quinta-feira, maio 21, 2026
10.9 C
Pinhais

Rummikub para exercitar o cérebro – 21/05/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Diz a lenda que, quando eu era criança, eu andava com um baralho numa bolsinha e pedia aos adultos, em suas festas, que jogassem comigo. Diz a lenda também que foi minha tia-avó, que me iniciara nas artes do carteado, quem foi encontrada jogando comigo num cantinho em uma dessas festas.

Pelo menos o baralho eu encontrava quem jogasse comigo. Quando fiquei fissurada em Monopólio, era muito mais difícil encontrar quem topasse —por razões que eu hoje entendo perfeitamente. Monopólio, como War, é feito para disseminar cizânia entre amigos: são jogos que só ficam divertidos quando há conchavos e traições entre participantes.

Nada mais diferente que o buraco, o jogo oficial da minha família, instigada por aquela tia-avó. O jogo, que usa dois baralhos, consiste em tentar usar todas as cartas da mão para fazer sequências e trincas. Alguns conhecem o jogo de buraco como canastra, ou rummy em inglês, ou biriba –ou, na minha família, paporiba, porque a razão de ser de todo jogo que inclui minha mãe à mesa é bater papo. Segurar cartas é apenas a desculpa para o encontro.

O papo também impera quando sentamos para jogar palavras cruzadas, o outro jogo que ela aceita. Sueca, pontinho (uma versão mais rápida do buraco, onde é preciso ficar atento porque é permitido comprar descarte fora da vez), até mesmo canasta (outra versão do buraco, que eu aprendi com as senhoras da minha biblioteca do bairro nos EUA) ela se recusa a jogar, ou sequer aprender.

Donde meu espanto quando a mamãe aceitou aprender a jogar rummikub. Minha suspeita é que a sua atenção foi fisgada pelas pecinhas coloridas dentro de uma linda caixinha de lata da minha versão alemã do jogo, que parece as caixas de biscoitos dinamarqueses que minha avó e sua irmã, a já-famosa tia-avó do carteado, usavam para guardar coisinhas de costura.

Pois a mamãe não só aprendeu como gamou no jogo, que é mais uma variante do buraco, mas gostosa de jogar a 2 ou 3 (buraco só presta com 4 pessoas). Ela se levanta rapidinho quando eu chego com a caixinha debaixo do braço, joga rápido e superatenta, e fica no pé do papai para ele jogar logo, que é pra ela poder fazer a jogada dela.

Estou achando sensacional. O jogo é ao mesmo tempo um baita exercício e um teste cognitivo. As regras são simples, mas precisam ser aprendidas. Depois, a graça do rummikub é que as sequências e trincas arriadas são comunitárias, e cada um na sua vez pode reorganizar as peças arriadas como precisar, respeitando as regras, para fazer as suas próprias peças encaixarem. Isso é um exercício de flexibilidade mental que também exige atenção e memória de trabalho dignos de xadrez: se eu passar esta peça para cá e puxar aquela dali, eu consigo colocar esta, que libera mais aquela, que me deixa fazer aquilo… E como o jogo pode mudar completamente a cada peça jogada, a gente acaba ficando de olho, repetindo mentalmente os lances programados e torcendo para ninguém tirar nosso lugar antes de chegar nossa vez. O papo rola animado, mas tá todo mundo atento, num excelente exercício de “multitasking”.

Minha intenção era apenas descobrir um jogo novo que eu encontrasse fácil quem topasse jogar comigo (meu marido está sendo convencido aos poucos). Mas alegro-me em reportar que meus pais, ambos passados dos 80 anos, jogam rummikub maravilhosamente bem, obrigada!


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas