a desejar.
Se tivesse que dar uma nota para o resultado até agora, diria que a parte frontal chegou a uns 75% do que eu esperava. Já a coroa, aquela região que fica no alto da cabeça, está mais para 50%.
O que eu não sabia, até fazer minha consulta de seis meses, é que ainda há bastante cabelo por nascer e, principalmente, muitos fios que precisam engrossar. Ou seja, tenho mais seis meses pela frente antes de poder avaliar o resultado definitivo da cirurgia.
É uma boa notícia. E não foi a única. Apesar dos problemas que vou relatar a seguir, a melhora na aparência é considerável e estou satisfeito com a decisão de ter feito o transplante.
Nas duas primeiras reportagens desta série, publicadas em abril, contei como foi a cirurgia, que custou R$ 14.800, e o pós-operatório, que trouxe uma surpresa de outros R$ 4.000 em despesas não previstas.
Agora, o assunto é o que acontece depois, quando a cabeça já voltou a ter uma aparência normal, mas o processo ainda está longe de terminar. E, no meu caso, aconteceram duas coisas desagradáveis.
Por volta do terceiro mês, comecei a sofrer com uma coceira intensa no couro cabeludo. Eram pequenas inflamações, algumas parecidas com espinhas, que surgiram principalmente nas áreas transplantadas. O diagnóstico foi foliculite.
O problema é que, quando procurei a clínica para uma avaliação, não consegui ser atendido pelo médico. Fui examinado por uma profissional da enfermagem, que não conseguiu chamá-lo. Dois dias depois, recebi uma receita de medicamento pelo WhatsApp, sem que o médico tivesse visto pessoalmente o problema.
Como a coceira continuava me incomodando, resolvi procurar uma dermatologista por conta própria. Foi ela quem conduziu o tratamento que controlou a crise.
Não estou reclamando de ter desenvolvido foliculite. Afinal, trata-se de uma complicação conhecida dos transplantes capilares. Minha crítica é não ter recebido orientações mais claras sobre essa possibilidade e, principalmente, a dificuldade de conseguir uma avaliação médica quando o problema apareceu.
Um estudo da revista científica Plastic and Reconstructive Surgery, que analisou 1.317 pacientes submetidos a transplante capilar em quatro centros médicos, encontrou foliculite em 12,1% deles.
Não é exatamente uma ocorrência excepcional. Mereceria, portanto, algum destaque nas orientações entregues aos pacientes depois da cirurgia.
Mas houve outra descoberta desagradável, e essa considero ainda mais importante, apesar de não ter tido consequências.
Entre os medicamentos que comecei a usar após o transplante estava uma loção de minoxidil, substância bastante conhecida no tratamento contra a calvície. O que ninguém da clínica me disse é que o minoxidil pode ser extremamente tóxico para gatos.
E eu tenho um gato em casa. Descobri isso por acaso, depois que uma amiga me alertou sobre o perigo. Fui pesquisar e levei um susto. O produto pode provocar intoxicações graves e até fatais nesses animais, mesmo em quantidades muito pequenas.
Segundo a ASPCA, entidade americana de proteção animal, um gato pode se intoxicar até mesmo ao entrar em contato com resíduos do medicamento deixados em travesseiros, roupas e outras superfícies.
E um estudo de 2021 no Journal of the American Animal Hospital Association analisou 211 episódios de exposição de cães e gatos ao minoxidil tópico. Entre os 62 gatos que apresentaram sintomas de intoxicação, oito morreram.
Parei imediatamente de passar o produto na cabeça, mas fiquei chateado por não ter recebido essa informação antes. Bastaria a clínica perguntar se havia animais de estimação em casa para que o assunto fosse discutido e o tratamento, adaptado.
Continuo usando minoxidil em comprimidos, além de saw palmetto, um produto de origem vegetal incluído na prescrição inicial. Já a dutasterida oral, outro medicamento contra a calvície, foi suspensa logo no começo porque me provocou uma diminuição considerável da libido.
Os folículos transferidos para as áreas calvas não impedem que os cabelos originais continuem sofrendo os efeitos da alopecia androgenética, a popular calvície hereditária. Por isso, são necessários medicamentos para preservar os fios que ainda estão na cabeça.
Outra questão importante é que nem todos os fios apresentam a mesma espessura. Alguns continuam muito finos e precisam engrossar para contribuir de maneira significativa para a cobertura da cabeça.
Na consulta de seis meses, fui atendido por uma tricologista, profissional que trabalha com a saúde dos cabelos e do couro cabeludo.
Ela utilizou um aparelho de aumento para examinar diferentes regiões da cabeça e mostrar, numa tela, os fios que já cresceram, os que ainda estão muito finos e os pontos onde outros começam a surgir.
Nas entradas, onde já considero o resultado bastante satisfatório, ainda existem fios transplantados em desenvolvimento. No cocuruto, a região que mais me preocupa, a análise mostrou que também há espaço para melhora.
A tricologista me recomendou uma nova loção manipulada, desta vez sem minoxidil, com dutasterida e outros componentes. Também recebi a orientação de aumentar a dose de minoxidil oral, receitas que recebi no dia seguinte.
A expectativa de crescimento nos próximos meses não é apenas uma aposta da clínica. Segundo a Academia Americana de Dermatologia, é normal que os resultados demorem até um ano.
Isso significa que minha avaliação de 75% na frente e 50% na coroa pode mudar bastante até abril do ano que vem.
No balanço até aqui, continuo achando que valeu a pena. O cabelo aumentou, a autoestima melhorou e a expectativa é de que o resultado ainda avance.
Vou continuar esperando os cabelos crescerem. Principalmente no cocuruto, que ainda está devendo bastante.
Autor: Folha








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