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Cannabis medicinal: empresas burlam regras de publicidade – 19/06/2026 – Equilíbrio e Saúde

Publicações no Instagram que fazem propaganda de produtos de Cannabis medicinal prometem benefícios como foco, energia, proatividade, melhora no sono, alívio para dor muscular e dor de cabeça.

Durante uma semana, a reportagem condicionou o algoritmo de uma conta na plataforma para receber esses anúncios patrocinados, que chegaram aos montes. Alguns, mais ousados, questionavam a eficácia de remédios para tratamento psiquiátrico, como o Venvanse, e produtos de Cannabis eram oferecidos como alternativa.

Esses posts, contudo, estão em desacordo com as normas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que aplica rígida regulamentação à propaganda de Cannabis medicinal.

Em regra, a agência trata canabinoides como CBD (canabidiol) e THC (tetrahidrocanabinol), por exemplo, como itens sujeitos a controle especial. De acordo com a resolução que regulamenta o tema, a propaganda de Cannabis não pode ser direcionada ao público em geral, apenas a profissionais de saúde habilitados a prescrever ou dispensar esses produtos.

Remédios como Venvanse e anfetaminas são prescritos para casos severos de TDAH. São medicamentos que cumpriram o rito regulatório da Anvisa e provaram em testes clínicos sua segurança e sua eficácia para o tratamento.

Agressivo, o marketing nas redes sociais não poupa nem as canetas emagrecedoras, consideradas por sociedades médicas um dos maiores avanços farmacológicos para o tratamento de obesidade e diabetes.

“As canetas vão te fazer perder peso, mas você nunca mais será o mesmo. Após o uso, você volta a engordar, perde músculos e não consegue se alimentar. Resultado: mais gordura, menos músculos e danos ao seu organismo”, diz uma propaganda da empresa Click Cannabis, cujo perfil tem 754 mil seguidores no Instagram.

A preça mostra um esqueleto triste após falhar no tratamento para obesidade. “Com a Cannabis não é assim”, sugere o post.

Em seu site, a empresa afirma “conectar pacientes a médicos especialistas em Cannabis medicinal, com consultas online acessíveis e suporte completo em todas as etapas”. Procurada, a Click Cannabis disse que “opera de acordo com a legislação vigente e com estrita observância às normas da Anvisa” e que “todas as receitas são prescritas por médicos credenciados e autorizados”.

Em outra publicação paga, a empresa Blis, que tem 288 mil seguidores no Instagram, sugere que produtos de Cannabis podem substituir medicamentos tarja preta no tratamento da insônia. A prescrição desses medicamentos de uso controlado atende a avaliações médicas prévias e acompanhamento constante, com receituário especial.

Em nota, a empresa afirmou que não vende nem faz publicidade de Cannabis medicinal e que realiza “revisão contínua de suas comunicações” dentro das normas da Anvisa. “A comunicação da Blis tem caráter institucional, informativo e educativo, com o objetivo de explicar o caminho de acesso”, acresentou.

Ao clicar no link da publicidade, porém, o usuário é direcionado para o site da Blis, com promessa de consulta médica em poucos minutos. A empresa também se vende na mídia como um aplicativo que leva o paciente da consulta à compra em poucos minutos.

As duas empresas ocultam essas publicações em seus perfis —os posts aparecem apenas como sugestão do algoritmo para usuários interessados no assunto. Quem visita o feed se depara com postagens sobre estudos científicos e relatos de pacientes supostamente beneficiadas pelos produtos, incluindo influenciadores.

A prática também é adotada por de perfis de marcas menores no Instagram. Um anúncio de Cannabis medicinal direcionado a caminhoneiros promete estímulo psicológico durante as madrugadas na estrada. “Você não vai cair no exame toxicológico”, diz o anunciante.

A Folha compilou as publicações e as enviou à Anvisa, questionando a legalidade das peças. A reportagem reforçou o pedido de posicionamento em outras três ocasiões, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Mas para que servem o CBD e o THC? Quando (e como) usá-los? “Quando o médico lhe prescrever”, responde a médica Juliana Bogado, da Sociedade Internacional de Pesquisa em Canabinoides (ICRS, na sigla em inglês).

“Tratar tudo como ‘Cannabis medicinal’ já é um erro. Usamos os canabinoides, não toda a Cannabis”, explica Juliana, que estuda as aplicações da planta na medicina desde 2014.

“O que abriu as portas para os canabinoides foi a epilepsia refratária [que não responde a dois ou mais medicamentos]. Isso foi aprovado pela FDA [agência reguladora dos EUA], com estudo e liberação para venda de remédios em farmácias”, diz.

A médica afirma que as terapias para tratar dor crônica, dor neuropática e esclerose múltipla também são bem aceitas na medicina. A Cannabis também é indicada para aliviar náuseas e vômitos durante a quimioterapia. “Promessas de melhora da libido ou ganho de massa muscular não têm embasamento científico. Já os estudos clínicos sobre o TDAH estão em fase inicial. Não se pode afirmar que funciona”, diz Juliana.

Para Allan James Paiotti, biólogo e CEO da Cannect, tratar a Cannabis como um remédio milagroso útil para tudo “atrapalha médicos e pacientes”. Ele reforça que os canabinoides são recomendados para tratamento de dores crônicas, epilepsia refratária e fibromialgia, por exemplo, e lembra que o tratamento depende de acompanhamento médico.

“Os canabinoides têm potencial relevante na medicina pois funcionam de forma diferente dos medicamentos tradicionais. A Cannabis mimetiza moléculas que temos em nosso corpo, reduzindo os efeitos colaterais”, afirma Paiotti.

Uma revisão de estudos feita por pesquisadores do New Hampshire Hospital, nos EUA, e publicada em 2021 no periódico Psychiatric Services concluiu que as evidências atuais são insuficientes para recomendar a Cannabis como tratamento padrão para ansiedade, depressão ou TEPT (transtorno de estresse pós-traumático).

O relatório reforça que, embora existam benefícios biológicos, o uso pode, em alguns casos, piorar tratamentos de transtornos de humor e ansiedade se não for estritamente controlado, em contraste com o que é prometido nas redes sociais.

  • Sono: estudos sugerem melhora de insônia, principalmente em pacientes com dores crônicas, mas uso generalizado é contraindicado por falta de mais evidências.
  • Ganho muscular: sem evidências e pouco investigado.
  • Libido: estudos indicam experiências positivas individualizadas e restritas e apontam para resultado prejudicial de desempenho sexual e fertilidade no longo prazo.
  • Ansiedade: evidência científica restrita e uso contraindicado atualmente.
  • Depressão: pouca evidência científica.
  • Epilepsia refratária: muitos estudos e aceitação na comunidade médica, com liberação por agências reguladoras como Anvisa e FDA.
  • Dor crônica: aceita na comunidade médica e também liberada.
  • Controle do tabagismo: sem consenso sobre benefício e poucas evidências.
  • TDAH: com pouca evidência, não substitui medicamentos convencionais.
  • Obesidade: poucas evidências científicas.
  • Foco/concentração: poucas evidências e risco de piora do desempenho cognitivo, segundo estudos.
  • Fibromialgia: muito estudada, mostra potencial benéfico em larga escala, mas ainda carece de mais pesquisas clínicas.

Autor: Folha

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