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Nervo vago: dispositivos vendem cura falsa online – 29/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

Ao longo de cada lado do seu pescoço há uma fibra extraordinária que os cientistas chamam de nervo vago. Às vezes chamado de “marca-passo do cérebro“, esse nervo conecta o cérebro à maioria dos principais sistemas de órgãos do corpo.

Durante séculos, o nervo vago funcionou sem que se falasse dele, mas recentemente alcançou uma posição quase mítica entre apresentadores de podcasts, influenciadores de redes sociais e outros no ecossistema de bem-estar. Não consegue dormir? Dê um choque nele. Estressado? Continue estimulando. Névoa mental, inflamação, problemas digestivos? Já sabe.

“Há bilhões de impressões na web e postagens em redes sociais sobre o nervo vago”, diz Kevin Tracey, neurocirurgião e presidente do Feinstein Institutes for Medical Research no Northwell Health. “Muito disso está sendo impulsionado por influenciadores que dizem: ‘Basta fazer isso para estimular seu nervo vago, e todos os problemas da sua vida serão resolvidos'”.

Celebridades na internet exaltaram os benefícios da estimulação vagal. Alguns dos conselhos são inofensivos o suficiente, como cantarolar ou técnicas de respiração profunda. Mas muitos influenciadores foram além, endossando dispositivos usados ao redor do pescoço ou nas orelhas que transmitem pulsos elétricos. Alguns analistas dizem que a estimulação vagal será uma indústria de bilhões de dólares até 2030.

Estimuladores do nervo vago são dispositivos médicos aprovados pelo governo federal americano para algumas condições. Mas muitos dos aparelhos que você pode ver online não funcionam de verdade, diz Tracey, e se aproveitam da credibilidade dos estimuladores de grau médico —disponíveis apenas por cirurgia ou prescrição.

Em outras palavras, a estimulação do nervo vago é fundamentada por ciência suficiente para parecer séria e cercada por mistério suficiente para parecer ilimitada, afirma Tracey.

O que a estimulação do nervo vago realmente faz?

Os nervos usam impulsos elétricos para se comunicar, então, ao enviar choques a eles, os cientistas podem influenciar os sinais que transmitem. Como o nervo vago alcança tantos órgãos, os pesquisadores têm esperança de que essa abordagem possa permitir o desenvolvimento de terapias para uma variedade de problemas médicos, diz Tracy Centanni, neurocientista da Universidade da Flórida.

A FDA (Food and Drug Administration, órgão regulatório americano) aprovou dispositivos de estimulação do nervo vago para certos tipos de epilepsia, depressão resistente ao tratamento, recuperação de AVC e, mais recentemente, artrite reumatoide. Esses dispositivos são todos implantados cirurgicamente no pescoço ou sob a pele do tórax, estimulando o nervo.

A FDA também permitiu alguns dispositivos de prescrição não invasivos, embora sejam submetidos a um padrão mais baixo de segurança e eficácia. Um dispositivo é para cefaleias e enxaquecas. E há vários que podem ajudar a reduzir os sintomas de abstinência de opioides.

Alguns estudos preliminares sugerem que esses tipos de dispositivos podem ajudar com ansiedade, insônia e inflamação, diz Centanni. Embora mais evidências sejam necessárias, isso não impediu as empresas de fazer afirmações exageradas online.

E quanto aos dispositivos de consumo?

Você deveria ser cético se estiver adquirindo um estimulador vagal sem cirurgia ou prescrição. Esses dispositivos de consumo são pouco regulamentados e não precisam provar à FDA que funcionam, diz Kristl Vonck, neurologista da Universidade de Ghent, na Bélgica.

Eles frequentemente se parecem com seus equivalentes de prescrição, usados de forma semelhante na orelha ou ao redor do pescoço. Ao usá-los, você pode sentir algum formigamento, um leve choque e talvez até uma mudança na frequência cardíaca, diz Michael Kilgard, diretor do Texas Biomedical Device Center na Universidade do Texas em Dallas. Mas isso é apenas o que acontece quando você passa eletricidade pela pele, e não indica que está afetando o próprio nervo vago.

“A estranheza das sensações é incômoda o suficiente”, diz Kilgard, para que as pessoas sintam que os dispositivos estão fazendo algo, mas não a ponto de machucar.

Na verdade, há poucos ou nenhum dado mostrando que esses aparelhos são eficazes. As empresas que os vendem fazem afirmações vagas de que podem aumentar a energia, promover o sono, apoiar a conexão cérebro-intestino, melhorar a memória, impulsionar o aprendizado e restaurar o equilíbrio, entre outras coisas. Na maioria dos casos, os dispositivos provavelmente não passam de um placebo disfarçado de neurociência, diz Kilgard.

Muitos desses dispositivos de “baixo risco” podem contornar a revisão da FDA fazendo alegações vagas de bem-estar em vez de serem responsabilizados por benefícios de saúde específicos e verificáveis, diz Vonck. Algumas empresas têm estudos pequenos e de baixa qualidade para apoiar seus dispositivos, acrescenta, e muitas emprestam a linguagem de pesquisas legítimas como tática de marketing.

Autor: Folha

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