sábado, junho 13, 2026
16.7 C
Pinhais

academia tenta apagar mil anos de história

Quando os filhos eram pequenos, Louis Markos contava a eles, na mesma cadeira, histórias da Bíblia e da mitologia grega, sem ver concorrência entre as duas. Professor de literatura e apologista cristão na linhagem de C. S. Lewis, com alguns livros já traduzidos no Brasil, ele aprendeu cedo a não separar as heranças. Os quatro avós nasceram na Grécia e emigraram para os Estados Unidos por volta de 1930. A herança grega veio de berço; juntá-la a Jerusalém foi obra dele.

Na vida dele, a literatura veio antes da fé. Markos leu Homero ainda menino e só aceitou Cristo na adolescência, e a conversão não cobrou dele o abandono de Ulisses. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele conta: “Quando o cristianismo chegou, não precisou substituir a literatura. Reforçou-a, juntou tudo”.

No centro de tudo o que Markos escreve está uma fórmula herdada de C. S. Lewis: Cristo é o mito que se fez fato. Ele a explica sem pressa. “Mito não significa necessariamente falso. Jesus é um mito verdadeiro. Verdadeiro porque aconteceu de fato, no tempo e no espaço reais, mas mito no sentido de que responde às perguntas mais profundas da humanidade. Quem sou eu, por que estou aqui, de onde vim, para onde vou. É o mito que se tornou realidade.”

O encontro tem nome antigo. “É o que chamamos de unir Atenas e Jerusalém”, diz. “Atenas é o greco-romano, Jerusalém é o judaico-cristão. É a tradição que criou a Europa.” Perguntado sobre seus mestres, responde com Platão, Dante e C. S. Lewis, três nomes que atravessam dois mil e quinhentos anos. A convicção virou método, e o método virou livro. De Platão a Cristo rastreia o quanto a fé cristã deve ao platonismo, e o recente From Aristotle to Christ (De Aristóteles a Cristo, ainda sem edição brasileira) estende a conta a Aristóteles.

O salto de mil anos

Os séculos que Markos rastreia em livro são os mesmos que a universidade aprendeu a pular. Ele passou a carreira observando como a academia conta a história do pensamento, e o que ela omite. “Às vezes você lê livros de filosofia que vão até Aristóteles e depois pulam direto para Descartes, como se não houvesse nada na Idade Média inteira. Mencionam Agostinho de passagem e saltam todo o resto.”

O salto apaga justamente os séculos em que a teologia era chamada de rainha das ciências, a disciplina para a qual todas as outras subiam. E sustenta, segundo ele, uma pretensão que não resiste ao exame. O acadêmico secular admite que a universidade cristã tem sua visão de mundo, mas reivindica para si a objetividade. Markos devolve sem cerimônia. “Vocês não são objetivos. Vocês também têm uma visão de mundo, uma que corta fora tudo o que está acima do mundo.”

Markos ensina na Houston Christian University, antiga Houston Baptist, instituição evangélica do Texas, e nas turmas dele convivem católicos e batistas, e também muçulmanos e hindus. A convivência funciona, ele explica, porque a casa adota o que Lewis chamou de cristianismo puro e simples, o núcleo do Credo Niceno em que todos os cristãos concordam, com as diferenças de batismo e liturgia discutidas depois, sem pressa. Da experiência ele tira uma comparação que inverte o senso comum. “Na escola secular, você não pode trazer o lado cristão. Numa boa escola cristã, você pode trazer o lado secular. Há mais liberdade ali, porque se discutem os dois lados.”

Quando o interlocutor secular se recusa a abrir o livro sagrado, Markos não insiste no versículo. Procura o terreno comum, e o encontra na experiência moral de qualquer pessoa. O argumento favorito dele parte da objeção mais repetida contra Deus, a injustiça do mundo. “Pergunte a essa pessoa como ela sabe que o mundo é injusto. Você não pode chamar uma linha de torta sem saber o que é uma linha reta. De onde vem a sua ideia de que o mundo deveria ser justo?”

Num universo de pura seleção natural, observa, o fraco morre, o forte sobrevive e ninguém chama isso de errado. O escândalo diante da injustiça, para Markos, é a prova involuntária de que todo mundo carrega uma régua que não veio da natureza.

A vergonha que sumiu

Markos dá aula há mais de três décadas e viu uma mudança acontecer diante dele. O aluno flagrado colando, que antes baixava os olhos, hoje sustenta o olhar do professor sem registrar nada. “É assim que uma sociedade se destrói por dentro, quando perde o senso de vergonha.”

O diagnóstico dele parte de uma inversão. A cultura contemporânea elegeu a culpa como inimiga, e Markos a defende. “A culpa não é o problema. A culpa é o sinal de que há um problema”, afirma. “Quando o corpo se quebra, sentimos dor. Quando a alma se quebra, sentimos culpa ou vergonha, e precisamos cuidar disso.”

A genealogia do erro, para ele, passa por Freud e desemboca na escola. Nos Estados Unidos, a pedagogia que proíbe o aluno de se sentir mal consigo mesmo ganhou até nome de batismo, o movimento da autoestima (self-esteem movement). “É assim que se cria um monstro, sem sensor interno para lhe dizer quando errou.” O professor que fala assim é o mesmo que insiste em dizer ao aluno flagrado que ele continua valioso, e que reconhece a existência de uma culpa adoecida, nascida do trauma, que precisa de terapia. A vergonha que ele defende é a outra, a que funciona.

A inteligência artificial entrou na conversa pelo mesmo caminho. O estudante que entrega um texto produzido pela máquina já não precisa fingir que escreveu. Convenceu a si mesmo de que a ideia era dele e o resto é ferramenta. “A IA escreve o texto inteiro para você”, observa Markos, e o que o inquieta não é a tecnologia, é o constrangimento que parou de acompanhá-la.

Degrau a degrau

Para impasses desse tamanho, Markos aponta uma saída com 16 séculos de idade. O caminho de Agostinho até Cristo passou pelos platônicos, e Markos resgata o Sermão 119 do bispo de Hipona. Na interpretação do professor, nos livros dos platônicos Agostinho leu que no princípio era o Verbo e que o Verbo era Deus. Mas foi só na Bíblia que leu o Verbo que se fez carne e habitou entre os homens.

A filosofia pagã, nessa leitura, carregou Agostinho durante todo o trajeto que ela mesma não podia completar. “A sabedoria pagã o foi elevando, degrau a degrau, até Deus. Não foi desperdício, foi preparação.” Os antigos tinham fórmula para isso, praeparatio evangelica (preparação para o Evangelho), e Markos a aplica a tudo o que olha.

“O cristianismo não é a única verdade, é a única verdade completa”, diz. “Encontramos pedaços de verdade em toda cultura, mas só em Cristo temos a verdade inteira.” É com essa régua que ele consegue citar, na mesma frase e com a mesma simpatia, os hippies americanos dos anos 1970 que viraram cristãos e um Richard Dawkins que passou a vida atacando a religião e hoje se apresenta como “cristão cultural”.

A diferença entre Cristo e os outros fundadores, para Markos, mora no sujeito da frase. “Maomé e Buda dizem ‘eu vou lhe ensinar a verdade, eu vou lhe mostrar o caminho’. Só Jesus diz ‘eu sou o caminho, a verdade e a vida’. Ele fez afirmações sobre si mesmo, não apenas sobre sua doutrina.” A verdade que Markos persegue nos livros, dos gregos aos vitorianos, não é uma ideia. É uma pessoa.

No topo da montanha

No Brasil, as Confissões de Agostinho chegaram ao topo da lista de mais vendidos da revista Veja, em primeiro lugar na prateleira de “autoajuda e esoterismo”, categoria que a revista reservou a um tratado de teologia escrito no século IV. A geração que compra o livro cresceu sem latim na escola e sem filosofia no currículo. Markos diz acompanhar de longe esse retorno dos jovens brasileiros aos ideais clássicos e cristãos, e o lê como sinal de vitalidade, não de nostalgia. Para esses jovens, ele oferece uma definição: “A palavra radical vem de radix, raiz. Um verdadeiro radical volta às raízes”. Quem busca hoje o cristianismo está voltando à raiz da civilização em que vive. “De um jeito estranho, você é um radical.”

Quando quis resumir o que pensa, Markos recorreu a uma imagem que fica a dez mil quilômetros de Houston, no alto do Corcovado. Ele sabe que teólogos liberais americanos usam a figura da montanha de muitos caminhos para diluir o cristianismo entre as demais religiões, e aceita a figura pelo motivo oposto. As trilhas podem ser muitas. “No topo da montanha está quem disse ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida'”, afirma. “Está lá em cima, o Redentor do mundo.”

VEJA TAMBÉM:

  • Jules Rimet: o católico devoto que ajudou a criar a Copa do Mundo

Autor: Gazeta do Povo

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas