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O que é a doença mão-pé-boca, comum em crianças pequenas – 18/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

Muita gente nunca ouviu falar da doença mão-pé-boca (MPB), mas quem já enfrentou o problema, não esquece. “Houve noites que a gente chorava junto, de tanta dor que minha filha sentia”, relata a autônoma Viviane Rodrigues, 37 anos.

Ester, 3, contraiu a síndrome de outra criança da família há cerca de quatro meses e, na ocasião, teve muita febre e foi mais afetada na garganta —a escola do menino de 8 anos havia passado por alguns surtos de MPB. “Não foi culpa dele, mas é algo que prolifera muito rápido. Ela tentava mamar e não conseguia, acho que não conseguia engolir nem saliva”, lembra a mãe.

Altamente contagiosa, a síndrome MPB é causada por enterovírus como o Coxsackie e é marcada por febre alta, dor de garganta e lesões vesiculares (bolhas), em especial na mucosa bucal, língua, mãos e pés.

O Coxsackie é mais comum nos meses de outono e verão no hemisfério Norte, mas, no Brasil, o padrão é menos característico, segundo documento científico da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).

A transmissão ocorre entre indivíduos pelo contato com secreções respiratórias —como saliva, tosse e espirros— e fecais. “A pessoa infectada pode transmitir o vírus mesmo antes do aparecimento dos sintomas e continuar eliminando o agente infeccioso por semanas, especialmente nas fezes”, alerta, por meio de nota, o médico Marco Aurélio Sáfadi, presidente do departamento científico de Infectologia da SBP.

Nas redes sociais, em postagens sobre o tema, é comum encontrar relatos de pais que contraíram a doença dos filhos, com sintomas como descamações tão intensas que levaram a perda das unhas e até quadros em que o vírus chegou ao sistema nervoso, causando encefalite.

Embora sejam raros, nos últimos anos, a literatura médica observou em epidemias na Ásia casos em que a doença foi fatal, principalmente quando estava presente a cepa viral EV71. Nos óbitos registrados, o vírus atingiu o sistema nervoso central, “provocando alterações circulatórias, cardíacas e edema pulmonar”, afirma o relatório da SBP.

Em geral, os sintomas melhoram em duas semanas, com tratamento que costuma ser paliativo, focado em amenizar os sintomas. O pediatra e infectologista Marcos Junqueira do Lago, professor titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), destaca que é uma doença que “muito raramente pode até evoluir de uma forma mais grave”.

O docente também diz que o MPB costuma acometer o paciente apenas uma vez na vida de forma mais intensa. “Não é impossível ter uma segunda infecção, caso o vírus tenha sofrido alguma mutação, mas normalmente é bem mais branda que a primeira e não é comum, é bastante raro”, afirma Lago.

Por essa razão, os principais grupos de risco são os de crianças abaixo dos cinco anos de idade e o de adultos que nunca foram expostos ao vírus.

Como saber se é pé-mão-boca?

O médico Marcelo Otsuka, infectologista pediátrico do Hospital Infantil Darcy Vargas, diz que as lesões características da MPB costumam ser dolorosas e variam de formato, podendo se apresentar como “bolinhas com líquido dentro”, chamadas vesículas ou pápulas. “E, às vezes, são tipo caroços pequenos, que podem ser muito dolorosos, frequentemente nas mãos e nos pés, [além de] úlceras na boca”, diz Otsuka.

Outro sintoma que pode surgir de três a oito semanas após a fase aguda é a onicomadese, que consiste no descolamento da unha a partir da base. Apesar de assustar os pais, o quadro costuma melhorar gradualmente com a recuperação total das unhas em cerca de dois meses, sem necessidade de tratamento específico.

De acordo com Lago, o diagnóstico de pé-mão-boca hoje é facilitado por exames como PCR, técnica de reação em cadeia de polimerase que ficou popular durante a Covid. “Você consegue fazer exame de secreção respiratória e detectar o vírus na saliva da pessoa contaminada e, eventualmente, até nas fezes. Existem também exames de sangue se já teve ou não infecção pelo Coxsackie“, afirma o docente.


Tratamento

Não existem medicamentos antivirais específicos para a MPB. A doença é, na maioria das vezes, benigna e autolimitada, durando de sete a dez dias. O tratamento foca no alívio dos sintomas, como controle da febre e da dor —que tendem a melhorar logo na primeira semana.

“A doença não exige internação, existe só observação clínica, acompanhamento, tratamento sintomático. Caso haja alguma alteração neurológica ou física, exames vão ser feitos, mas isso é extremamente raro”, ressalta Lago.

Além disso, é recomendado fazer a higiene das lesões para evitar contaminação. O uso de laser para aliviar sintomas ou melhorar a cicatrização é uma terapia que precisa ser indicada e acompanhada pelo médico responsável.

Prevenção

Os cuidados preventivos consistem em hábitos de higiene básicos, como lavar as mãos sempre que for ao banheiro ou fizer uma troca de fralda. Otsuka recomenda ainda evitar beijar crianças na boca ou próxima a esta parte do corpo e “higienizar adequadamente brinquedos e superfícies”, uma vez que crianças pequenas tendem a morder objetos.

“Nos pequenos, o principal desafio está relacionado à dor causada pelas lesões na boca, que pode dificultar a ingestão de líquidos e alimentos, aumentando o risco de desidratação, a complicação mais comum”, diz Sáfadi.

A SBP informa que a MPB “não é considerada de notificação compulsória, entretanto, a ocorrência de dois ou mais casos relacionados devem ser notificados como surto.”

Crianças com sintomas também não devem ser enviadas para escola. Para Rodrigues, mesmo com período de incubação, estar atento é uma medida simples e pode preservar os colegas de muito sofrimento. “Se você tem um filho em ano letivo e vê que está com esse problema, não deixe ele ir para a escola, cuide em casa para que não passe para outra criança”, reforça a mãe.

Autor: Folha

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