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Como trabalhadores com diferentes tipos de crédito se reinserem no mercado de trabalho após uma demissão? ¹

​​​​​​​Por que isso importa?

O endividamento das famílias é um tema recorrente em política econômica: sabese que o volume agregado de dívida das
famílias se relaciona com o desempenho do emprego e da atividade (Mian, Sufi e Verner, 2017). Mas nem toda dívida é
igual. Um financiamento imobiliário e um empréstimo consignado (descontado diretamente da folha de pagamento) têm
prazos, taxas de juros e garantias diferentes. Essas características contratuais podem influenciar a busca por
emprego. Para manter o bem dado como garantia, por exemplo, trabalhadores podem aceitar mais rapidamente ofertas de
trabalho, ainda que menos atraentes, a fim de evitar a inadimplência e a retomada do bem pelo credor. Além disso,
diferentes segmentos da população — por exemplo, trabalhadores de diferentes idades, níveis de renda e ocupações —
tendem a concentrar suas dívidas em produtos de crédito distintos. Entender como cada tipo de contrato se relaciona
com a busca por emprego é importante para desenhar políticas de renegociação de dívidas e programas de alívio
financeiro. Uma política voltada para devedores de crédito consignado, por exemplo, pode produzir efeitos muito
diferentes e alcançar um público distinto daquele contemplado por uma política direcionada a pessoas com
financiamento imobiliário.

O que foi observado

O estudo cruzou dados administrativos de emprego no Brasil (com informações sobre salário, tempo de emprego, empresa
e data de demissão) com dados do registro de crédito do Banco Central, que contêm informações sobre a modalidade, o
valor e a situação de pagamento de cada operação de crédito. Essa combinação permite ver, para cada trabalhador
demitido, a carteira completa de dívidas que ele carregava no mês anterior à demissão e acompanhar sua trajetória
posterior: quanto tempo levou para conseguir um novo emprego formal e qual salário passou a receber.

Para comparar trabalhadores com perspectivas profissionais semelhantes, o estudo considera apenas demissões em massa
ocorridas entre 2012 e 2016, definidas como aquelas em que estabelecimentos com pelo menos 50 funcionários dispensam,
no mínimo, 30% de seu quadro (Jarosch, 2023). Essas demissões tendem a estar mais relacionadas às características do
empregador do que às características e ao desempenho individual dos trabalhadores. Além disso, a comparação é sempre
entre colegas: pessoas da mesma empresa, com a mesma ocupação, demitidas no mesmo mês, com salário e escolaridade
parecidos, mas com diferentes carteiras de dívidas bancárias. É como comparar dois colegas demitidos juntos, mantendo
constantes todas as características observáveis, para analisar o que muda de acordo com a composição de suas dívidas.

O que os dados mostram

O primeiro achado é que os trabalhadores concentram dívida em uma modalidade: 59% de quem tem dívida concentra mais
de 80% dela em um único tipo de contrato. O cartão de crédito é a modalidade mais comum: 25% dos endividados
concentram nela mais de 80% de suas dívidas. Em seguida aparecem o financiamento de veículos (15%) e o financiamento
imobiliário (9,5%) (Figura 1). Os trabalhadores que concentram suas dívidas em financiamento imobiliário têm renda e
escolaridade mais altas; antes da demissão, seu salário médio chega a ser o dobro daquele recebido pelos
trabalhadores que concentram suas dívidas em empréstimos pessoais.

Figura 1: Distribuição das participações da modalidade de crédito entre os endividados

Gráfico 1

(a) Cartão de Crédito (b) Crédito Consignado

Gráfico 2

(c) Financiamento Imobiliário (d) Empréstimo Pessoal

Gráfico 3

(e) Cheque Especial (f) Financiamento de veículos


Nota: Este gráfico apresenta as distribuições da participação de cada tipo de empréstimo na carteira
de dívida de indivíduos. Para cada indivíduo
i e tipo de empréstimo
j ∈
J = {cartão de crédito, pessoal, consignado, financiamento imobiliário, financiamento de veículo, outros},
calculamos a soma do valor total devido e do valor total em atraso,
Dij. A participação do tipo de empréstimo
j do indivíduo
i é
sij =
Dij / ∑j∈JDij. Para cada tipo de empréstimo
j, plotamos o histograma (com 5 categorias, representando faixas de 20%)
sij entre os indivíduos com nível agregado de dívida positivo, ou seja, com
∑j∈JDij > 0.

O segundo achado é que trabalhadores com contratos de crédito que envolvem garantia real, como financiamentos
imobiliários e de veículos, apresentam recolocação
mais rápida e salários
mais altos no novo emprego do que trabalhadores sem dívidas. Já as dívidas descontadas diretamente do
salário, como o consignado, não seguem o mesmo padrão.

Em números: trabalhadores com financiamento imobiliário de alto endividamento (isto é, aqueles no tercil superior da
razão entre a dívida em aberto e o salário anterior à demissão) têm uma probabilidade de recolocação em 6 meses cerca
de 5 pontos percentuais maior do que a de um colega sem dívida — um efeito equivalente a 16% da taxa média de
recolocação nesse prazo (31%) (Figura 2). Quando se recolocam, apresentam um crescimento salarial 3 pontos
percentuais maior que o de trabalhadores sem dívida. O efeito é semelhante, embora um pouco menor, para financiamento
de veículo.

