Tenho despertado por volta das cinco da manhã. Não adianta querer voltar a dormir porque não consigo. Levanto, pego meu cachorro e saímos para passear na praça perto de casa.
A madrugada já foi aterrorizante para mim, sobretudo no começo da recuperação. Eu acordava quase sempre no susto. O corpo intoxicado não me deixava dormir, eu praticamente desmaiava. Acordava alarmada, suada. Não me lembrava de nenhum sonho, se é que tinha algum. Mesmo tendo parado de beber, a substância continuou encharcando minhas entranhas por mais um ano. Depois o sono melhorou, os sustos acabaram e eu finalmente comecei a experimentar algo saudável.
Hoje lá se vão mais de oito anos sem beber. Nem uma gota, nada. É preciso evitar o primeiro gole, aprendi no AA. Sou compulsiva e impulsiva —depois de dar a largada, frear é impossível. Mas agora, após me descobrir bipolar, voltei a perder o sono. A grande diferença é que dessa vez não tenho medo da noite. Espero o dia clarear. Tem sido assim nas últimas semanas, talvez devido aos remédios.
Trabalhei para um escritor estrangeiro que me contou que também acordava por volta das cinco da manhã e ia dar umas voltas no bosque perto da casa dele. Contou que a inspiração surgia nessa hora. Depois, quando o dia raiava e as pessoas começavam a aparecer nas redondezas, ele se trancava para escrever.
Experimento uma sensação muito parecida. Quando saio com meu cachorro para a praça, o meu bosque, o dia ainda não clareou, não tem quase ninguém na rua. Tanto que nem boto coleira nele, para a gente poder correr. Aos poucos, bem devagarinho, surge uma figura aqui, outra ali. Então já andamos e corremos muito.
Muitas vezes penso na sorte que tenho por ter conseguido parar de beber em definitivo. Os benefícios são inúmeros. Andar e às vezes dar alguns trotes não seriam possíveis na ativa. Aliás, sentia certo horror quando saía de casa para trabalhar e via as pessoas deixando a academia. Já tendo treinado, tomado banho e se arrumado. Se a pessoa podia ficar um pouco mais de tempo dormindo, para que se jogar numa academia? Pois é, muita coisa mudou.
Eu era magra, jovem e bebum. Agora, uns bons anos mais velha, sem beber e com alguns quilos a mais, decidi começar a nadar. Musculação eu já fazia porque um amigo meu, que também é alcoólatra, me convenceu de que seria bom para mim. Ele tinha toda razão.
De todos os esportes, a natação é o mais desafiador para mim. Entro na piscina já olhando o relógio para saber quando vai terminar o treino. É uma atividade que exige respiração, foco; senão, é água e mais água para dentro da goela. Mas estou na terceira semana de aula e o pânico pela falta de ar enquanto dou as braçadas está desaparecendo aos poucos. Já não paro tanto na borda da piscina para recuperar o fôlego. É treino. E a sensação ao sair da água é das melhores.
Na última quinta-feira, pouco antes do feriado, meus óculos de natação embaçaram muito e eu não conseguia enxergar quase nada. Parei, o professor me ensinou a limpar e eu enxerguei tudo de novo perfeitamente.
Parar de beber e experimentar uma vida sóbria é como limpar os óculos de natação. A visão é completamente outra.
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Autor: Folha




















