Na próxima sexta-feira (29), estreia na Netflix uma série documental sobre a vida de Rafael Nadal. O tenista espanhol foi um dos atletas que mais admirei. Tem um talento único, mas sempre demonstrou que conquistas só vêm através de disciplina, esforço e resiliência. Tanta dedicação o coroou com uma carreira merecidamente vitoriosa, com 22 títulos de Grand Slam, entre dezenas de outros.
Ao mesmo tempo, mostrou que não era tão “perfeito” quanto seu grande rival, Roger Federer. Se irritava, tinha suas manias e nunca escondeu o quanto sofreu com lesões, principalmente quando estava perto de parar de jogar. Espalhou os bons valores do esporte dentro e fora das quadras. Nas duas vezes em que tive o privilégio de o entrevistar, Nadal foi educado e profissional.
Em uma entrevista recente para a rede de televisão norte-americana CNN, foi perguntado sobre a decisão de Carlos Alcaraz –considerado seu sucessor no tênis– de expor publicamente que gosta de ir a festas e viajar para Ibiza com os amigos. Nadal então respondeu que quando era tenista profissional fazia o mesmo, só nunca achou que precisava compartilhar isso com o mundo. Ganhou ainda mais o meu respeito: mostrou que, como nós, mortais, a vida não é só trabalho, e ele também achava um tempo para se divertir.
Ao mesmo tempo, Nadal sempre soube muito bem as responsabilidades que ser um atleta famoso traziam, no sentido de querer ser uma influência positiva na vida de quem torcia por ele.
Na mesma semana dessa entrevista de Nadal, chamou a atenção o primeiro gesto público de Neymar depois de ser convocado para defender a seleção brasileira na Copa do Mundo: postar nas redes sociais uma parceria comercial com uma casa de apostas.
Atletas têm a obrigação de ser bons exemplos para a sociedade? Eu, pessoalmente, acredito que sim, ou que deveriam pelo menos tentar, e acho impossível admirar quem se comporta como um total irresponsável. Mas, teoricamente, não têm. Outras pessoas podem pensar que, como adultos, cada um faz o que achar melhor da própria vida.
Tendo inclusive a pensar que achamos mais interessantes as figuras públicas que não são tão certinhas, no esporte ou fora dele, já que, se admiramos alguém, é porque nos identificamos com ele ou ela de alguma forma. Quando vencem, nos inspiram a acreditar que podemos conquistar algo difícil. E, quando erram, pode até ser um alívio. Significa que são seres humanos e que, ufa, se até eles têm defeitos, podemos lidar com os nossos também. Até aí, está tudo certo.
O que acho questionável é quando atitudes ultrapassam as barreiras do aceitável pessoal e profissionalmente, repetidamente e ao mesmo tempo. Como no momento em que normalizamos alguém que já é milionário e quer ganhar ainda mais dinheiro com bets –que destrói a vida de famílias pobres no Brasil. Ou quando se usa um posicionamento político para aumentar a polarização em um país já tão dividido. Ou quem não se comporta de forma profissional no ambiente de trabalho, usando xingamentos, falas machistas e agressão física.
Se, mesmo assim, seguimos defendendo cegamente esse “ídolo” —sendo que ele nem sabe quem somos e não está nem aí para nós—, provavelmente isso diz tanto sobre ele quanto sobre quem o idolatra.
Enquanto isso, emburrecemos como sociedade.
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Autor: Folha




















