O Einstein Hospital Israelita e a Philips criaram um centro conjunto de inovação em saúde que terá como primeiro projeto o desenvolvimento de uma ferramenta de inteligência artificial para auxiliar a colocação de DIUs (dispositivos intrauterinos) no SUS (Sistema Único de Saúde).
A proposta é usar imagens de ultrassom e dados clínicos para verificar automaticamente se o contraceptivo foi posicionado corretamente no útero, reduzindo falhas no procedimento e complicações, como perfurações uterinas ou gravidez não planejada.
Segundo Rodrigo Demarch, diretor executivo de inovação do Einstein, cerca de 15% das inserções de DIU apresentam algum tipo de problema relacionado ao posicionamento inadequado do dispositivo.
“O que a gente entende é que tecnologias assistivas podem ajudar médicos e enfermeiros a realizar o procedimento com mais precisão”, afirma. “Isso ganha importância especialmente agora, quando o Ministério da Saúde ampliou a possibilidade de inserção de DIU por profissionais não médicos.”
Chamada de Centro Colaborativo de Inovação (CCI), a parceria terá duração inicial de cinco anos e funcionará como uma estrutura permanente para desenvolvimento, validação clínica e preparação para escala de tecnologias voltadas a diagnóstico por imagem, monitoramento de pacientes e uso de inteligência artificial na assistência.
A meta é desenvolver soluções aplicáveis tanto ao sistema público quanto ao privado, mas com atenção especial às necessidades do SUS.
“É impossível falar em ampliar acesso à saúde no Brasil sem pensar no SUS”, diz André Duprat, diretor-geral da Philips Brasil. “O primeiro projeto já nasce voltado a uma política pública relevante, que é o acesso à contracepção.”
Segundo ele, a parceria representa uma tentativa de transformar iniciativas isoladas em um modelo contínuo de desenvolvimento tecnológico. “Antes, fazíamos projetos pontuais. Agora conseguimos construir uma agenda de cinco anos, com projetos conectados entre si.”
A escolha do DIU como projeto inaugural foi resultado, segundo os executivos, da combinação entre demandas da saúde pública e áreas em que as duas instituições já acumulam experiência.
A Philips possui tecnologias voltadas a ultrassonografia e diagnóstico por imagem. Já o Einstein vem desenvolvendo projetos de inteligência artificial aplicados à saúde da mulher e ao SUS.
“O que apoia o desenvolvimento desses centros são justamente as necessidades do sistema público”, afirma Demarch. “A ideia é desenvolver soluções para problemas brasileiros que tenham potencial de ganhar escala e eventualmente serem aplicadas em outros países”, diz Duprat.
O diretor do Einstein afirma que o país oferece um ambiente particularmente favorável para esse tipo de desenvolvimento por reunir diversidade populacional, grande volume de pacientes e diferentes realidades assistenciais.
“O SUS é praticamente vários SUS dentro de um só sistema. Você tem contextos muito distintos de atendimento, e isso acaba sendo um desafio, mas também uma oportunidade para desenvolver tecnologias mais robustas”, diz.
Segundo ele, o Einstein aposta que a combinação entre dados clínicos, inteligência artificial e validação em ambiente real de assistência pode acelerar a adoção de novas tecnologias. “Ao conectar inovação ao ambiente de cuidado, conseguimos testar rapidamente se aquela solução realmente funciona na prática e se ela consegue gerar impacto assistencial.”
A ferramenta para inserção de DIU ainda passará pelas etapas de desenvolvimento e validação clínica. A expectativa é que o sistema funcione como um apoio ao profissional de saúde durante o procedimento, identificando possíveis erros de posicionamento.
A iniciativa surge em um momento em que o Ministério da Saúde tenta ampliar o acesso aos contraceptivos de longa duração no SUS. O DIU é considerado um dos métodos reversíveis mais eficazes para evitar gravidez não planejada, mas ainda enfrenta barreiras de acesso na rede pública de saúde, incluindo falta de profissionais capacitados.
Nos últimos anos, o governo federal também passou a estimular a inserção do dispositivo por enfermeiros treinados, medida vista como forma de ampliar a oferta do procedimento.
Segundo Demarch, o uso de tecnologias assistivas pode ajudar justamente a reduzir inseguranças e aumentar a precisão da inserção.
As duas instituições afirmam que os projetos do centro serão definidos por comitês conjuntos formados por cerca de 15 profissionais das áreas técnica e operacional.
A intenção é criar um fluxo contínuo de identificação de problemas clínicos considerados prioritários e transformá-los em soluções tecnológicas passíveis de validação e posterior adoção em larga escala. Temas como cardiologia, monitoramento de pacientes críticos e saúde populacional já estão sendo discutidos para futuras frentes de desenvolvimento.
Embora ainda não exista definição sobre como as tecnologias serão incorporadas ao SUS ou comercializadas, Demarch afirma que o objetivo é evitar que as soluções fiquem restritas ao Einstein.
“A ideia é ir da identificação do problema até a transformação da solução em produto utilizável em larga escala”, afirma. Segundo ele, isso poderá ocorrer tanto por meio da própria Philips quanto via startups ligadas ao ecossistema de inovação do hospital.
Questões envolvendo propriedade intelectual, uso de dados clínicos e eventual licenciamento das soluções serão definidas caso a caso.
Para a Philips, a parceria também amplia o papel da operação brasileira dentro da estratégia global da companhia.
Duprat conta que, historicamente, muitas inovações desenvolvidas em parceria com hospitais brasileiros acabavam restritas às próprias instituições onde foram criadas. “O que enxergamos agora é a possibilidade de criar um ambiente em que essas soluções possam nascer, amadurecer e ganhar escala muito além de um único hospital”, afirma.
No próximo semestre, o Einstein deve inaugurar um novo complexo dedicado à inovação na capital paulista. Chamado de Villa Einstein, o espaço reunirá equipes de tecnologia, pesquisadores, startups e parceiros privados em um mesmo ambiente.
Um dos prédios, com área de 2.000 metros quadrados, será dedicado exclusivamente à área de inovação e terá capacidade para cerca de 200 pessoas.
Autor: Folha








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