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Cólicas menstruais: 4 em 10 meninas faltam aulas – 27/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

Ana Beatriz Oliveira, 13, sente fortes dores de cólica desde os oito anos de idade, quando menstruou pela primeira vez. Dançarina desde os dois anos, precisou pausar a prática enquanto lidava com a dor e com o fluxo menstrual. Ainda falta ensaios e mesmo à escola devido à condição.

“Esse ano em específico, fiquei com muito medo de repetir [as disciplinas escolares] por falta”, diz, estimando ter perdido ao menos 12 aulas desde o início do ano letivo. Isso significa que as cólicas menstruais a deixaram fora das salas de aula cerca de três dias por mês.

Um estudo divulgado nesta quarta-feira (27) pelos institutos Alana e Equidade.info aponta que 4 em cada 10 meninas brasileiras que menstruam faltam às aulas pelo menos uma vez por mês devido a sintomas menstruais. É um grupo de aproximadamente 3,6 milhões de meninas do qual Ana Beatriz faz parte.

Além disso, 6 em cada 10 meninas que menstruam têm cólicas fortes ou moderadas, que atrapalham seus dias e exigem medicação.

A prevalência de faltas cresce com a intensidade da cólica, aponta o levantamento. Entre as que faltam, 20,5% perdem 1 dia por mês, 16% perdem de 2 a 5 dias e 0,6% perdem mais de 5 dias.

A pesquisa, compartilhada por ocasião do Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado em 28 de maio, tenta quantificar os danos dos sintomas menstruais na vida de meninas e adolescentes.

“Muitas meninas e mulheres estão sofrendo com dor e tendo suas vidas afetadas por isso, mas hoje ainda há uma baixíssima visibilidade desse problema”, diz Sofia Reinach, líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana.

O levantamento foi feito com 2.551 estudantes –sendo 770 estudantes que menstruam–, 303 docentes e 181 gestores escolares das redes pública e privada das cinco regiões do país.

Apesar de o Brasil realizar a cada cinco anos a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar —que fornece retratos das questões enfrentadas pelas crianças e adolescentes—, os sintomas menstruais ainda não haviam sido abordados em um levantamento nacional.

Segundo Guilherme Lichand, professor de Educação da Universidade de Stanford e responsável pela supervisão técnica da pesquisa pela Equidade.info, a invisibilidade da dor menstrual é um problema global, não apenas no Brasil, e é resultado de dois mitos: o de que as crianças não entenderiam o tema e o de que o assunto é sensível demais para ser abordado.

“A ideia de que é muito delicado e por isso é melhor não falar sobre, na realidade, autoriza invisibilidades. É como se isso não fosse uma questão, porque não vira tema de debate público”, diz Lichand.

Outro estudo divulgado recentemente pelo instituto aponta que os registros oficiais do SUS (Sistema Único de Saúde) captam apenas uma pequena fração da quantidade de meninas e mulheres que convivem com dores menstruais e pélvicas incapacitantes.

Em todo o mundo, mulheres chegam a esperar 20 anos para ter doenças pélvicas, como endometriose e adenomiose, diagnosticadas. Ana Beatriz, por exemplo, mesmo tendo sentido fortes dores desde a menarca, só foi fazer os exames para identificar se tinha endometriose cinco anos depois.

Apoiada pela família desde o início das dores, a pré-adolescente não teve uma boa experiência com os profissionais de saúde. “Em determinados ambientes, fui negligenciada por médicos, enfermeiros e equipe no geral.”

Na escola em que estuda, em Juiz de Fora (MG), também não encontrou consolo. Os assuntos abordados nas disciplinas até o 8º ano do ensino fundamental não incluíram nada próximo à saúde menstrual.

Nesse trimestre, porém, os sistemas reprodutivos feminino e masculino serão abordados, mas não do jeito que ela gostaria. “Foi levado como piada pela maioria dos alunos, de forma pejorativa. Foi algo que me deixou para baixo e um pouco mais acoada de conversar sobre isso com as minhas colegas”.

A percepção dos meninos sobre o assunto é incipiente. Conforme a pesquisa, 36,8% deles disseram não pensar muito no tema da menstruação –entre as meninas, esse índice cai para 19,7%. Apenas 23,7% dos meninos acreditam que o período pode atrapalhar a escola ou o esporte; entre as meninas, são 41,2%.

Reinach afirma que meninos e homens também precisam entrar na conversa. “A dor só vai deixar de ser naturalizada no momento em que todo mundo entender o que as meninas vivem. Enquanto a gente não uniformizar esse conhecimento, a gente perde a possibilidade de tratar isso de forma natural e, com isso, perde também respostas da medicina, da ciência e das políticas públicas.”

A discussão sobre dor, aponta Lichand, esbarra também na subjetividade. As pessoas têm limiares diferentes para sentir e comunicar a dor, o que interfere na forma como os dados são interpretados.

Segundo Lichand, como cada pessoa relata dor depende de como foi socializada —e isso é mais evidente no recorte racial da pesquisa.

Meninas brancas dizem sentir mais cólicas fortes do que meninas negras, mas quando o critério é falta à aula, o cenário se inverte: 14,5% das alunas negras perdem de 2 a 5 dias por mês por motivos menstruais, contra 9,6% das brancas.

“Quando a gente cruza dor com falta, que é uma dimensão mais objetiva, aparece algo mais consistente com o que diz a literatura médica”, diz. Estudos apontam um maior índice de endometriose entre meninas e mulheres negras.

Para o Instituto Alana, esses dados reforçam que a dor menstrual é sistematicamente subestimada entre meninas negras. Lido sem o recorte de raça, o indicador de dores fortes esconde desigualdades que têm consequências diretas na trajetória escolar dessas meninas.

Esse viés sobre a dor também é visto quando os dados se referem às professoras e gestoras. Uma em cada dez professoras faltou ao trabalho ao menos uma vez no último ano por motivos menstruais. Entre as gestoras escolares, o percentual sobe para 16,2%.

Apesar de ser um número sensível, há três interpretações para que esse percentual seja menor do que o das alunas, segundo Reinach. A primeira é que o período próximo à menarca tende a ser o de maior intensidade da dor, o que explica parte do sofrimento das adolescentes. A segunda é que as mulheres adultas já têm uma trajetória dentro do sistema de saúde e recursos para o manejo da dor.

A terceira, porém, é estrutural. “As mulheres são ensinadas a aguentar e trabalhar apesar da dor, porque senão correm o risco de perder o emprego, de ficar fora do mercado de trabalho, de não se desenvolver na carreira”, diz Reinach. “A sociedade não aceita que a gente simplesmente fique em casa.”

No fim das contas, o impacto é duplo para as meninas, mas inclui também os meninos. Elas perdem aulas tanto por suas próprias dores quanto pela ausência das professoras que compartilham a mesma condição. Mas, quando as professoras faltam, muda a experiência de aprendizagem de todos, diz Lichand. “Era um dado que a gente não tinha”, acrescenta.

Autor: Folha

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