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Pinhais

A morte da Missa em Réquiem

A reforma litúrgica desmantelou a antiga Missa pelos Defuntos: destituiu o catafalco, aboliu o uso dos paramentos negros e suprimiu o Dies Irae – hino do século XIII que constitui uma das mais perfeitas sínteses poéticas e teológicas da escatologia cristã. O resultado, porém, não foi apenas uma celebração que frequentemente se assemelha a uma antecipada e, por vezes, temerária canonização do falecido. Mais grave foi a difusão de uma concepção ingênua de redenção imediata, como se já não houvesse Juízo Final, necessidade de expiação ou mesmo o risco da condenação.

Há algumas décadas, a cerimônia católica de exéquias era revestida de uma gravidade que ultrapassava a expressão natural do luto. Não era apenas a dor da perda que se manifestava na compostura dos presentes, na sobriedade dos trajes e na solenidade dos ritos. Havia também uma consciência apreensiva acerca do destino daquele que partira. Por maior que fosse o sofrimento provocado pela separação, familiares e amigos não podiam deixar-se absorver inteiramente pela própria dor, esquecendo-se de que tinham diante de si um dever que ultrapassava o sepultamento do corpo. Se o cadáver necessitava de uma sepultura, a alma necessitava de orações.

Assim, antes de seguir para o cemitério, o féretro era conduzido à igreja, onde se celebrava a Missa pelos Defuntos, na qual a comunidade se reunia para encomendar a alma do falecido a Deus. Tratava-se de uma súplica coletiva, fervorosa e insistente, para que o Senhor não negasse abrigo àquele espírito que, assim como o corpo que permanecia entre os homens, aguardava também o seu destino. Do rito das exéquias emergia, portanto, um clamor urgente: a alma precisava das orações dos vivos, e esse dever de caridade não podia ser negligenciado.

A liturgia católica expressava a beleza e a profundidade dessa súplica por meio de textos, orações e composições acumulados ao longo dos séculos. O Requiem implorava o descanso eterno e a luz perpétua; o Dies Irae despertava a consciência para o drama inevitável do Juízo Final, com o soar das trombetas e a terrível manifestação da justiça divina; o Pie Jesu, por sua vez, insistia na confiança em um Deus compassivo, capaz de se apiedar dos pecadores. A própria disposição do espaço sagrado participava dessa linguagem com as cortinas negras que pendiam dos arcos, os tecidos pesados que revestiam o féretro e os paramentos do sacerdote exprimiam a dor da separação e a gravidade da morte, enquanto as velas acesas simbolizavam a esperança que, sustentada pelas orações, se elevava em direção à eternidade. Nada era supérfluo. Cada elemento contribuía para recordar aos vivos a seriedade da morte e a necessidade de interceder pelos que partiram.