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Por que o Brasil não é tão feliz quanto parece? – 15/04/2026 – Equilíbrio

Praias, sol, Carnaval, samba, funk e futebol. É difícil falar do Brasil sem citar esses elementos, símbolos da identidade do país intrinsicamente ligados à ideia de alegria.

Frio, neve, silêncio e meses inteiros com dias de apenas duas horas de luz. Essas, por outro lado, são as imagens associadas à Finlândia —e muitas vezes vinculadas, inclusive pelos próprios finlandeses, à tristeza e à solidão.

De um lado, está o país mais feliz do mundo; do outro, aquele que ocupa a 32ª posição, segundo o “World Happiness Report”, estudo produzido pela Gallup, uma consultoria internacional conhecida por suas pesquisas de opinião.

A surpresa, para muitos brasileiros, é descobrir em qual dessas posições está o Brasil: a 32ª —e não a 1ª. Mas por quê? Em resumo, porque felicidade não se resume à alegria.

Uma consulta a dicionários pode ser útil: o Aurélio, um dos mais tradicionais do Brasil, define felicidade como um “estado de contentamento e satisfação”; o Houaiss, outro célebre guia lexicográfico do país, diz que feliz é quem tem “desejos, aspirações e exigências atendidos ou realizados” – e não apenas quem é alegre.

É possível afirmar que, em geral, os brasileiros têm seus desejos atendidos? A pergunta não tem resposta simples, mas esse cenário tende a ser mais comum em sociedades com estruturas mais sólidas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

Como o ranking da felicidade é feito e quais são suas limitações

O estudo se baseia em uma única pergunta, feita a cerca de mil pessoas em cada país: “Imagine uma escada de zero (pior vida possível) a dez (melhor vida possível). Em qual degrau você está hoje?”

A partir das respostas, os pesquisadores calculam uma média e, com base nela, ordenam 147 países.

Esse número, porém, leva em conta não só as respostas do ano em que a pesquisa foi feita, mas também as dos dois anos anteriores. Não reflete, portanto, a percepção de felicidade em um ano específico, apesar de o ranking ser anual.

Mas Jullie Ray, editora-chefe da Gallup para análises internacionais, afirma que o ranking é, em certa medida, imune a essas questões.

“Não dá para ignorar a cultura ao analisar a percepção desses indicadores, mas a pergunta central —em que degrau da vida a pessoa se coloca hoje— tende a ser menos influenciada por fatores culturais do que questões sobre emoções do dia a dia”, diz.

“Os rankings não se baseiam na percepção de alegria nem no humor das pessoas —esses, sim, são mais impactados pela cultura.”

Ray acrescenta que a posição do Brasil não deve ser considerada baixa. Pelo contrário, o país está no primeiro terço da lista.

“Entre 147 países, o Brasil está no 32º lugar. Não é algo a se lamentar ou a encarar como um fracasso.”

Felicidade no Brasil é ligada à fé, não à racionalidade, diz pesquisadora

O tema da felicidade despertou o interesse da executiva Renata Rivetti, fundadora da consultoria Reconnect —Happiness at Work, que assessora multinacionais com sede no Brasil sobre como melhorar a qualidade de vida de seus funcionários.

Ela acaba de realizar uma pesquisa com o Instituto Ideia. O estudo sugere que, no Brasil, a felicidade está mais associada à fé do que à racionalidade. Em outras palavras, diz Rivetti, a percepção dos brasileiros nem sempre se sustenta sob escrutínio científico.

O levantamento quantitativo, realizado entre 20 de fevereiro e 1º de março com 1.500 brasileiros de dez recortes demográficos em todas as regiões do país, aponta que 90% dos entrevistados se consideram felizes, embora 29% relatem sentir-se preocupados e estressados.

O índice de felicidade é menor entre a geração Z (16 a 24 anos), grupo no qual 81% afirmam ser felizes.

Entre os fatores que contribuem para a felicidade, destacam-se salário, flexibilidade e estabilidade. Já os principais elementos associados à infelicidade são sobrecarga de trabalho, salário e liderança ruim.

