Começa nesta sexta-feira (17) em São Francisco, Califórnia, a conferência Psychedelic Culture (PCU26). Organizada pelo Instituto Chacruna, que tem a antropóloga brasileira Beatriz Labate como diretora executiva, durante três dias mais de 200 expositores discutirão o momento delicado vivido pelo chamado renascimento psicodélico.
Para começo de conversa, nem é o caso de falar em “renascimento” de algo que nunca morreu. Psicodélicos como mescalina, psilocibina de cogumelos, dimetiltriptamina da ayahuasca e da jurema ou LSD nunca deixaram de ser usados, ainda que forçados à clandestinidade pela repressão proibicionista dos anos 1970.
Por exemplo, estará na PCU26 o militante Rick Doblin, que fundou há exatos 40 anos a Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos, mais conhecida pela sigla em inglês Maps. Ele vai participar do painel sobre “Ciência, Cultura e o Papel em Transformação da Pesquisa Psicodélica Hoje”.
Doblin terá muito a contar, após ver frustrada sua luta de quatro décadas para tornar o MDMA (ecstasy) um medicamento legalizado para apoiar psicoterapia no tratamento de transtorno de estresse pós-traumático. O pedido de licenciamento foi rejeitado em 2024 pela agência de fármacos FDA. Um revés duro para a via farmacológica de reabilitação dos psicodélicos.
Não faltam críticos dessa estratégia, que poderá desembocar numa hipercomercialização à moda da cannabis nos EUA. Não em dispensários cujos preços restringem o acesso, mas em clínicas de luxo em que terapeutas-babás acompanharão as viagens de endinheirados impulsionadas por substâncias protegidas por patentes e administradas por milhares de dólares.
Se for por aí, a voga psicodélica se afastará ainda mais das tintas libertárias com que emergiu nos anos 1960 —para não falar do legado de usos ancestrais por povos indígenas. Um dos epicentros estava justamente em São Francisco, em que hippies, gays, negros e feministas bagunçaram o coreto do American Way ao som de Grateful Dead.
PCU26 busca resgatar esse espírito em torno dos temas de justiça, reciprocidade e equidade psicodélicas. Monica Williams, do Conselho Diretor do Chacruna, falará por exemplo do papel dessas medicinas no enfrentamento de traumas raciais. “A principal contribuição de Cultura Psicodélica é realizar a conversa, trazendo conhecimento indígenas, ética e contexto cultural e volta ao coração do campo psicodélico”, diz Labate.
Em certa medida, foi essa também a tônica de outra conferência, “Psychedelic Intersections: Bridging Humanities, Religion and Law” (intersecções psicodélicas: fazendo a ponte entre humanidades, religião e direito), dias 10 e 11 de abril na Universidade Harvard. E logo no Centro para o Estudo de Religiões do Mundo (CSWR, em inglês) da Faculdade de Teologia, dessa que é a meca do conhecimento científico nos EUA.
O tom do evento foi dado já no discurso principal do primeiro dia por Ramzi Fawaz, da Universidade de Wisconsin, apresentador do podcast Nerd from the Future. Ele se declarou profundamente desinteressado no modelo médico que se pretende responsável por ter ressuscitado os psicodélicos: “Não vai curar ninguém”, tascou.
“A beleza dos psicodélicos é que eles são imprevisíveis”, assim como a cultura, na sua opinião. “Não existe bala de prata”, disse o professor, que vê nos psicodélicos o império da multiplicidade e da contingência. Até a convencional explicação de seu efeito como dissolução do ego ele rejeita, pois, no seu caso, o que experimentou foi “uma multiplicação do ego”.
A cultura psicodélica, como toda forma de cultura, está sempre em transformação. Só não está claro se será para melhor ou para pior.
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Autor: Folha








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