A greve nas três universidades estaduais paulistas — USP, Unesp e Unicamp — chegou à sua fase mais vistosa nesta quarta-feira, 20 de maio, quando cerca de 5 mil pessoas marcharam do Largo da Batata, em Pinheiros, em direção ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo. O ato fechou a Avenida Brigadeiro Faria Lima no sentido da Avenida Rebouças. A Polícia Militar acompanhou a marcha e informou não haver registros de ocorrências até o fim do trajeto.
A mobilização começou como uma disputa interna à USP. Em 15 de abril, 105 cursos deliberaram pela paralisação após a reitoria apresentar uma minuta que os estudantes interpretaram como uma restrição à autonomia dos espaços estudantis.
Às demandas originais — aumento do auxílio-permanência, melhores condições nos restaurantes universitários e contratação de servidores — somaram-se, ao longo das semanas, pautas mais amplas: privatização da Sabesp, do metrô e das rodovias, violência policial e políticas para mulheres. O movimento se expandiu para a Unicamp e para seis campi da Unesp, onde cerca de 30% dos cursos aderiram à greve.
Nesse percurso, o movimento estudantil foi incorporando atores que vão muito além dos centros acadêmicos.
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Na programação de greve do Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP no Largo São Francisco, é possível rastrear o caminho da politização. Ao longo das semanas, passaram pela Sanfran o ex-deputado José Genoíno (PT), convidado para falar sobre “repressão estatal ao movimento estudantil”, e o ex-senador Eduardo Suplicy (PT), que conduziu uma roda de conversa sobre renda básica de cidadania.
Em 13 de abril, a faculdade sediou um evento intitulado “Contra o Imperialismo e pela Democracia: América Latina Soberana”, com logos de organizações como Alba, Fened e ABJD nas artes de divulgação.
O rosto mais visível da greve na USP também revela a dimensão político-partidária do movimento. Dany Oliveira, coordenadora-geral do DCE e estudante de Artes Cênicas, é também diretora da UNE pelo Movimento Correnteza — braço estudantil da Unidade Popular (UP), partido à esquerda do PT de linha marxista-leninista — e integra a coordenação nacional do grupo.
No dia 1º de maio, seis dias antes de aparecer como principal porta-voz da ocupação da reitoria nos jornais, ela foi lançada candidata a deputada federal pela UP. Já disputou duas vezes uma vaga de vereadora em São Paulo, em 2020 e 2024, sem sucesso.
O Correnteza, fundado em 2017 e presente em todos os estados do país, integrou a gestão do DCE da USP a partir de setembro de 2025. O grupo adota uma estratégia de agitação permanente — com ocupações de espaços, distribuição de jornal e assembleias convocadas por megafone — e tem histórico de episódios de confronto com autoridades em outras universidades, como a Universidade Federal do Paraná e a Assembleia Legislativa de São Paulo.
As críticas mais contundentes ao método do grupo, curiosamente, vêm de setores da própria esquerda universitária, que acusam o Correnteza de aparelhar entidades estudantis para projetar uma agenda partidária.
A Adusp, associação dos docentes da USP que aprovou paralisação para o ato desta quarta, nega qualquer dimensão eleitoral no movimento. “Não há qualquer dimensão político-eleitoral na mobilização. Quem tem provocado a mobilização é a intransigência do Cruesp”, respondeu a entidade em nota, referindo-se ao Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas.
A associação reivindica reajuste salarial pelo IPCA mais 3%, com calendário para recompor perdas acumuladas desde 2012 — período em que os docentes teriam perdido 15,9% do poder de compra.
Mas, dentro das próprias universidades, a leitura é diferente. Um interlocutor próximo à administração da Unesp, que preferiu não se identificar, avaliou que o padrão se repete todo ano: a mobilização costuma ganhar força no mês de maio, quando as universidades definem o dissídio salarial, e os diretórios centrais dos estudantes têm ligação histórica com partidos políticos. Na avaliação dessa fonte, a universidade acaba funcionando como anteparo para pressionar o governo do estado.