Um dos achados mais curiosos, segundo Rivetti, é o alto nível de desconfiança nas instituições —81% acreditam que a corrupção está disseminada no governo e 66% nas empresas— e, ainda assim, 94% mantêm a esperança em um futuro melhor.

Formada em administração pela FGV (Fundação Getulio Vargas) e com especialização pela Happiness Studies Academy, em Nova Jersey, a executiva distingue o que chama de “felicidade declarada” da “felicidade vivida”.

“A gente associa felicidade à alegria, enquanto países como a Finlândia tratam o tema de forma científica, inclusive como política pública”, afirma.

Ela defende que a felicidade se constrói a partir de três pilares: alegria —relacionada a momentos de conexão, afeto e pertencimento; satisfação —ligada à sensação de progresso e realização; e significado —associado à percepção de propósito e coerência na vida.

Esse modelo foi desenvolvido por Arthur C. Brooks, professor da Universidade de Harvard e uma das principais vozes da chamada ciência da felicidade. Ele escreve uma coluna sobre o tema no jornal The Atlantic e tem livros que figuram entre os mais vendidos nos Estados Unidos.

Brooks argumenta que felicidade não é um estado permanente de euforia, mas o resultado do equilíbrio entre esses três elementos. No Brasil, avalia Rivetti, é difícil afirmar que esses pilares se manifestem de forma plena —ao menos não a ponto de explicar os 90% de brasileiros que se declaram felizes.

É nesse contexto que a religiosidade —não contemplada pelo “World Happiness Report” —aparece como um fator relevante na pesquisa brasileira: entre pessoas religiosas, especialmente evangélicos, há maior proporção de indivíduos que se dizem felizes.

“Na Finlândia, não é a fé que sustenta a felicidade, mas uma estrutura confiável. É um país onde as instituições funcionam. Lá, a racionalidade leva à felicidade. No Brasil, se formos muito racionais —e olharmos para corrupção, insegurança e pressões do trabalho—, vamos reduzir nossa sensação de felicidade”, diz Rivetti.

Ela aponta ainda lacunas para termos uma felicidade consistente. “A confiança tem muito impacto na felicidade dos países nórdicos. Eles deixam carrinhos de bebê do lado de fora de supermercados enquanto fazem compras. No Brasil, não deixaríamos nem um cachorro sozinho, porque já houve casos de furto de animais.”

“Desde que nascemos, ouvimos que o Brasil é o país do futuro. Isso molda nossa autopercepção de felicidade”, ela acrescenta. “Mas que mudanças estruturais estamos promovendo para construí-la? Não estamos. Por isso, acaba sendo mais fácil acreditar que Deus —ou qualquer outra fé— vai cuidar de nós.”

As avaliações de brasileiros que vivem na Finlândia ilustram as contradições sobre o que é ou não ser feliz. Eles não poupam os elogios, mas fazem ressalvas e dizem que não é fácil viver no país mais feliz do mundo.

Esse é o caso de Flávia Gontijo, 31, e Pablo Carvalho, 34, mineiros que vivem no país desde 2020. O casal se mudou depois que ela teve a oportunidade de fazer doutorado por lá.

Carvalho, mestre em química, conseguiu emprego apenas um ano depois, mas diz que, desde o início, pôde sentir o apoio do governo finlandês em aspectos que, justamente, levam a Finlândia ao topo do ranking da felicidade.

“Cheguei e tive acesso a seguro-desemprego mesmo nunca tendo trabalhado aqui. Se eu quisesse estudar finlandês, o valor aumentava. Fiquei quase um ano só estudando finlandês e procurando emprego”, diz Carvalho.

“Já faz uns seis anos, mas na época eram uns 700 euros, somados ao auxílio-transporte e alimentação. Também teria direito a auxílio-aluguel, mas não precisei pegar. Nesse sentido, eles foram super receptivos.”

Gontijo, doutora em química, afirma que uma das facilidades foi ter uma profissão transferível para a Finlândia. Pesquisadores são hoje prioridade no país, que tem milhares de vagas abertas, segundo a Work in Finland, órgão governamental responsável por promover o mercado de trabalho finlandês e atrair estrangeiros.

No entanto, mesmo para quem está começando do zero, ela afirma, o governo fornece auxílios para tentar reduzir a desigualdade social.

