A quebra da patente da semaglutida, em março, aumentou a expectativa por alternativas mais acessíveis das chamadas canetas antiobesidade ou emagrecedoras, entre as quais estão medicamentos como Ozempic e Wegovy. O que muitos não sabem, porém, é que os efeitos desses fármacos na perda de peso estão longe de ser uniformes —há evidências de que 1 em cada 10 pacientes não atinge o peso esperado nos primeiros meses de uso.
O percentual de não resposta varia na literatura científica. No ensaio clínico STEP 1, publicado em 2021 no The New England Journal of Medicine, cerca de 14% dos participantes tratados com semaglutida não perderam ao menos 5% do peso corporal. Já no Surmount-1, estudo internacional com tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro), a taxa de não resposta foi de 9,1% entre os participantes que receberam a dose de 15 mg. Nas dosagens de 10 mg e 5 mg, os percentuais foram de 11,1% e 14,9%, respectivamente.
Assim como em outros tratamentos, isso é esperado. “Cada pessoa responde de um jeito ao medicamento”, afirma o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita. “A gente pode dizer que 5% a 10% dos pacientes não têm uma boa resposta a esse tipo de tratamento.”
A resposta também depende do ajuste progressivo da dose, estratégia usada para reduzir efeitos colaterais e melhorar a tolerância. Em alguns casos, é necessário recuar temporariamente ou avançar mais lentamente. Por isso o paciente não deve interromper o uso por conta própria, mas manter acompanhamento médico para ajustar a estratégia e sustentar o peso perdido no longo prazo.
Os casos que não respondem bem ao tratamento raramente têm uma única causa. A literatura aponta uma combinação de fatores biológicos, clínicos e comportamentais que ajudam a explicar por que parte dos pacientes não atinge os resultados esperados.
“Na prática clínica, pacientes com diabetes costumam ter uma resposta pior em termos de perda de peso do que pessoas sem diabetes, talvez por causa da maior resistência à insulina”, especula Rosenbaum.
Em estudo publicado na Diabetologia em 2024, pesquisadores analisaram dados de 4.467 adultos com diabetes tipo 2 em uso de liraglutida, semaglutida ou dulaglutida. Apenas 14% conseguiram, ao mesmo tempo, melhorar de forma relevante o controle da glicose no sangue e perder pelo menos 5% do peso corporal.
Os dados sugerem que fatores como peso inicial mais alto, idade, duração do diabetes e função renal podem influenciar os resultados.
A dose é outro ponto importante. Em ensaio publicado em 2025 no períodico The Lancet, a semaglutida de 7,2 mg foi superior à de 2,4 mg, padrão para emagrecimento, na redução do peso corporal em adultos com obesidade e sem diabetes. Após 72 semanas, a perda média foi de 18,7% com a dose mais alta, ante 15,6% com a dose padrão. Os participantes que receberam 7,2 mg também tiveram mais chance de atingir perdas de 20% e 25%.
“Em geral, a dose é aumentada aos poucos para melhorar a tolerância. Mas muitos pacientes apresentam mais efeitos colaterais nesse processo e acabam desistindo da medicação. Nesses casos, pode ser necessário voltar temporariamente à dose anterior ou avançar mais lentamente”, relata o endocrinologista.
Outro fator é a farmacocinética, ou seja, a forma como o organismo absorve, distribui e metaboliza o medicamento. Em estudo de 2021, publicado na Cell Reports Medicine, pesquisadores mostraram que a resposta clínica à semaglutida depende sobretudo dos níveis circulantes da droga no sangue, e não da via de administração, oral ou injetável. O trabalho também indicou que maior peso corporal está associado a menor exposição ao medicamento, o que ajuda a explicar parte da variação na resposta.
O uso de outros medicamentos também pode interferir. As diretrizes da Sociedade de Endocrinologia, comunidade global de médicos e cientistas, recomendam reavaliar fármacos que favoreçam ganho de peso e, quando possível, substituí-los por alternativas neutras ou que ajudem na perda. Entre os exemplos citados estão insulina, antidepressivos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, glicocorticoides e contraceptivos injetáveis.
