Um surto de gripe infectou quase 160 militares na Base Aérea de Lackland, no estado do Texas, EUA, menos de dois meses depois que o secretário de Defesa Pete Hegseth anunciou que as tropas americanas não seriam mais obrigadas a se vacinar contra a gripe, informaram autoridades de defesa.
O surto na base em San Antonio se espalhou rapidamente por uma ala de treinamento militar da Força Aérea americana, onde novos recrutas dormem em beliches em alojamentos abertos e compartilham refeições em mesas comunitárias.
Um recruta em sua sexta semana de treinamento básico morreu após passar mal na sexta-feira (12) e ser levado ao Centro Médico do Exército Brooke, informou a Força Aérea em comunicado à imprensa. Não ficou imediatamente claro se a morte do recruta, Keon McDaniel, estava relacionada ao surto de gripe.
Uma revisão médica sobre a morte está em andamento para determinar a causa, conforme a Força Aérea.
Nas semanas desde que a política de vacinas de Hegseth entrou em vigor em 21 de abril, apenas cerca de 40% dos recrutas da Força Aérea optaram por tomar a vacina, que antes era obrigatória, diz um oficial.
Após o surto, a Força Aérea emitiu uma exceção à política de vacinação voluntária, exigindo que todos os recrutas em Lackland tomem vacinas contra a gripe —parte de um esforço mais amplo para conter a propagação do vírus.
Hegseth apresentou sua decisão de tornar a vacina da gripe opcional como uma questão de liberdade religiosa e autonomia médica.
“Sob o desastroso governo Biden, este Pentágono travou uma guerra implacável contra nossos guerreiros em muitas frentes, inclusive quando se tratou de negar-lhes simples autonomia médica e a liberdade de expressar suas convicções religiosas”, disse ele em um vídeo anunciando sua decisão em abril.
Ele descreveu a exigência da vacina contra a gripe como um mandato “absurdo e excessivo” que serviu para “enfraquecer nossas capacidades de combate”.
Na época, muitos parlamentares, incluindo alguns republicanos proeminentes, expressaram perplexidade e consternação com a decisão de Hegseth.
“A razão de ser obrigatória era aumentar a prontidão”, disse o senador Roger Wicker, republicano do Mississippi, presidente do Comitê de Forças Armadas, logo após o anúncio da nova política.
“Sabe, você renuncia a certos direitos quando faz o juramento”, disse Wicker, que é veterano da Força Aérea. “Isso faz parte.”
Sean Parnell, porta-voz-chefe do Pentágono, defendeu nesta quinta-feira (18) a condução de Hegseth da política de vacinas, dizendo que as mudanças foram “baseadas em avaliações de risco minuciosas” projetadas para maximizar a prontidão e a letalidade da força.
Oficiais da Força Aérea descreveram o recente surto de gripe como “localizado” na ala de treinamento básico e disseram que o pessoal médico estava monitorando e oferecendo medicação antiviral aos recrutas que tiveram contato com os doentes.
“Uma vez liberados pelos profissionais médicos, eles retornarão ao treinamento”, disse um comunicado da Força Aérea.
A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário do The New York Times.
Esse surto de gripe, por sua vez, destaca os riscos da abordagem mais ampla de Hegseth e do governo Trump em relação a vacinas e saúde pública.
Alguns membros do governo, particularmente aqueles envolvidos em agências de saúde pública, têm sido críticos das vacinações de modo geral. Embora tenha mudado seu tom desde a primavera, o secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. tem um histórico de questionar publicamente a segurança e eficácia de vacinas.
No ano passado, ele revogou as recomendações federais para todas as vacinas contra gripe contendo timerosal, um conservante à base de mercúrio que o movimento antivacina falsamente associou ao autismo.
O presidente Donald Trump uma vez defendeu a vacina contra a Covid, durante os meses iniciais da pandemia, enquanto ainda era presidente, em 2020. Mas logo se tornou resistente aos mandatos relacionados a essa vacina, particularmente à medida que sua base de apoiadores questionava sua segurança.
Apesar das ações de seu governo sobre as vacinas contra Covid e gripe, Trump recebeu as duas doses em outubro de 2025 no Centro Médico Militar Walter Reed.
Desde que assumiu o cargo, Hegseth tem lutado para garantir que os militares que foram forçados a deixar as Forças Armadas por se recusarem a tomar a vacina contra Covid possam retornar ao serviço em sua patente anterior com pagamento retroativo e benefícios.
Aproximadamente 8.700 militares da ativa e da reserva deixaram as Forças Armadas voluntária ou involuntariamente após se recusarem a ser vacinados antes que esse mandato fosse revogado em 2023. Até o verão passado, 13 haviam sido reintegrados.
Em março, Hegseth estendeu o prazo para solicitar a reintegração até 1º de abril de 2027.
O pessoal militar dos EUA ainda é obrigado a tomar vacinas contra doenças incluindo sarampo, caxumba e poliomielite. Outras, como a vacina contra antraz, podem ser exigidas dependendo do risco e da ocupação militar.
Em abril, Hegseth encorajou os militares a tomarem a vacina contra a gripe mesmo enquanto anunciava a mudança de política para torná-la opcional. “Não vamos forçá-los porque seu corpo, sua fé e suas convicções não são negociáveis”, disse ele.
Autor: Folha








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