As manhãs de inverno na cidade de Urupema (SC) costumam começar com temperaturas congelantes. A geada cobre os campos, a água congela e o frio intenso atrai turistas em busca de sentir a neve. Foi nesse cenário que o empresário Miguel Milano resolveu transformar as temperaturas negativas em experiência — e em negócio.
O frio extremo aliado ao contato com belezas naturais motivou o empresário, que é engenheiro florestal, a apostar em uma vinícola com pousada boutique na cidade considerada a mais fria do Brasil. O empreendimento (Taipas de Urupema) reúne vinhedos e quatro chalés pensados principalmente para casais e famílias pequenas que buscam fugir da agitação das grandes cidades.
Segundo Milano, a produção própria de vinhos ainda está em fase inicial. A primeira safra comercial começou neste ano e a construção de uma vinícola deve ser concluída até o próximo inverno, estima o empresário.
Natural da cidade de Palmital (PR), ele construiu carreira na área ambiental, foi professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) por mais de 25 anos e dirigiu a Fundação Boticário de Proteção à Natureza. Milano chegou a Urupema atraído pela conservação do papagaio-charão — pássaros de cores vibrantes que se reúnem em grandes grupos ao amanhecer e entardecer, atraindo os amantes da observação de aves.
“Essa região ainda preserva algo raro: paisagens naturais, florestas de araucária e um uso da terra que combina produção e conservação. Isso me chamou muito a atenção”, conta.
O projeto da Taipas de Urupema, segundo ele, tenta seguir essa lógica. Os chalés são espaçados, integrados à paisagem e equipados com sistemas de tratamento de esgoto por biodigestores. O paisagismo prioriza espécies nativas. “Cada detalhe aqui tem um sentido”, afirma.
O empreendimento está inserido em um cenário de cerca de 40 pousadas existentes em Urupema. A maioria dos turistas que buscam a cidade são de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, com média de permanência de três dias.

Turismo cresce apoiado no inverno, mas cidade oferece atrativos para o ano todo
Com pouco mais de 2,7 mil habitantes, o município ainda tem metade da população vivendo na área rural. A base econômica é a agropecuária, com destaque para a produção de maçã — entre 26 mil e 30 mil toneladas por ano — e a pecuária de corte.
O turismo vem crescendo, especialmente após a pandemia de Covid-19, quando destinos de natureza passaram a atrair mais visitantes. Reconhecida oficialmente como capital nacional do frio desde 2021, Urupema passou a explorar de forma mais estruturada as temperaturas negativas extremas.
“O frio virou um atrativo para o município. As pessoas querem ver de perto o gelo, a neve, a cascata congelada. É uma experiência”, afirma o secretário municipal de Turismo e Urbanismo, Antenor Arruda Neto.

No inverno, temperaturas mínimas de até 7°C negativos são consideradas comuns para os moradores acostumados com o frio. Em áreas mais altas, como o Morro das Antenas, a sensação térmica pode chegar a -22°C, impulsionada por ventos que ultrapassam os 50 km/h.
Fenômenos como o sincelo — cristais de neve em suspensão que grudam na vegetação — ajudam a criar paisagens incomuns. A chamada “cascata congelada”, no pé do Morro das Torres, virou um dos pontos mais procurados por turistas durante o inverno.
De acordo com o secretário de Urupema, quando a neve aparece, o impacto é imediato. “A reação dos turistas ao ver a neve é como um gol em Copa do Mundo. Todo mundo vai para a rua comemorar”, relata.
Apesar da fama associada ao frio, a cidade tenta diversificar o turismo ao longo do ano. No outono, a colheita da maçã movimenta propriedades rurais e atrai visitantes. Na primavera, os campos floridos e as paisagens naturais ganham destaque. No verão, o clima ameno aparece como diferencial para quem quer fugir do calor extremo e das praias lotadas.
Eventos também ajudam a manter o fluxo de turistas. Um dos principais é o Festival do Papagaio-charão, realizado em abril. A ave migra do Rio Grande do Sul em busca do pinhão e protagoniza revoadas que atraem observadores de diferentes países. “Vem gente dos Estados Unidos, da Alemanha, da Índia. É um público muito específico que movimenta a cidade”, diz o secretário.

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Por que faz tanto frio em Urupema?
O que diferencia as temperaturas em Urupemaé a geografia. De acordo com o climatologista Ronaldo Coutinho, o município está situado em uma espécie de “baixada”, cercada por montanhas.
“É como um grande buraco. O ar frio desce e fica represado ali durante a noite, o que faz a temperatura cair mais”. Ele explica que a cidade está em torno de 1.320 metros de altitude e se forma em uma baixada em altitude. Esse relevo favorece madrugadas extremamente frias e um número elevado de dias com temperaturas negativas ao longo do inverno.
Embora outras cidades da região também registrem frio intenso, Urupema costuma apresentar médias ligeiramente mais baixas nos meses de inverno. “Não é uma diferença gigantesca, mas é constante. Isso faz com que ela seja a cidade com o inverno mais frio do Brasil”, afirma Coutinho.
Autor: Gazeta do Povo








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