O americano Dylan Alverson estava no meio de gás lacrimogêneo e granadas de atordoamento, na rua congelada onde Alex Pretti foi morto a tiros por agentes de imigração em janeiro. Foi quando teve a ideia do que ele mais tarde chamou de “uma decisão de negócios absurda”. Ele decidiu parar de cobrar pela comida no Modern Times, o café no sul de Minneapolis que administra há 15 anos.
“Pelo restante da ocupação governamental, funcionaremos como um restaurante gratuito e a partir de doações”, escreveu nas redes sociais, dois dias após o tiroteio. A intenção original da mudança era deixar de pagar impostos sobre vendas a um governo que, segundo ele, estava “infligindo danos diários ativos a seus cidadãos”. O restaurante com sistema “pague-o-que-quiser” também ganharia um novo nome: Post Modern Times.
A decisão de Alverson surgiu em um momento de resistência local intensa e amplamente divulgada à Operação Metro Surge, que trouxe 3.000 agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos e provocou agitação generalizada em Minnesota no inverno passado.
Mais surpreendente, porém, foi o que se seguiu nas semanas e meses seguintes. O Post Modern Times prosperou, mesmo com o número de clientes que não pagam pela comida oscilando entre 40% e 50%.
“Tive mais sucesso do que jamais tive quando administrava um negócio convencional com 22 funcionários”, disse Alverson, que decidiu tornar a mudança permanente. “Acho que isso é prova de que algo está errado.”
Em um dos primeiros dias quentes da primavera no mês passado, o movimento do café da manhã começou assim que as portas do Post Modern Times abriram às 9h. Alverson, um pai de três filhos, casado e com argola no nariz, fez uma pausa entre as tarefas enquanto os clientes se acomodavam.
Entre eles estava Antonio Malone, um videoartista que disse comer no restaurante todos os dias há três semanas, atraído pela comida gratuita e de qualidade. Sofia Padilla é uma frequentadora do bairro cujo filho adora as panquecas. Ela não acredita que a cidade tenha se recuperado completamente da turbulência do inverno.
“O bairro inteiro parecia uma zona de guerra”, disse ela. “Quero apoiar um negócio que se importa tanto com a comunidade.”
Alverson é, ao mesmo tempo, anfitrião e porta-voz do seu restaurante no estilo lanchonete, construído dentro das antigas instalações de um jornal alternativo e centro literário. Ele articulou sua visão em evolução para inúmeros interessados, incluindo jornalistas, cineastas de documentários e membros de um grupo de teatro experimental.
O que começou como uma forma de contornar o pagamento de impostos sobre vendas evoluiu para um negócio que beira a arte performática: um restaurante que pode oferecer uma solução para um modelo de negócios falido em todo o setor, além de uma crítica a esse modelo.
“Tenho lutado para ter lucro por 15 anos, e não acho que seja possível sem explorar as pessoas”, disse ele. “Estamos saindo do sistema.”
Restaurantes baseados apenas em doações ou no sistema pague-o-que-quiser não são novidade. O que torna a abordagem de Alverson inovadora é sua determinação em centrar o negócio em um conceito ampliado de hospitalidade, movido por algo além da sobrevivência econômica. Atender clientes que não têm condições de comer na maioria dos restaurantes traz um componente ético à sua definição recalibrada de sucesso.
“É uma espécie de acordo tácito na América de que existe um grupo de pessoas que não vale nada, e são tratadas como tal”, disse ele. “Eu discordo disso.”
Alverson reduziu o cardápio após remover os preços, para ajudar a pequena cozinha a acompanhar o aumento da demanda. Mas os diferenciais que distinguiam o Modern Times de outros cafés diurnos com cardápios no estilo lanchonete —pão e leitelho artesanais, ingredientes locais, tudo feito na hora— permanecem no seu sucessor.
Um cliente, Juvie Harper, disse que visitou o Post Modern Times pela primeira vez em abril, esperando encontrar a comida pré-pronta e embalada que costuma encontrar em organizações do tipo. Ficou surpreso, disse ele, “ao ver que é tudo realmente feito na hora, com opções de diferentes bebidas e quitutes”.
Nos anos anteriores à pandemia, disse Alverson, o restaurante foi lucrativo todos os anos exceto um, mas nunca ultrapassou uma margem de lucro de 10%. Ele vê seus dias como um jovem punk antecipando o colapso social como um ativo enquanto continua a enfrentar probabilidades intimidadoras como restaurateur.
“Essa economia que chamo de fascista não é um lugar onde negócios independentes conseguem sobreviver”, disse ele. “Acredito que estamos diante de um fracasso catastrófico da indústria de restaurantes.”
A análise pessimista não é assim tão descabida.
Cerca de 42% dos donos de restaurantes disseram que seus negócios não eram lucrativos em 2025, segundo um relatório da Associação Nacional de Restaurantes.
A proximidade do Modern Times com eventos trágicos —fica a apenas quatro quarteirões de onde Renée Good foi morta e a seis quarteirões do local do assassinato de George Floyd— contribuiu para seus desafios. Mas a precariedade financeira que Alverson viveu nos últimos seis anos não é incomum.
Seu restaurante gerou US$ 1,3 milhão (R$ 6,76 milhões) em vendas no ano passado e ainda assim teve um prejuízo de US$ 18.500 (R$ 96,2 mil), de acordo com um demonstrativo financeiro preparado por um contador que ele compartilhou com o The New York Times. E isso apesar de medidas de contenção de custos, como pagar a si apenas US$ 23 mil (R$ 119,6 mil) por ano como gerente, chef e faz-tudo do restaurante.
“Tenho usado o máximo de chapéus possível”, disse Alverson. “Os números não fecham.”
Os produtos diferenciados do Modern Times acrescentaram uma fonte de receita desde que o restaurante introduziu camisetas de tiragem limitada com design de artistas durante a pandemia. A atenção gerada pela Operação Metro Surge e pela resposta de Alverson a ela provocou um aumento nessas vendas, de US$ 60 mil (R$ 312 mil) por ano para US$ 25 mil (R$ 194 mil) só em abril deste ano, além de uma enxurrada de doações financeiras vindas de fora de Minnesota.
Alverson descreve sua operação atual como “um período de criação”. O objetivo é encontrar um modelo que funcione para ele e para outros.
“O que percebi imediatamente é que criamos um espaço de igualdade econômica que realmente não existe em um ambiente de negócios”, disse ele. “O que podemos aprender com isso?”
Seus esforços não foram universalmente aplaudidos. Alverson disse que vizinhos reclamam regularmente que o Post Modern Times está atraindo clientes que aumentam o potencial de crimes.
Para responder a essas preocupações, Derek Armstrong faz segurança em frente ao restaurante na maioria dos dias. Vale-se de sua experiência como “interruptor de violência” na George Floyd Square, intervindo pacificamente antes que crimes pudessem ocorrer. Ele sabe como navegar em momentos intensos que podem ser complicados por dependência química e doença mental, como suspeitou ser o caso quando um cliente apontou uma faca de manteiga para um funcionário.
Mas seu trabalho voluntário costuma ser muito mais tranquilo do que isso, disse ele, e muitas vezes ele conhece as pessoas envolvidas. “Às vezes consigo chamar pelo nome e dizer: se acalma”, explicou Armstrong. “Coisas de etiqueta para garantir que aqui seja administrado como o restaurante de alta qualidade que é.”
Autor: Folha








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