quinta-feira, maio 7, 2026
19.2 C
Pinhais

o que Trump quer do Brasil

Ao receber o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Casa Branca nesta quinta-feira (7), Donald Trump terá uma agenda própria: para Washington, a reunião é parte de uma estratégia maior de conter a influência da China na América Latina, com foco em minerais críticos e segurança regional.

O encontro entre os dois líderes foi adiado seguidas vezes, devido à guerra no Oriente Médio, e ocorrerá após uma série de desentendimentos entre as duas gestões, sendo o mais recente a detenção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem, que levou o governo Lula a expulsar um funcionário americano em Brasília após a Casa Branca retirar as credenciais de um delegado brasileiro em Miami.

Apesar dos desentendimentos, os interesses estratégicos dos Estados Unidos devem se sobressair. Enquanto o governo Lula terá como prioridade a redução das tarifas sobre exportações brasileiras e o fortalecimento da cooperação bilateral no combate ao crime organizado, os EUA devem focar em aspectos que visam a competição com a China em setores-chave.

A internacionalista Natali Hoff, professora de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), cita as reservas minerais brasileiras e a proximidade econômica entre Brasil e China como pontos de atenção do governo americano.

Segundo ela, Trump pode pressionar Lula a limitar o acesso chinês à exploração de terras raras em prol de empresas americanas — a China detém tecnologia e capacidade industrial avançada no setor.

Na segurança regional, o interesse americano vai além da cooperação policial. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, os EUA ampliaram sua presença militar na América Latina — classificando facções como organizações terroristas, realizando operações nos mares do Caribe e do Pacífico e firmando acordos de segurança com Argentina, Paraguai e Equador. Em março, Washington lançou o Escudo das Américas, coalizão militar regional para enfrentar o crime organizado no continente. O Brasil, maior economia da região, ainda está fora dessa arquitetura.

À Gazeta do Povo, o analista político Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado, afirma que os EUA provavelmente condicionarão concessões comerciais buscadas pelo governo petista a um distanciamento explícito do Brasil em relação aos interesses estratégicos do chamado Eixo do Caos (ou Eixo do Mal) – referente à coalizão estratégica entre Irã, Rússia, China e Coreia do Norte.

Entre outros temas de interesse dos EUA com o governo Lula estão a (não) regulamentação de big techs – Trump já ameaçou retaliar países que criarem impostos, legislações ou regulações consideradas prejudiciais às gigantes americanas de tecnologia – e o sistema de pagamento brasileiro Pix, que, segundo os EUA, pode prejudicar fornecedores americanos de serviços de pagamento eletrônico.

Já do ponto de vista do Brasil, segundo Hoff, o encontro funcionará como um termômetro para avaliar o nível de tensão com Washington, as intenções do governo americano e a real disposição para retomar canais de diálogo. O momento é delicado: o Brasil está sob investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) com base na Seção 301, mecanismo que permite retaliação por práticas comerciais desleais e pode dar munição para novas tarifas contra produtos brasileiros.

O interesse americano na exploração de terras raras

O interesse dos Estados Unidos na exploração de minerais críticos brasileiros deve ser um dos principais temas na perspectiva americana do encontro. Desde que China e EUA iniciaram uma guerra comercial, o gigante asiático vem restringindo exportações de terras raras, o que colocou o Brasil na mira de Washington e da Europa, que correm contra o tempo para reduzir sua dependência de Pequim.

Nesse cenário, Trump lançou o Projeto Vault, que busca fornecedores confiáveis de minerais críticos fora da esfera chinesa. O objetivo é fechar acordos de longo prazo com países aliados, prevendo apoio financeiro e, em alguns casos, participação acionária do governo americano em empresas da cadeia de minerais críticos. Com a segunda maior reserva mundial, 21 milhões de toneladas, o Brasil é uma alternativa natural.

Os americanos chegaram a apresentar um memorando de cooperação com Brasil nesse setor estratégico, no entanto o governo Lula não demonstrou até o momento disposição em fechar um acordo desse tipo.

