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Ozempic: o que a ciência confirma além da perda de peso – 14/06/2026 – Equilíbrio e Saúde

Você provavelmente já ouviu falar de Ozempic ou Wegovy. Esses são os medicamentos injetáveis que se tornaram nomes conhecidos para perda de peso e diabetes.

Agora, pesquisadores estão investigando se esses medicamentos conhecidos como agonistas de GLP-1 ou medicamentos GLP-1 poderiam tratar desde câncer e doenças cerebrais até depressão, dependência e endometriose.

Algumas descobertas são genuinamente empolgantes. Outras estão sendo supervalorizadas. Veja o que a ciência realmente diz.

Primeiro, como esses medicamentos funcionam?

O GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1) é um hormônio que seu intestino libera naturalmente após comer. Ele diz ao pâncreas para produzir insulina e sinaliza ao cérebro que você está satisfeito. Esses medicamentos imitam esse hormônio.

Mas os receptores de GLP-1 não estão apenas no intestino. Eles são encontrados no coração, rins, fígado e cérebro. É isso que faz os cientistas pensarem que esses medicamentos podem fazer muito mais do que controlar o peso.

Onde as evidências já são sólidas

Além do diabetes e da obesidade, os medicamentos GLP-1 agora obtiveram aprovação regulatória em várias novas áreas.

Um estudo com mais de 17 mil pessoas descobriu que a semaglutida (o princípio ativo do Ozempic/Wegovy) reduziu o risco de infartos e AVCs graves em 20%, mesmo em pessoas sem diabetes.

Em um estudo com quase 1.200 pacientes, a semaglutida superou o placebo no tratamento de um tipo de doença hepática avançada.

A tirzepatida (princípio ativo do Mounjaro) também demonstrou reduzir significativamente a gravidade da apneia do sono, principalmente porque a perda de peso diminui a pressão sobre as vias aéreas.

GLP-1 e câncer: promissor, mas sem evidências de ensaios clínicos

A obesidade é um fator de risco para pelo menos 13 tipos de câncer, então reduzir o peso usando medicamentos GLP-1 também pode limitar o risco de câncer. Isso foi demonstrado em um estudo com 86.000 adultos com obesidade. Descobriu-se que usuários de GLP-1 tiveram um risco 17% menor de câncer.

Novos dados sugerem que usuários de GLP-1 também tinham menor probabilidade de ver o câncer se espalhar para outros órgãos, mas esse trabalho ainda precisa ser verificado por outros pesquisadores. Os efeitos anti-inflamatórios desses medicamentos, que parecem funcionar independentemente da perda de peso, podem estar desempenhando um papel.

No entanto, ainda não houve ensaios clínicos bem controlados que estabeleçam a ligação entre medicamentos GLP-1 e prevenção do câncer.

Endometriose: sinais iniciais, mas promissores

A endometriose afeta aproximadamente uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva. É quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele.

Como os receptores de GLP-1 também estão presentes no tecido reprodutivo, esses medicamentos mostraram potencial na melhora dos sintomas, com uma pesquisa com 161 mulheres apoiando isso.

Mas, semelhante ao câncer, não há ensaios randomizados em humanos.

Dependência e tabagismo

Os receptores de GLP-1 estão concentrados nas vias de recompensa do cérebro. Esses mesmos circuitos impulsionam os desejos por álcool, nicotina e drogas.

Uma análise de mais de 1,3 milhão de pessoas descobriu que usuários de GLP-1 tiveram taxas significativamente menores de overdose de opioides e intoxicação alcoólica.

Um ensaio randomizado descobriu que a semaglutida reduziu o consumo de álcool em pessoas com transtorno por uso de álcool.

Estudos iniciais para parar de fumar também são encorajadores.

É aqui que a história fica genuinamente complicada.

Existem razões biológicas reais pelas quais os medicamentos GLP-1 poderiam ajudar com neurodegeneração e problemas de saúde mental. Eles reduzem a inflamação cerebral, interagem com a dopamina (o químico da motivação do cérebro) e apoiam o eixo intestino-cérebro (a rede de comunicação que transporta sinais de e para o intestino e o cérebro).

No entanto, as evidências clínicas atuais são conflitantes.

Para a doença de Alzheimer, pesquisadores deram a 204 participantes com doença leve a moderada liraglutida (um GLP-1 anterior ao Ozempic) e mediram quanta massa cerebral eles perderam. Aqueles que tomaram o medicamento mostraram significativamente menos encolhimento em regiões cerebrais importantes, incluindo o lobo temporal e a massa cinzenta geral.

No entanto, um grande ensaio de fase 3 com semaglutida oral descobriu que ela não foi eficaz em retardar a progressão clínica da doença.

Da mesma forma, a exenatida (outro GLP-1 anterior) não mostrou evidências de modificação da doença em um ensaio de fase 3 para doença de Parkinson.

Para saúde mental, as evidências atuais também são mistas. Meta-análises e grandes estudos de coorte mostram reduções significativas nos escores de depressão e ansiedade entre usuários de GLP-1.

Mas um estudo observacional separado descobriu que pessoas usando esses medicamentos tinham quase o dobro do risco de depressão maior.

Outro artigo descobriu que pessoas com tendência genética a níveis baixos de dopamina podem enfrentar maior risco de depressão e pensamentos suicidas com esses medicamentos.

Também há relatos de casos de episódios psiquiátricos graves aparecendo semanas após o início do tratamento.

Ainda não sabemos quem esses medicamentos ajudarão e quem eles poderiam prejudicar seriamente.

Sobre o que precisamos ter cautela

Crucialmente, a maioria dos novos usos para esses medicamentos ainda não foi testada em ensaios clínicos adequados. Grandes estudos do mundo real são úteis, mas não podem descartar fatores de confusão cruciais. Isso significa que os efeitos podem ser devidos a influências externas.

Por exemplo, a maioria dos principais ensaios de GLP-1 incluiu pessoas com obesidade ou diabetes. Pessoas com condições de saúde mental, doenças neurodegenerativas ou dependência foram amplamente excluídas. No entanto, essas são exatamente as populações agora sendo consideradas para tratamento.

Os efeitos a longo prazo também são desconhecidos. Um estudo com mais de 200.000 pacientes encontrou um risco 2 a 2,5 vezes maior de pancreatite induzida por medicamentos (inflamação perigosa do pâncreas).

A perda de peso rápida também elimina massa muscular magra, não apenas gordura, afetando força e metabolismo, especialmente em adultos mais velhos.

Estudos também indicaram que esses medicamentos apresentam risco de câncer de tireoide, levando a um aviso nas bulas, mas as evidências são altamente conflitantes.

O tempo e mais pesquisas dirão, mas há preocupações genuínas de segurança associadas ao uso generalizado desses medicamentos.

Então, embora a ciência aqui seja genuinamente empolgante, devemos continuar a abordar com cautela informada.

Esta reportagem foi publicada originalmente no The Conversation. Clique aqui para ler.

Autor: Folha

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