A vereadora Janaína Paschoal (PP-SP), professora de Direito Penal na USP, é ainda mais direta. “Sempre houve muita instrumentalização dos ambientes universitários pela esquerda. Mas eu entendo que piorou. Nesses dias de greve, vários políticos de esquerda participaram de atos e atividades dentro de prédios públicos, que foram tomados, inviabilizando as atividades acadêmicas, que são pagas pela sociedade”, disse ela em entrevista à Gazeta do Povo.
Paschoal questiona também a base da principal reivindicação estudantil. “A pauta para elevar o auxílio financeiro para permanência já é mais complicada, pois mesmo os que estudam meio período querem R$ 1.800 para estudar. Não há como explicar isso para os jovens entregadores, que trabalham o dia todo para pagar sua faculdade e ainda financiam as universidades públicas por seus impostos.”
Governo cita investimento recorde e evita responder sobre motivação eleitoral
As reitorias trataram a crise como pauta interna e de financiamento, evitando confronto com o governo do estado. A USP não emitiu nota sobre o ato de hoje, mas encaminhou links com medidas já anunciadas — criação de grupos de trabalho sobre permanência estudantil e ampliação de bolsas para alunos em vulnerabilidade econômica.
A Unicamp informou que realizou, na terça-feira, 19, a primeira reunião de sua comissão de negociação com 23 representantes discentes, e que uma nova rodada está prevista após a consolidação das pautas pelos estudantes. A Unesp destacou que seu orçamento para permanência estudantil em 2026 é de R$ 110,7 milhões — valor que a instituição chama de recorde.
O governo do estado, por meio da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, afirmou acompanhar a situação junto às reitorias e informou que, desde 2023, repassou mais de R$ 64,3 bilhões às instituições estaduais — valor 28,9% superior ao investido nos quatro anos anteriores. A nota não respondeu se o governo avalia o movimento como politicamente motivado.
A PM, por sua vez, limitou-se a informar que o planejamento operacional foi estruturado “para garantir a segurança de todos, preservar a ordem pública e assegurar o direito de ir e vir da população”.
Repressão policial na reitoria radicaliza o movimento estudantil
Um episódio específico foi determinante para transformar uma greve por permanência estudantil em confronto aberto com o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Na madrugada do dia 10 de maio, Dia das Mães, a Polícia Militar retirou os estudantes que ocupavam a reitoria da USP desde o dia 7. Cerca de 50 agentes participaram da ação, que terminou com cinco estudantes hospitalizados e quatro detidos, segundo relatos publicados à época.
O que era para ter sido um processo de enfraquecimento do movimento teve o efeito contrário, avaliou Rosa Baptista, coordenadora geral do DCE Livre da USP, em coletiva de imprensa realizada na terça-feira, 19. Os estudantes não recuaram — e a ação policial, na avaliação deles, escancarou o que chamam de papel do estado frente à mobilização.
A reitoria da USP disse ter repudiado a ação, mas os estudantes contestam a versão. Se o reitor não autorizou a operação, perdeu o controle da universidade e entregou sua autonomia ao braço armado do estado, argumentou Dany Oliveira na mesma coletiva.
Movimento une estudantes, sindicatos e partidos contra Tarcísio
Na coletiva de véspera do ato, as coordenadoras do DCE da USP foram explícitas sobre o alcance político pretendido. A luta unificada das três estaduais seria, na avaliação de Maria Clara Araujo, coordenadora geral do DCE e estudante de Letras, expressão de um projeto de precarização aplicado pelo governo Tarcísio de Freitas — e o ato de 20 de maio deveria servir de desentrave para outras categorias em conflito com o governo do estado.
A marcha desta quarta reuniu, além dos estudantes, representantes de sindicatos e partidos políticos. As eleições para governador de São Paulo estão marcadas para 4 de outubro de 2026.
Autor: Gazeta do Povo








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