O tema também está sendo debatido em Brasília, onde parlamentares estão analisando o marco legal dos minerais críticos. O projeto de lei, aprovado na Câmara dos Deputados nesta quarta-feira (6), visa impulsionar a exploração desses minerais no Brasil ao mesmo tempo em que estabelece critérios para evitar que o país seja apenas um fornecedor de baixo valor agregado para as indústrias de defesa dos Estados Unidos e da China. O projeto ainda precisa ser analisado pelo Senado e passar pela sanção do presidente.

Classificação de facções como organizações terroristas gera impasse

O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, deve acompanhar Lula na viagem oficial, sinalizando que o debate de segurança será um dos principais temas das conversas.

No último ano, Estados Unidos e o Brasil fecharam dois acordos de cooperação para o combate ao crime organizado transnacional. Sabendo que esse é um ponto sensível na política externa de Trump, o Brasil, segundo o vice-presidente Geraldo Alckmin, pretende ampliar a parceria nessa área, oferecendo alternativas para controlar os fluxos financeiros e investigações de redes criminosas.

Mas há um ponto de desentendimento entre os dois governos: Trump tem pressionado o governo brasileiro a designar o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações narcoterroristas. Temendo uma eventual intervenção americana no Brasil, o petista, até agora, tem evitado classificar essas facções desta forma.

A agenda política que será pano de fundo

Apesar dos países terem mantido certo pragmatismo na relação, focando em temas comerciais, antigos pontos de divergência política podem acabar esbarrando em interesses estratégicos dos EUA no Brasil.

Washington já expressou em diferentes ocasiões preocupação com a situação de direitos humanos no país, especialmente envolvendo casos de violações da liberdade de expressão.

Um dos principais alvos das denúncias do governo americano é o Supremo Tribunal Federal (STF), visto como um ator ativo na violação de princípios do Estado de Direito.

Há ainda outro aspecto político a ser levado em conta: a conexão do governo Trump com a oposição brasileira. Para Natali Hoff, a presença de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, atuando politicamente junto a interlocutores do governo americano, coloca o Brasil no radar político de Washington de forma mais intensa – e isso pode, inclusive, aparecer de alguma maneira nesse encontro, especialmente em um contexto eleitoral no Brasil.

A crescente pressão de Trump para o cumprimento da liberdade de expressão também deve assumir algum protagonismo no diálogo. Isso porque, desde o embate entre o ministro Alexandre de Moraes, do STF, e empresas americanas de comunicação, o assunto tem sido prioritário na agenda de Washington com Brasília, misturando interesses econômicos e políticos.

Além de classificarem decisões judiciais do Brasil como censórias, a gestão republicana aponta que uma regulação das redes sociais pode prejudicar financeiramente os negócios americanos.

Rompimento seria prejudicial para Trump e Lula, avaliam analistas

Apesar das divergências, um rompimento total não é do interesse de nenhum dos lados. Para o professor Frederico Dias, do Ibmec Brasília, os EUA seguem sendo destino crucial para exportações brasileiras e principal fonte de investimento tecnológico, enquanto o Brasil representa, para Trump, um centro regional de irradiação de poder no que Washington sempre considerou seu quintal.

Na prática, porém, o encontro deve render menos do que cada lado espera. Dias avalia que as divergências sobre democracia, agenda climática e presença da China devem ser tratadas em termos genéricos, enquanto os resultados concretos devem se limitar a acordos de cooperação técnica em energia, meio ambiente e segurança. 

Coimbra lembra, ainda, que há um risco de que o Brasil retorne descredibilizado, caso a postura do governo petista seja percebida como ambígua diante de regimes autoritários ou se houver uma insistência em uma neutralidade que soe como condescendência geopolítica.

“No atual cenário, a credibilidade é medida pela confiabilidade nas parcerias de longo prazo, portanto, se o país falhar em se consolidar como destino seguro para o friendshoring e como um fiador da ordem democrática na região, perderá a oportunidade de ser visto como um parceiro estratégico”, destaca.

Autor: Gazeta do Povo

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas