
Os Estados Unidos enfrentam gasolina a US$ 4,30 por galão e preços em alta; países da Europa experimentam inflação de dois dígitos em energia por causa da explosão das cotações do petróleo e de seus derivados. O Brasil também sentiu os efeitos, mas em menor grau. A razão não é sorte: são cinco décadas de aposta estratégica em biocombustíveis.
O choque global do petróleo
O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã levou ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa mais de um quinto da produção mundial de petróleo. O preço do petróleo tipo Brent disparou, chegando a US$ 120 por barril. Nesta sexta (8), estava em US$ 101,25, uma alta de 61% em relação ao mesmo período de 2024.
Nos Estados Unidos, os efeitos foram imediatos. A inflação ao consumidor subiu para 3,3% em março, impulsionada pela alta de 10,9% nos custos de energia. O preço médio da gasolina ultrapassou US$ 4 por galão pela primeira vez desde agosto de 2022, acumulando alta de 44%. O diesel subiu até 51% em algumas regiões.
O movimento levou ao Federal Reserve (o Banco Central americano) interromper a trajetória de queda dos juros. O país enfrenta estagflação: petróleo pressiona inflação e reduz renda disponível, esfriando a atividade econômica.
Nos EUA, a maior parte da gasolina vendida é E10, com 10% de etanol. A Agência de Proteção Ambiental (EPA) proíbe o E15 no verão para limitar a formação de névoa poluente devido à maior volatilidade do combustível no calor.
No cenário atual, porém, o governo americano passou a permitir emergencialmente a venda nacional do E15 a partir deste mês para reduzir o preço nas bombas em até US$ 0,30 por galão.
Na Europa, a vulnerabilidade é ainda maior. A Zona do Euro registrou inflação anual de 3% em abril, com alta de 10,9% no grupo de energia. O diesel subiu 30% no bloco. Em países como Suécia e República Tcheca, o combustível disparou mais de 25% apenas em março.
O Banco Central Europeu (BCE) revisou a projeção de inflação de 2,1% para 2,6%, enquanto a expectativa de crescimento do PIB caiu para 1%.
Em meio à crise, a Comissão Europeia (CE) avalia elevar a mistura de etanol na gasolina dos atuais 10% para 20%, segundo carta da presidente do órgão, Ursula von der Leyen, enviada a três eurodeputados alemães no fim de abril.
A blindagem brasileira criada pelo agronegócio
O Brasil sofre menos. Após o início dos conflitos, o diesel subiu 13,9% em março, aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A gasolina avançou 4,59%. O etanol teve alta de apenas 0,93%. A razão: biocombustíveis em escala nacional
.O Brasil é o único país do mundo que adota mistura de 30% de etanol anidro na gasolina (E30) — combustível sem água, usado em misturas. Veículos flexfuel, que rodam com etanol puro ou gasolina, representam 80% da frota de carros leves.
Segundo o Ministério de Minas e Energia, aumento da mistura de 27% para 30% elevou em 1,5 bilhão de litros a demanda anual de etanol, reduzindo na mesma proporção a necessidade de petróleo importado. O etanol anidro tem rendimento equivalente ao da gasolina pura, diferentemente do hidratado (puro para veículos flex), que rende cerca de 70%.
No diesel, a mistura obrigatória subiu de 15% para 16% (B16 — biodiesel em 16% do combustível). Essa mudança substitui de 700 milhões a 800 milhões de litros de combustível fóssil por ano.
Nova expansão em análise
A mistura do etanol na gasolina pode saltar para 32%. A mudança foi anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no fim de abril, mas ainda depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), cuja reunião prevista para quinta-feira (7) ainda não teve nova data definida. Se aprovada, a medida deve entrar em vigor ainda no primeiro semestre de 2026.
A União da Indústria da Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Única) estima aumento anual de cerca de 1 bilhão de litros na demanda por etanol anidro com o E32.
Entidades do setor e a Frente Parlamentar do Biodiesel defendem também a elevação da mistura de diesel para B17 (17% de biodiesel).
“Hoje o Brasil ainda importa cerca de 30% do diesel que consome. Em um cenário de instabilidade internacional, isso representa uma vulnerabilidade para a nossa economia. O agro tem capacidade de oferecer parte dessa solução, transformando biomassa em combustível e fortalecendo nossa segurança energética”, disse o deputado federal Pedro Lupion (Republicanos-PR), presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), após o início da escalada da tensão no Oriente Médio.
Biodiesel resolve dilema estrutural do campo
Cerca de 80% da soja processada vira farelo e 20%, óleo. Sem mercado robusto para esse óleo, existe limite estrutural para crescimento da cadeia. O biodiesel absorve o excedente, viabilizando mais esmagamento, gerando mais farelo e alimentando a cadeia de proteína animal.
Com ampliação gradual da mistura obrigatória, o esmagamento segue em expansão desde 2023. A consultoria Safras & Mercado prevê 61,8 milhões de toneladas processadas em 2026 — alta de 6% sobre o ano passado.
A Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) estima que cada ponto percentual a mais na mistura aumenta em 3,59% os empregos da cadeia produtiva. Cada R$ 1 investido em biodiesel retorna R$ 4,40 à economia, ressalta a entidade.
Diversificação da matriz energética
A dependência da cana-de-açúcar para etanol ficou no passado. O etanol de milho hoje representa 28% da produção nacional do biocombustível. Empresas como Caramuru Alimentos e CJ Selecta já produzem etanol a partir da soja — extraído de excedentes do melaço, etapa paralela ao esmagamento do grão.
Tanto no milho quanto na soja, as iniciativas desmontam um falso dilema: produção de combustível ocorre concomitantemente à fabricação de proteína vegetal (farelo), derrubando o argumento de que biocombustíveis concorrem com alimentos.
As raízes históricas dos biocombustíveis: o Proálcool
O pioneirismo brasileiro data de 1975, com o lançamento do Proálcool — resposta ao primeiro choque do petróleo de 1973, quando a Opep quadruplicou o preço do barril. No auge do programa, durante a década de 1980, carros movidos exclusivamente a álcool representavam 90% das vendas de veículos novos. Embora o setor enfrentasse crise no final daquela década devido à queda dos preços internacionais do petróleo, a base tecnológica foi preservada.
Em 2003, a revolução continuou: lançamento do motor flexfuel, permitindo ao Brasil consolidar liderança global.
Exportação de expertise
A experiência brasileira em biocombustíveis é produto de exportação do agronegócio nacional. A Índia replicou o modelo com sucesso. Após atingir meta de 20% de mistura de etanol na gasolina (E20) em 2025, o governo indiano avança em diretrizes para formalizar uso de E85 e etanol puro (E100), reduzindo drasticamente a dependência de petróleo importado. O avanço é sustentado por acordos de cooperação técnica com o Brasil.
Em março do ano passado, Brasil e Japão assinaram memorando sobre combustíveis sustentáveis. O país asiático adotará E10 até 2030 e dobrará o porcentual na década seguinte.
O Brasil já exporta etanol para o mercado japonês, mas a expectativa é chegar a 4,45 bilhões de litros por ano com E10, e a 9 bilhões de litros anuais com E20 a partir de 2040.
Autor: Gazeta do Povo








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