Aprovado para uso contra ao menos 19 tipos de câncer, o remédio Keytruda, da farmacêutica americana Merck Sharp & Dohme (MSD), é vendido no Brasil por mais de R$ 20 mil. O alto valor da medicação faz com que muitas vezes ela seja inacessível para os que mais precisam no mundo todo.
Desde o seu lançamento em 2014, quando foi aprovado pela FDA dos Estados Unidos, o remédio já prolongou a vida de milhões de pessoas, em alguns casos transformando diagnósticos anteriormente fatais em doenças controláveis. Mas nem todos os pacientes oncológicos podem contar com esse “luxo”.
Uma investigação internacional conjunta publicada na segunda-feira (13) apontou que a MSD tem se utilizado de uma combinação de estratégias legais e comerciais para determinar quem tem acesso à medicação. Ou seja, a empresa decide, através de sistemas de preços, proteções de patentes e marcos regulatórios quem terá uma chance ou não na luta contra o câncer.
O projeto batizado de Cancer Calculus é uma iniciativa do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), em parceira com 47 veículos jornalísticos.
Campeão de vendas
O Keytruda pertence a uma classe de imunoterápicos que permitem ao sistema imunológico atacar as células cancerígenas e gerou, só em 2025, uma receita de vendas de US$ 31,7 bilhões (cerca de R$ 160 bilhões). Isso corresponde a quase metade da receita total da MSD. O sucesso de vendas, no entanto, não foi capaz de reduzir o preço do Keytruda.
Os custos do tratamento seguem exercendo pressão crescente sobre os sistemas de saúde em todo o mundo. As despesas anuais com tratamento variam de aproximadamente US$ 80 mil (cerca de R$ 400 milhões) na Alemanha a US$ 208 mil (cerca de R$ 1 bilhão) nos EUA. Esses valores estão sobrecarregando os orçamentos públicos, inclusive em países ricos.
Nos últimos anos, o Keytruda contou com uma expansão global bastante acelerada. Entre 2020 e 2024, as vendas aumentaram 265% no Brasil. Na França, o aumento foi de 232% e na Turquia, de 584%.
Com o aumento contínuo dos preços dos medicamentos nos EUA, o presidente Donald Trump se reuniu com executivos da indústria farmacêutica em dezembro passado e prometeu reduzir os custos. Embora as empresas tenham sinalizado possíveis reduções de preços, a MSD não se comprometeu publicamente com nenhum corte no preço da medicação.
Pesquisas no Reino Unido mostram que, em alguns casos, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) paga um valor excessivo pelo Keytruda. Um estudo constatou que, para alguns pacientes com câncer de pulmão, o valor pago pelo medicamento chegou a ser cinco vezes maior do que seu custo-benefício.
Preços, patentes e poder
O projeto Cancer Calculus revelou que a MSD utilizou uma combinação de estratégias legais e comerciais para manter sua posição dominante.
Um dos aspectos mais importantes é o uso extensivo do sistema de patentes. Jornalistas identificaram pelo menos 1.212 pedidos de patente relacionados ao Keytruda em 53 jurisdições diferentes. Desses, 88 são no Brasil.
De acordo com a investigação, embora as principais patentes do medicamento devam expirar em 2028, as patentes de continuação podem estender o monopólio de mercado até pelo menos 2042. Isso poderia atrasar a entrada de alternativas mais baratas no mercado em mais de uma década.
Para especialistas do setor, a situação é vista como uma “fortaleza de patentes” criada para sufocar a concorrência.
A companhia rejeita as críticas e afirma que suas aplicações refletem a inovação contínua, incluindo novos casos de uso, formulações e combinações.
A investigação também expôs processos regulatórios e esforços de lobby que ajudaram a expandir o uso do medicamento, bem como relações financeiras estabelecidas com médicos e grupos de pacientes.
Um estudo realizado nos EUA constatou que a prescrição de medicamentos oncológicos administrados por médicos, como o Keytruda, aumentou 4% nos 12 meses seguintes ao recebimento de financiamento de uma empresa farmacêutica por um profissional de saúde.
Quanto a isso, a MSD afirma que essas colaborações ajudam a informar a comunidade médica e melhorar o atendimento ao paciente, e que qualquer apoio fornecido às organizações de pacientes é independente das decisões de prescrição.
