Estudioso da relação entre esporte e política e do impacto de grandes eventos para os países-sede, o cientista político americano Jules Boykoff afirma, em entrevista à Folha, que, ao limitar a entrada de participantes da Copa de 2026 nos Estados Unidos, o governo Donald Trump busca desviar a atenção de problemas internos (como sua baixa popularidade) e reforçar uma cultura de segurança com vistas às eleições de meio de mandato no país, em novembro.
Enquanto muitos países se valem do esporte como ferramenta de soft power —diplomacia sem uso da força, mas de instrumentos culturais, artísticos e valores de um povo—, os EUA não apenas têm desperdiçado essa chance, como em vez disso têm recorrido, na visão de Boykoff, ao sportswashing, uso da boa imagem do esporte para desviar a atenção dos problemas e colher dividendos políticos.
O termo, aliás, está no título do livro mais recente do acadêmico, “Red Card: The 2026 World Cup, Sportswashing, and the FIFA Greed Machine” (Cartão vermelho: a Copa de 2026, sportswashing e a máquina de ganância da Fifa, OR Books, 2026). Boykoff é doutor em ciência política pela American University (na capital, Washington) e professor da matéria na Pacific University (Oregon).
Ex-jogador de seleções de base dos EUA (até a sub-23), ele jogou sua primeira partida internacional, no sub-20, contra o Brasil de Cafu, em 1990, no Torneio de Toulon, na França, (vitória brasileira por 2 a 0).
Também morou no Rio entre 2015 e 2016, como pesquisador-bolsista do programa Fulbright. Boykoff falou à Folha desde Paris, onde está temporariamente como pesquisador visitante na universidade de Nanterre.
De maneira geral, como o sr. analisa os problemas que atletas e outros participantes da Copa do Mundo da Fifa têm enfrentado devido à política de imigração linha-dura do governo Trump? Isso te surpreende?
Os problemas que atletas e torcedores têm enfrentado têm sido angustiantes e totalmente previsíveis, infelizmente. As políticas de exclusão do governo Trump colidem fortemente com o espírito da Copa do Mundo em geral e certamente colidem com o slogan frequentemente alardeado pela Fifa de que o futebol une o mundo. Infelizmente, sob o presidente Trump… na verdade está se usando o futebol para dividir, quando deveria unir-nos.
Por que a Fifa não enfrenta nem se queixa com os EUA dos problemas que os participantes da Copa estão vivendo com as restrições de entrada no país? A parceria entre Infantino e Trump desde o início silenciou a Fifa?
A Fifa não tem mais a influência que já teve, abriu mão dela. Não esqueçamos que dois dias antes da Copa do Mundo do Qatar em 2022, os organizadores da Copa decidiram que a cerveja não seria mais vendida dentro dos estádios. O que a Fifa fez? Nada, porque não tinha mais influência. Pense no que Donald Trump pode fazer com a Copa que vai começar.
Além disso, Gianni Infantino cometeu um enorme erro estratégico quando entregou a Trump o Prêmio da Paz da Fifa em dezembro de 2025. Não porque ele não merecesse o Prêmio da Paz —ele absolutamente não merecia, não me interprete mal—, mas porque Infantino deveria ter esperado e apresentado isso como uma possibilidade, dizendo algo como, “oh, vou lhe dar um Prêmio da Paz no final do torneio”. Poderia ter sido um incentivo para talvez Trump se comportar da melhor maneira possível. Em vez disso, cedeu o ouro antes do torneio, eliminando qualquer vantagem que pudesse ter sobre Trump.
A verdade é que Infantino é bajulador até ao nível molecular e cometeu uma série de erros ao longo do caminho que o afastaram não só dos adeptos do futebol, mas também de pessoas dentro da sua organização que, penso eu, deveriam falar mais abertamente contra o que ele está fazendo.
É possível estabelecer uma conexão entre esses episódios e as queixas sobre os preços exorbitantes dos ingressos para a Copa? Será que as particularidades políticas e econômicas dos EUA como superpotência podem tornar esta uma edição atípica da Copa, que geralmente ocorre sob praticamente o mesmo “padrão Fifa” onde quer que seja realizada?
O que vemos com a Copa nos EUA é a confluência do hipercapitalismo ao estilo americano com a máquina de ganância da Fifa. Eles chamam isso de preços dinâmicos… pode soar bem a palavra: “dinâmico”, mas na realidade isso não é bom para ninguém que esteja tentando comprar ingresso.
E tudo isso contribui para o zeitgeist de inacessibilidade. Há um paradoxo nesta Copa. Por um lado, há mais seleções do que nunca participando do torneio. Por outro, temos pessoas sendo excluídas, literalmente, do país –se você for do Irã, Haiti, Senegal ou Costa do Marfim–, mas também por meio desses preços altos dos ingressos, que servem para excluir pessoas que não são extremamente ricas.
Gianni Infantino e Donald Trump se uniram para pegar o esporte do povo e fazer o possível para transformá-lo no esporte dos plutocratas para uma pequena parcela privilegiada do 1% da população mundial.
O esporte tem sido uma grande ferramenta de soft power em todo o mundo. Acha que, pelo fato de os EUA ainda serem uma superpotência, eles desconsideram essa ferramenta?
Prefiro falar sobre a Copa do Mundo pela ótica do sportswashing em vez do soft power. Se sportswashing é quando líderes políticos usam o esporte para desviar a atenção de problemas sociais crônicos e violações de direitos humanos, permitindo que esses líderes pareçam importantes ou legítimos no cenário mundial enquanto criam oportunidades para ascensão política e econômica, então o que estamos testemunhando nos EUA agora é definitivamente sportswashing.
Vimos sportswashing na Rússia antes da Copa de 2018? Sim, vimos. Vimos sportswashing antes da Copa do Qatar de 2022? Sim, vimos. Há uma tendência, tanto na academia quanto no jornalismo e no público em geral, de não usar o termo sportswashing quando falamos de países que se consideram democracias. A meu ver, isso é um exemplo de pensamento etnocêntrico. Às vezes, chega a ser xenófobo.
De que Donald Trump gostaria de desviar a atenção? Há seus índices de aprovação em queda livre, mais baixos do que nunca. Há o fato de a guerra com o Irã, que ele trava ao lado de Israel, ser um desastre épico. Há o fato de que ele prometeu resolver a inflação no primeiro dia, e a inflação está extremamente alta. Há os arquivos de Epstein, sobre os quais ele não quer que pensemos. É claro que ele está desviando a atenção de muitas coisas diferentes e criando oportunidades políticas para si mesmo.
Muitas vezes, quando as pessoas discutem se o sportswashing ou o soft power funcionam, elas estão falando sobre se funciona com um público externo. Mas também é preciso considerar o público interno. Não acho que Trump se importe muito com o que o resto do mundo pensa.
Então, a exclusão do árbitro da Somália e revistas como as feitas nos atletas do Senegal e do Uzbequistão têm a ver com uma cultura de segurança performática que, na verdade, visa o público interno às vésperas das eleições de meio de mandato [as chamadas “midterms”]. Quanto pior a popularidade de Trump, mais incentivo ele tem para se envolver em sportswashing como sua tábua de salvação política.
As críticas vindas de todo o mundo podem mudar esse quadro?
Nem todo mundo precisa concordar com o sportswashing. É disso que trata a política. Se as pessoas não fizerem nada, não expressarem seu descontentamento com o que vemos agora, definitivamente nada mudará.
O futuro é muito incerto nos EUA, para além da Copa do Mundo. Mas a Copa é uma espécie de teste que nos lembra que o esporte é política por outros meios e que, às vezes, pode nos dar uma vantagem na política de maneiras muito mais difíceis de se alcançar apenas com a política eleitoral tradicional. Tenho certeza de que veremos protestos em vários estádios nos EUA, em frente aos locais da Copa. Isso fará alguma diferença? Veremos.
RAIO-X | Jules Boykoff, 55
Ex-jogador de seleções de base dos EUA, é doutor em ciência política pela American University (Washington DC) e professor da matéria na Pacific University (Oregon). É autor de “Red Card: The 2026 World Cup, Sportswashing, and the FIFA Greed Machine” (OR Books, 2026), “Kicking” (Duke University Press, 2026) e “What Are the Olympics For?” (Bristol University Press, 2024), entre outros livros.
Autor: Folha








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