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Cirurgia reconstrói clitóris órgão após câncer de vulva – 20/10/2026 – Equilíbrio e Saúde

Pela primeira vez, pesquisadores desenvolveram uma técnica para reconstruir o clitóris de mulheres que tiveram câncer de vulva. A reconstrução da vulva (parte externa da genitália feminina) como um todo é feita há anos para preservar as funções urinária e vaginal. Mas reparar o órgão do aparelho reprodutor da mulher cuja função é o prazer sexual ainda não tinha recebido a mesma atenção.

O método foi descrito em artigo publicado na revista científica Gynecologic Oncology por uma equipe do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda. Assinam o trabalho a ginecologista oncologista Mieke ten Eikelder e o cirurgião plástico Tim Nijhuis, entre outros autores.

“Até agora, a lesão era simplesmente fechada, e o clitóris desaparecia sob uma camada de pele, com pouca atenção à qualidade de vida ou à possibilidade de o orgasmo ainda ser alcançado”, diz Ten Eikelder.

A retirada do tumor na região do clitóris costuma levar à remoção parcial ou total do órgão, com perda da sensibilidade erógena, alteração da imagem corporal e impacto psicossexual profundo, segundo os pesquisadores.

Na Holanda, cerca de 450 mulheres recebem por ano o diagnóstico de câncer de vulva. No Brasil, o número varia de 1.500 a 2.000, conforme o DataSUS.

A demora em chegar a uma técnica assim se explica pela forma como o tratamento oncológico foi conduzido historicamente, com prioridade para retirar todo o tumor e garantir a sobrevivência da paciente, afirma Alexandre Piassi Passos, diretor da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica).

“O interessante é que técnicas de preservação e reconstrução peniana após o câncer são estudadas e utilizadas há décadas. Esse trabalho mostra que precisamos dedicar à reconstrução genital feminina a mesma atenção que historicamente dedicamos à masculina”, diz Passos.

Os autores do estudo fazem o mesmo paralelo. As primeiras descrições de reconstrução do pênis após câncer datam de 1987, e hoje cirurgias que preservam o órgão são prática comum, com sobrevida semelhante à de procedimentos mais radicais e melhor preservação das funções urinária e sexual.

Há ainda uma dificuldade técnica. O clitóris tem cerca de 10 cm, mas só a ponta —a glande— é visível. O restante fica sob a pele da vulva, e o órgão é cercado por nervos e vasos que precisam ser preservados. Os autores lembram que a anatomia do orgasmo feminino foi insuficientemente estudada por muito tempo.

O câncer de vulva é raro e responde por cerca de 5% dos tumores ginecológicos no mundo. Tradicionalmente, está ligado a mulheres com mais de 60 anos, por causa de doenças crônicas de pele na região. O artigo aponta aumento da incidência e diagnósticos em idades menores, e médicos brasileiros têm alertado para o crescimento de casos em jovens, associado ao HPV.

A recuperação da vida sexual está entre as preocupações das pacientes, afirma Passos, o que mostra que a questão diz respeito à qualidade de vida.

A técnica usa o método Foldès, criado para mulheres que sofreram mutilação genital. Depois de retirar o tumor com margem de segurança, o cirurgião solta o ligamento que prende o clitóris ao osso do púbis, o que permite reposicionar o que restou do órgão sem lesar nervos e vasos. A nova ponta é coberta com um enxerto da mucosa da parte interna da bochecha, tecido parecido com o da vulva, e uma capa de pele é refeita para imitar o prepúcio.

O procedimento acrescenta cerca de 15 minutos à cirurgia, porque o enxerto é retirado da boca pelo cirurgião plástico enquanto o ginecologista opera a vulva. No início, a equipe usava pele da própria vulva, mas algumas pacientes relataram sensibilidade reduzida, e por isso passou a preferir a mucosa.

O estudo acompanhou 18 mulheres, com idade mediana de 58 anos. Dezesseis relataram conseguir ter orgasmo clitoriano após a operação, em tempo mediano de 3,5 meses, com variação de 1 a 12. As duas que não conseguiram haviam recebido enxerto de pele. Duas pacientes tiveram complicações ligadas à reconstrução, e nenhuma teve recidiva local do tumor no acompanhamento, de 6 a 84 meses.

“No início, o clitóris pode ficar hipersensível ou, ao contrário, menos sensível. Mas a recuperação costuma ser ótima após um ano”, afirma Ten Eikelder.

Os resultados, porém, são preliminares. O estudo é pequeno, foi feito em um único centro, não tem grupo de comparação e baseia-se em relato das pacientes. Passos lembra que não é possível afirmar que todas recuperaram uma função antes perdida e que nem todos os casos permitem a reconstrução, já que isso depende do tamanho do tumor e da quantidade de clitóris preservada.

A técnica pode ser trazida ao Brasil, pois usa recursos já conhecidos da cirurgia reconstrutiva e não exige tecnologia inacessível, avalia Passos. Ele defende que a introdução comece em centros especializados, com treinamento e integração entre cirurgiões oncológicos e plásticos.

Autor: Folha

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