A República Democrática do Congo volta à Copa do Mundo após 52 anos. A seleção africana estreia contra Porgual nesta quarta-feira (17), às 14h. A partida, válida pelo Grupo K do torneio, será transmitida pela CazéTV.
A única participação anterior do país no torneio ocorreu em 1974, quando ainda se chamava Zaire.
Os jogadores daquela seleção entraram em campo contra o Brasil sob ameaça de morte. No jogo anterior, tinham perdido da Iugoslávia por 9 a 0. O ditador Mobutu Sese Seko, presidente do país na época, avisou então que se o time perdesse por quatro gols de diferença os atletas não voltariam vivos para casa.
O contexto ajuda a explicar uma das cenas mais emblemáticas daquele Mundial. No fim da partida em Gelsenkirchen, na Alemanha, o Brasil vencia por 2 a 0 e uma falta foi marcada a favor da seleção no final do jogo. Enquanto os jogadores decidiam quem faria a cobrança, o zagueiro Mwepu Ilunga saiu da barreira e chutou a bola para longe.
O lance virou motivo de críticas no mundo todo à época. Mas anos depois o jogador revelou, em entrevista ao jornal francês L’Equipe, a pressão vivida pelo elenco. “Ninguém ali sabia o que estávamos vivendo”, disse.
O Brasil precisava vencer o Zaire por três gols de diferença para avançar ao mata-mata, sistema em que quem perde é eliminado da competição. Na manhã daquele 22 de junho de 1974, a Folha estampou na manchete: “A seleção ressuscita hoje” e tratou a equipe adversária como “a mais fraca da Copa”. O cenário indicava goleada, mas não foi o que se viu em campo.
Apesar do 3 a 0, o goleiro zairense Kasady teve grande atuação. Do lado brasileiro, o nervosismo tomou conta. “Não aguentava mais olhar para o relógio que ficava às minhas costas”, disse Leão, goleiro do Brasil, à Folha no dia seguinte. “A defesa deles pegando tudo, o nosso time errando os chutes e eu sem poder fazer nada. Confesso que fiquei desesperado.”
A dificuldade contrastava com a expectativa e também com a trajetória recente do Zaire. O comando era do técnico Blagoje Vidinić, iugoslavo nascido na atual Macedônia do Norte. Com ele, a equipe se classificara para a Copa ao vencer o Marrocos por 3 a 0, em dezembro de 1973, em Kinshasa, capital do Congo.
A campanha transformou o treinador em herói nacional, já que foi a primeira classificação do país para a competição, e rendeu premiações aos jogadores, como apartamentos, carros e férias na Europa. Mas a estrutura começou a ruir antes mesmo do Mundial.
O programa rígido de treinamentos elaborado por Vidinić foi atrasado pelas celebrações promovidas por Mobutu após a classificação. Já na Alemanha, depois da derrota por 2 a 0 para a Escócia na estreia, os jogadores do Zaire descobriram que não receberiam os pagamentos prometidos. “Eles justificaram que foram desmotivados para o jogo contra a Iugoslávia por causa disso”, afirma o historiador Celso Unzelte.
Sem garantias financeiras, o ambiente interno foi se complicando. No terceiro gol sofrido durante a goleada da Iugoslávia, um dirigente entrou em campo e substituiu o goleiro, desrespeitando a autoridade técnica de Vidinić. O treinador permaneceu até o fim do jogo por questão ética, mas pediu desligamento imediatamente após a derrota para o Brasil.
Os jogadores brasileiros adotaram cautela antes da partida. O defensor Wilson Piazza lembrou a derrota para a Suécia no ano anterior como alerta. “Foi considerado o jogo mais fácil e perdemos. Isso também pode acontecer com o Zaire, não pode?”, disse na ocasião. O meia-atacante Leivinha também pregava organização em vez de uma tentativa desordenada de buscar o saldo necessário.
Em campo, porém, prevaleceu o individualismo. O camisa 10 brasileiro, Roberto Rivelino, avaliou que a necessidade de marcar três gols comprometeu o jogo coletivo. “Queríamos resolver as coisas sozinhos e permitimos a interceptação dos africanos, que se preocupavam apenas em perder de pouco”, afirmou. Leão foi mais direto e disse que o Brasil “só venceu por sorte”.
Para o técnico Vidinić, aquela foi a melhor atuação do Zaire no torneio. Unzelte afirma que o jogo entrou para a história como um dos mais difíceis da seleção brasileira do ponto de vista psicológico.
O pós-Copa foi duro para os atletas africanos. “A delegação voltou, mas foi tratada como marginal”, disse o pesquisador Lycio Vellozo Ribas, autor de “O Livro de Ouro das Copas” e “O Mundo das Copas”.
Para Ribas, aquela também foi “a pior seleção brasileira em desempenho, pelo nível dos nomes, um ciclo ruim e resultados decepcionantes”.
O historiador Unzelte afirma que os jogadores do Zaire, especialmente os envolvidos no 9 a 0 contra a Iugoslávia, “caíram em desgraça nacional”, impulsionados pela narrativa da própria ditadura. Segundo ele, o presidente do Zaire proibiu o país de disputar as eliminatórias para a Copa de 1978, que aconteceu na Argentina. “Mobutu retirou o investimento do futebol alegando que o time não era patriota o suficiente”, afirma.
Mais de meio século depois, a RD Congo está de volta a uma Copa do Mundo. A classificação para 2026 veio no dia 31 de março, em Guadalajara, com vitória por 1 a 0 sobre a Jamaica na final da repescagem intercontinental. Desta vez, vai a campo sem o regime ditatorial de Mobutu e com 52 anos de história para contar.
Autor: Folha








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