Aos 77 anos, a aposentada Daysi Leite de Campos diz que sua relação com a alimentação mudou com o envelhecimento. “Hoje eu já não consigo comer como antes. Aquela ansiedade de comer passou. Agora preciso comer mais vezes ao longo do dia, um pouco de cada vez.”
O relato ilustra uma mudança comum na terceira idade: a redução da ingestão alimentar, mesmo diante do aumento da necessidade de nutrientes, especialmente proteínas. “O idoso precisa de mais proteína do que antes, mas come menos por causa da mastigação, do paladar e da digestão”, afirma a nutricionista Simone Fiebrantz, especialista em gerontologia e membro da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).
Segundo especialistas, a alimentação nessa faixa etária é impactada por alterações fisiológicas e também por fatores sociais e de saúde. Entre eles estão a redução da sensibilidade do paladar, dificuldades de mastigação e uso de medicamentos, fatores que podem levar à redução da ingestão alimentar e aumentar o risco de desnutrição.
Com o envelhecimento, as papilas gustativas perdem sensibilidade, o que pode levar muita gente a perceber os alimentos como “sem gosto” e a aumentar o consumo de sal e açúcar. Medicamentos de uso frequente também podem provocar gosto metálico e reduzir o apetite.
A mastigação é outro ponto crítico. Uma parte dos brasileiros chegou à velhice com histórico de acesso limitado a atendimento odontológico, o que se reflete em perdas dentárias e uso de próteses antigas ou mal ajustadas. O atendimento odontológico estruturado no SUS (Sistema Único de Saúde) foi consolidado apenas em 2004, com o Programa Brasil Sorridente.
Daysi relata esse impacto no dia a dia. Após anos de bruxismo severo, perdeu dentes e se viu obrigada a adaptar a consistência dos alimentos. “Preciso amassar ou bater a comida. Isso muda tudo”, diz. Passou, então, a evitar carnes e a priorizar preparações mais macias, com mais carboidratos, o que reduziu a variedade da dieta e a ingestão de proteínas.
Na terceira idade, a digestão também se torna mais lenta. O esvaziamento gástrico demora mais, prolongando a sensação de saciedade. Na prática, o idoso come menos e muitas vezes ainda está digerindo uma refeição quando chega a seguinte. Com isso, acaba comendo menos do que o necessário.
A menor ingestão de proteínas, associada ao próprio envelhecimento, ao sedentarismo e a doenças crônicas, contribui para a perda de massa muscular, chamada de sarcopenia. “Quando a pessoa tem menos músculo, o corpo gasta menos energia. O metabolismo fica mais lento, e o gasto calórico diminui”, explica o geriatra Clineu Almada, do Einstein Hospital Israelita.
Segundo ele, é comum também o aumento relativo do consumo de carboidratos, que são alimentos mais fáceis de preparar e mastigar, o que pode agravar o desequilíbrio nutricional. “Isso cria um cenário em que o idoso perde músculo e não repõe adequadamente essa perda”, afirma.
Para o geriatra Marco Túlio Ribeiro, da SBMFC (Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade), a alimentação inadequada na terceira idade está diretamente associada ao aumento de doenças crônicas e internações. “O excesso de carboidrato aumenta o risco de diabetes, o excesso de gordura favorece doenças cardiovasculares, e baixa proteína leva à perda de massa muscular”, resume.
Essa perda de massa também preocupa por si só. “Ela aumenta o risco de quedas, perda de mobilidade e internações prolongadas, com complicações como pneumonia e lesões por pressão”, diz Ribeiro.
O especialista alerta ainda para a chamada obesidade sarcopênica, quando há excesso de peso com perda de músculo. A condição combina os riscos da obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares, com aqueles da sarcopenia, que incluem maior risco de quedas, fraturas e perda de autonomia.
O cenário se agrava em idosos com doenças neurológicas, como Parkinson e Alzheimer, que podem causar disfagia, que é a dificuldade para engolir. “Uma tosse durante a alimentação já deve acender o alerta”, afirma Almada. Em casos mais avançados, alimentos podem ir para as vias respiratórias, aumentando o risco de pneumonia aspirativa.
Aos 86 anos, Tabajara Nascimento Domit, que tem Alzheimer em estágio avançado, já depende de preparações pastosas. “Se estiver seca [a comida], ele não consegue. Fica mastigando e não engole”, relata a cuidadora Rita de Cássia da Silva, 56.
Segundo ela, a alimentação foi uma das áreas mais impactadas pela progressão da doença. “Ele comia de tudo, mas nunca conseguia mastigar carne. Depois, começou a demorar muito para comer e foi perdendo peso.”
Com o avanço do quadro, foi necessário alterar a consistência dos alimentos, ela conta. Hoje ele consome preparações mais pastosas e úmidas, como purês, carnes desfiadas e comida com molho.
Orientações e sinais de alerta
Especialistas recomendam medidas simples para reduzir riscos. Uma delas é fracionar a alimentação ao longo do dia, garantindo pequenas refeições com presença de proteína em todas elas. A variedade alimentar, com um prato colorido, também é fundamental para garantir a ingestão adequada de vitaminas e minerais.
A hidratação também merece atenção especial, já que a percepção de sede diminui com a idade. A orientação é ingerir líquidos regularmente, mesmo sem sede, incluindo água, frutas e preparações leves.
O funcionamento intestinal também tende a ficar mais lento com o envelhecimento. Segundo Almada, uma primeira abordagem deve priorizar o consumo de fibras e líquidos, com uso de medicamentos apenas quando necessário e sob orientação médica.
Mudanças na consistência dos alimentos, como bater tudo no liquidificador ou amassar, podem ser necessárias, mas devem ser feitas com cuidado para não reduzir a densidade nutricional das refeições. O ideal é sempre contar com orientação profissional.
O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.
Autor: Folha








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