Há ainda um possível componente genético nessa variabilidade. Em estudo recém-publicado na Nature, feito com 27.885 pessoas usando esses medicamentos, pesquisadores identificaram uma variante no gene do receptor de GLP-1 ligada a uma maior eficácia do tratamento.
O trabalho encontrou também associações entre variantes genéticas e maior risco de náusea e vômito, sobretudo em relação à tirzepatida. Os resultados sugerem que diferenças genéticas podem influenciar tanto a eficácia quanto os efeitos colaterais, abrindo espaço para abordagens mais personalizadas no futuro.
Quando o tratamento falha
Ao não atingir a perda de peso esperada, a primeira medida é revisar a abordagem terapêutica. Segundo o consenso da Sociedade de Endocrinologia, o primeiro passo é verificar se o ajuste da dose foi feito corretamente, se a dose chegou ao nível recomendado e se houve continuidade no uso.
Em paralelo, é preciso avaliar fatores clínicos e comportamentais que podem atrapalhar a resposta, como dieta, consumo de álcool, qualidade do sono, estresse, comorbidades —sobretudo doenças endócrinas— e o uso de outros medicamentos associados ao ganho de peso.
“Quando a gente se alimenta, há liberação de hormônios ligados à saciedade e redução do apetite. Mas alguns pacientes não têm essa resposta, e o impulso para comer pode estar mais relacionado a fatores emocionais, chamados de hedônicos”, afirma Rosenbaum. “Esses indivíduos, muitas vezes, não respondem tão bem.”
Só depois dessa revisão mais ampla é que se aplica a chamada regra de resposta mínima. Quando o tratamento é considerado eficaz, a orientação é mantê-lo com acompanhamento periódico de segurança e estratégias para sustentar a perda de peso no longo prazo. Quando a resposta é insuficiente, a estratégia pode ser ajustada com reforço das mudanças de estilo de vida, refinamento da dose ou troca do medicamento.
Custo-benefício
Em tratamentos caros como semaglutida e tirzepatida, a diferença entre quem responde bem e quem obtém benefício limitado entra diretamente na conta de custo-efetividade.
Por isso, diferentes países têm adotado critérios mais rígidos para indicar e financiar essas terapias. No Reino Unido, o órgão responsável por avaliar tecnologias em saúde recomendou a semaglutida para sobrepeso e obesidade apenas em casos específicos, com prazo máximo de uso (dois anos) e acompanhamento em serviço multidisciplinar especializado. No Canadá, o reembolso público também passou a depender de critérios clínicos e da adoção concomitante de medidas como dieta e atividade física.
No Brasil, a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias) avaliou, em agosto de 2025, um pedido da Novo Nordisk, farmacêutica dinamarquesa que desenvolveu a liraglutida e a semaglutida, para incorporar os medicamentos ao SUS no tratamento da obesidade. A proposta foi rejeitada em razão de alto impacto orçamentário e incertezas sobre o custo-benefício em larga escala.
Ainda assim, a discussão segue aberta. Em 2026, a Novo Nordisk anunciou um programa de acesso que prevê a oferta do Wegovy em caráter piloto na rede pública, no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro. Segundo a empresa, a iniciativa pretende gerar dados sobre o impacto clínico, social e econômico da semaglutida em pacientes com obesidade grave, com foco em populações mais vulneráveis e na redução de complicações de alto custo, como internações e procedimentos cardiovasculares.
“Ampliar o acesso no sistema público não deve mudar a proporção de pacientes que respondem ou não ao tratamento”, afirma Rosenbaum. “Essa variação existe tanto no setor público quanto no privado.” Por isso é fundamental alinhar expectativas desde o início e evitar a interrupção sem acompanhamento médico.
Autor: Folha








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