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Atrasos em data centers ameaçam frear a expansão da IA – 17/04/2026 – Tec

Os atrasos na construção de novos data centers nos Estados Unidos, responsáveis pelo processamento dos dados que sustentam grande parte dos serviços via internet, ameaçam retardar a expansão da inteligência artificial pelas maiores empresas de tecnologia do mundo.

Quase 40% dos projetos previstos para este ano correm risco de não serem entregues no prazo. Grandes obras para a Microsoft, a OpenAI e outros grupos de tecnologia devem atrasar mais de três meses, segundo dados compartilhados com o FT pela SynMax, empresa de análise por satélite.

Mais de uma dúzia de executivos do setor afirmaram que complexos com capacidade de centenas de megawatts estão sendo freados por entraves burocráticos e escassez crônica de mão de obra, energia e equipamentos.

Esses gargalos surgem como um obstáculo central para que as empresas convertam em receita os bilhões de dólares investidos em IA. Com isso, os investidores se preocupam com o risco de que o retorno demore mais do que o esperado.

As grandes empresas de tecnologia correm para construir complexos de processamento de dados cada vez maiores, buscando colocar em operação instalações que consumirão ao menos 1 gigawatt de eletricidade —o equivalente à produção de uma usina nuclear.

Alguns desses projetos devem ser concluídos ainda este ano, segundo a empresa de pesquisa Epoch, incluindo obras da Amazon Web Services, da Meta e da xAI, de Elon Musk.

Mas os prováveis atrasos em muitos outros revelam uma lacuna crescente entre a escala dos investimentos em IA e a capacidade das empresas de entregar a infraestrutura necessária para sustentá-la.

“Financiamento nessa escala é difícil. A logística é difícil. A construção e a operação são difíceis”, disse Wes Cummins, diretor-executivo da operadora de data centers Applied Digital.

Para estimar as datas prováveis de conclusão, a SynMax usa imagens de satélite para acompanhar o andamento das obras, desde a preparação do terreno até a execução das fundações. Esses dados são confrontados com parâmetros do setor compilados pela IIR Energy, que monitora declarações públicas, documentos de licença e realiza entrevistas presenciais.

Um dos casos mais notórios é um complexo de 1,4 gigawatt no condado de Shackelford, no Texas, sendo desenvolvido para a Oracle. A empresa vai equipá-lo com chips e fornecer capacidade computacional à OpenAI.

O terreno de quase 500 hectares deve abrigar dez edifícios. A Vantage Data Centers, responsável pela construção, disse em agosto que o primeiro prédio seria entregue no segundo semestre de 2026. Imagens de satélite mostram terreno preparado para seis instalações, mas, no início de abril, apenas uma delas apresentava sinais de obra em andamento. A SynMax estima que a entrega mais cedo possível seria em dezembro —seguindo o ritmo médio de obras semelhantes, o prazo se estenderia até o final de 2027.

Outros complexos ligados à OpenAI também parecem avançar lentamente. No condado de Milam, no Texas, onde o cofundador Greg Brockman disse no mês passado que um projeto de 1,2 gigawatt estava “tomando forma”, as imagens de satélite mostram construção iniciada em apenas uma instalação. Entre os grandes projetos da empresa no Texas, só o de Abilene deve ser concluído este ano.

A OpenAI declarou: “Nossa histórica expansão de data centers está dentro do cronograma e vamos acelerar a partir de agora. Em parceria com a Oracle, a SB Energy e outros parceiros, estamos avançando rapidamente em Abilene, no condado de Shackelford e no condado de Milam, no Texas.”

A Oracle afirmou que cada data centers que desenvolve para a OpenAI avança dentro do prazo e que as obras seguem conforme o planejado. A SB Energy disse que o centro de dados do condado de Milam está no cronograma e a caminho de se tornar um dos mais rapidamente entregues em sua categoria.

Dois executivos de construção envolvidos em projetos ligados à OpenAI afirmaram que faltam trabalhadores especializados —de eletricistas a encanadores industriais— para atender à demanda, enquanto as empresas constroem instalações cada vez maiores e mais complexas. A sobrecarga nas redes elétricas e a escassez de equipamentos como turbinas a gás e transformadores também estão causando atrasos. Localizações remotas elevam os custos de mão de obra em até 30%, acrescentaram.

Doug O’Laughlin, presidente da SemiAnalysis, disse que a concentração de projetos em algumas regiões acirra a concorrência até entre fornecedores que atendem ao mesmo cliente final.

“A OpenAI está, na prática, competindo com ela mesma”, afirmou. “Os trabalhadores migram entre projetos em busca de salários melhores. Para quem fica, mesmo fazendo horas extras, vai ser difícil cumprir esses prazos.”

A Nebius, empresa que constrói capacidade computacional para clientes, fechou um acordo com a Microsoft no ano passado para erguer uma instalação de 300 megawatts em Vineland, Nova Jersey, entregando com sucesso a primeira fase até o fim de 2025. Imagens de satélite sugerem que as fases mais recentes avançam mais lentamente, com estruturas instaladas, mas prazos escorregando. Imagens térmicas do local indicam que os equipamentos ainda não foram ligados.

O projeto de Vineland enfrentou entraves de licenciamento e resistência da comunidade local. Um processo formal de consulta pública também foi solicitado —etapa que costuma estender os prazos e sinaliza oposição crescente dos moradores.

A Microsoft não quis comentar. A Nebius disse que todas as fases do acordo com a Microsoft foram entregues dentro do prazo até agora e que não vê, no momento, problemas que possam afetar de forma relevante as próximas entregas.

A SynMax estima que mais de 60% dos projetos previstos para o ano que vem ainda nem começaram a ser construídos, aprofundando as preocupações com atrasos no crescimento do setor.

“Há um impulso por velocidade e desenvolvimento que bate de frente com a lentidão regulatória”, disse Josh Price, diretor de energia da Capstone, empresa de estratégia. “A escala e a complexidade desses projetos vão inevitavelmente gerar mais escrutínio e, potencialmente, mais atrasos.”

Cummins, da Applied Digital, concluiu: “Vamos ver uma série de tropeços e atrasos este ano. Meu foco é garantir que não sejamos nós.”

Autor: Folha

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