“A gente observa pelo estilo de vida: todo mundo tem o mesmo. Você vai ao mesmo restaurante que o pessoal da universidade, o das empresas, o da construção civil.”

“Em Helsinque, você vai gastar muito com aluguel, se quiser morar bem, mas com o resto não há tanto gasto. O transporte público tem um valor acessível, a saúde é pública, a educação é gratuita e de qualidade, o lazer tem muita coisa de graça, como museus e parques.”

Gontijo avalia que viver em um lugar onde não é preciso se preocupar com o básico necessário para a vida —como alimentação, transporte e educação— traz, sim, uma sensação de felicidade. Mas é algo mais ligado à satisfação do que à alegria.

“No Brasil, era sempre uma luta para ter acesso ao básico. Na Finlândia é o oposto. Mas o resto também é o oposto: o clima é horroroso, quando faz 2°C com sol a gente comemora e, depois de seis anos, ainda não sei lidar. E dificulta passar por tudo isso isolado, porque não é nossa cultura, nossa comida, nossa família”, diz ela.

“Exige um esforço grande para ter contato humano. Fazer amizade com finlandês é difícil. Eles não têm a demanda da conversa”, ela acrescenta. “É uma barreira que eu nunca superei, e isso me dói. É uma vitamina para a qual não tem reposição. A Finlândia não vai mudar. Ou a gente muda daqui, ou a gente muda aqui.”

Embora o casal não planeje voltar ao Brasil, tampouco deseja viver a vida toda na Finlândia, principalmente agora que eles têm uma filha, de dois anos. É “questão de terapia” a dificuldade de criar uma criança finlandesa que não deixe de ser brasileira.

“Antes, a gente vivia uma bolha, mas a criança te obriga a estourar essa bolha”, diz ela.

“Com seis anos, a criança pode ir e voltar sozinha da escola e ficar sozinha em casa. É esperado que seu filho faça tudo sozinho o mais rápido possível. Com 12 anos, você perde os direitos médicos sobre seu filho. Se ele não quiser tomar uma vacina, você não pode obrigá-lo. Em termos até legais, é muito diferente.”

A designer Jane Vita, 47, sabe bem dessas diferenças. Entre idas e vindas, com um intervalo de uma volta ao Brasil e outro de uma passagem pelo Canadá a trabalho, a paranaense vive na Finlândia há 18 anos.

Dois de seus filhos nasceram na Finlândia, e ela nota que, para eles, a vida no país é mais fácil. “Uma das coisas que sinto falta é de não ter amigos de infância aqui, não ter visto os mesmos desenhos, ter consumido as mesmas marcas, porque isso traz histórias. Eles têm histórias para dividir entre eles que, para mim, não fazem sentido”, ela explica.

“Eu estou mais conformada do que adaptada”, Vita acrescenta, entre risos. “No verão, tudo é lindo: é muito legal sair do trabalho às 16h e ir à praia. Você se distrai e, de repente, já são 22h e ainda tem luz. Mas o inverno é difícil. Se você não se mantiver ativo, se dispor a ir para a academia, a ir tomar um café, você hiberna, entra em depressão.”

Jane considera que, para explicar todas essas diferenças, é preciso ir até a raiz da riqueza da Finlândia: o capital humano. É muito diferente de países como o Brasil, que se ancoram, diz, em riquezas naturais.

É por isso, ela afirma, que há tanto investimento em educação, incluindo bolsas de quase 1.000 euros para estudantes pagarem seu próprio aluguel, viverem e, em última análise, serem independentes dos pais o mais cedo possível.

Embora considere que esteja criando cidadãos não do Brasil ou da Finlândia, mas do mundo, Vita reconhece que há diferenças profundas entre cada cultura e que as adaptações podem ser difíceis.

Ela cita o exemplo do happy hour: “No Brasil, às vezes é até cansativo, depois de ter trabalhado o dia inteiro, sair direto para o bar. Mas traz aquela energia. É um momento de restauração. Aqui na Finlândia, como não se tem esse dia exaustivo no trabalho, você vai para casa. Não há necessidade de se restaurar como no Brasil.”

O texto foi publicado originalmente aqui.

Autor: Folha

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