Preços exorbitantes, falta de transparência
Os preços de tabela do Keytruda variam bastante. Na Indonésia, um frasco do medicamento (100 mg) custa aproximadamente US$ 850 (cerca de R$ 4.200), enquanto nos EUA esse valor ultrapassa os US$ 6.000 (cerca de R$ 30 mil). Essa diferença é resultado de um sistema de preços pouco transparente, caracterizado por descontos ocultos e negociações.
Mesmo onde os preços parecem mais baixos, a acessibilidade costuma ser pior. Nos EUA, um paciente com renda média pode pagar menos de cinco doses por ano. Em contraste, na África do Sul, uma pessoa com renda mediana não consegue pagar nem mesmo uma única dose (200 mg) por ano.
O estudo também revelou casos em que a oferta limitada obrigou os médicos a tomar decisões entre a vida e a morte.
Uma característica comum se destaca em todos os países: o sigilo. Em alguns países, as autoridades se recusam a divulgar os gastos públicos ou o número de pacientes relacionados ao Keytruda, frequentemente alegando “segredos comerciais”.
Keytruda no Brasil
O alto custo dos medicamentos contra o câncer levou a um aumento repentino de processos judiciais no Brasil. Nos últimos anos, milhares de ações judiciais foram movidas por pacientes que buscam acesso ao tratamento por meio de ordens judiciais.
De acordo com o Poder 360, veículo brasileiro que participou da apuração, o Keytruda corresponde ao medicamento com mais judicializações em território nacional, com 6.700 ações em instâncias estaduais e federais e 4.600 pareces técnicos emitidos pelo Judiciário.
No final de março deste ano, o governo brasileiro anunciou uma parceria estratégica para a produção do pembrolizumabe pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A ação prevê a transferência de tecnologia da MSD para o Instituto Butantan, fomentando a produção nacional do medicamento, o que deve permitir a ampliação da quantidade de tipos de câncer atendidos pelo tratamento na rede pública de saúde. Atualmente, o Keytruda só é receitado no tratamento de melanoma.
Além disso, a produção própria deve reduzir o custo do produto no mercado nacional.
Debates sobre dosagem e aumento de custos
A investigação internacional também levantou questões sobre como o medicamento é prescrito. Alguns pesquisadores argumentam que o Keytruda é frequentemente administrado em doses maiores do que o necessário.
A OMS estima que a simples mudança para a dosagem baseada no peso para pacientes com câncer de pulmão poderia gerar uma economia de aproximadamente US$ 5 bilhões em todo o mundo ao longo de 15 anos.
Em muitos países, os hospitais já começaram a testar doses mais baixas, com os resultados iniciais apontando para níveis de eficácia semelhantes.
A MSD, no entanto, argumenta que suas recomendações de dosagem são baseadas em evidências clínicas abrangentes e aprovações regulatórias.
MSD: Os preços refletem o valor
Ao ser contata pelo ICIJ, a MSD defendeu sua estratégia, afirmando que o preço do Keytruda “reflete seu valor para pacientes e sistemas de saúde”.
A empresa também afirmou que o acesso a medicamentos é uma questão “multifacetada”, dependendo não apenas do preço, mas também de muitos outros fatores, como sistemas de saúde, políticas de reembolso e infraestrutura.
A MSD confirmou que aplica preços variados em diferentes mercados e mantém programas de apoio ao paciente. A farmacêutica também observou que participa ativamente de programas para aumentar o acesso a medicamentos em países de baixa e média renda.
A companhia também enfatizou que fatores sistêmicos mais amplos, como seguradoras e intermediários, estão entre as principais causas dos altos custos, particularmente nos EUA.
Sistema global sob pressão
O estudo revela que as práticas da MSD não são exclusivas, mas refletem uma dinâmica mais ampla da indústria farmacêutica, onde a proteção de patentes, as estratégias de preços e os marcos regulatórios frequentemente favorecem os fabricantes.
Segundo Nasır Nesanır, chefe do Departamento de Saúde Pública da Associação Médica Turca, em entrevista à DW Turquia, essas desigualdades apontam para problemas estruturais mais profundos.
“A questão não é simplesmente um debate sobre preços. Trata-se de saber se o progresso no tratamento do câncer deve ser um direito universal ou um privilégio dependente do mercado”, diz.
Autor: Folha








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