Figura 2: Relação entre cada tipo de dívida, a probabilidade de recolocação e o crescimento salarial

Gráfico 4

(a) Probabilidade de realocação em até 6 meses

Gráfico 5

(b) Crescimento Salarial


Nota: O Painel (a) mostra a relação entre cada tipo de dívida e a probabilidade de recolocação em
até 6 meses; o Painel (b) mostra a relação entre cada tipo de dívida e o crescimento salarial, condicionado a se
reempregar em até 24 meses após a demissão. A comparação é com um colega sem dívida, na mesma empresa e demitido no
mesmo mês. Para cada modalidade de crédito, o grupo 0 é composto por indivíduos sem dívida em aberto nessa modalidade
específica. Os indivíduos com saldo devedor positivo na modalidade analisada são divididos em três grupos de igual
tamanho, definidos pelos tercis da razão entre o saldo da dívida e o salário. O grupo 1 corresponde ao menor tercil;
o grupo 2, ao tercil intermediário; e o grupo 3, ao maior. No Painel (a), o eixo vertical apresenta os coeficientes
estimados em escala de probabilidade. Por exemplo, um coeficiente de 0,02 representa um aumento de 2 pontos
percentuais na probabilidade de recolocação. No Painel (b), o eixo vertical apresenta os coeficientes estimados em
termos de crescimento salarial. Por exemplo, um coeficiente de 0,02 indica um crescimento salarial 2 pontos
percentuais maior em relação ao grupo 0.

Por fim, o estudo não encontra evidência de que a modalidade de crédito influencie a decisão do trabalhador de mudar
de município, de ocupação ou de setor ao buscar um novo emprego — a dívida se correlaciona com a
velocidade e o
salário da recolocação.

Como interpretar esse resultado

Uma explicação possível é que a dívida com garantia funciona como um mecanismo de disciplina: perder o imóvel ou o
carro em caso de calote é custoso, o que pode incentivar uma busca mais intensa por um bom emprego. Já a dívida
descontada da folha, por garantir o pagamento enquanto a pessoa está empregada, não gera o mesmo estímulo (Coelho, De
Mello & Funchal, 2012), sendo mais consistente com a teoria do
debt overhang – o excesso de dívida desestimula o esforço de trabalho (Donaldson, Piacentino & Thakor,
2019). Parte do resultado pode refletir características dos tomadores que não estão disponíveis nos dados, e não um
efeito causal do endividamento em si. Por exemplo, quem tem acesso a crédito com garantia real pode já apresentar
melhores perspectivas de emprego antes mesmo de contratar o financiamento.

O que isso significa na prática

Os resultados tem implicações para o desenho de políticas de alívio e renegociação de dívidas. Como cada modalidade
de crédito afeta um grupo distinto de trabalhadores e se relaciona de forma diferente com a recolocação no mercado de
trabalho, políticas voltadas para dívidas de cartão de crédito podem alcançar outro público e operar por mecanismos
diferentes daqueles de políticas direcionadas a financiamentos imobiliários. Tratar o endividamento das famílias como
se todas as dívidas fossem iguais pode ocultar diferenças importantes. Por isso, o desenho dessas políticas deve
considerar não apenas o valor total da dívida, mas também sua composição.

Este texto é baseado no paper Household Debt Composition and Labor Market Outcomes, de autoria de Nelson Camanho (ESCP Business School), Toni dos Santos (Banco Central do Brasil), Jesús Gorrín (Universitat de Illes Balears) e Bernardo Ricca (Insper).​

Notas

1 Camanho: ESCP Business School, Dos Santos: Banco Central do Brasil, Gorrín: Universitat de Illes
Balears, Ricca: Insper.

2 As categorias não são mutuamente excludentes: um mesmo trabalhador pode ter mais de um tipo de crédito.

Referências

Camanho, N., dos-Santos, T. R. E., Gorrín, J. & Ricca, B. (2025).
Household Debt Composition and Labor Market Outcomes (Working Papers Series N. 616). Central Bank of Brazil,
Research Department. Recuperado de
https://www.bcb.gov.br/content/publicacoes/WorkingPaperSeries/WP616v2.pdf

Coelho, C. A., De Mello, J. M. & Funchal, B. (2012).
The Brazilian payroll lending experiment.
Review of Economics and Statistics, 94(4), 925–934. doi:https://doi.org/10.1162/REST_a_00228

Donaldson, J. R., Piacentino, G. & Thakor, A. (2019). Household Debt Overhang and Un-employment.
The Journal of Finance, 74(3), 1473–1502. doi:https://doi.org/10.1111/jofi.12760

Jarosch, G. (2023). Searching for job security and the consequences of job loss.
Econometrica, 91(3), 903–942. doi:https://doi.org/10.3982/ECTA14008

Mian, A., Sufi, A. & Verner, E. (2017). Household debt and business cycles worldwide.
The Quarterly Journal of Economics, 132(4), 1755–1817. doi:https://doi.org/10.1093/qje/qjw006​

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