
O mundo está diante de um novo El Niño, que pode redesenhar o próximo ciclo agrícola brasileiro. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou a formação, na sexta-feira (12), e indicou 63% de probabilidade de que as temperaturas da superfície do mar superem 2,0 °C na região monitorada do Pacífico.
Seria um “El Niño muito forte”, com potencial para entrar no grupo dos maiores eventos registrados desde 1950.
O evento acontece em um momento já bastante delicado para o agro brasileiro, que enfrenta endividamento crescente, juros elevados, encarecimento de insumos e queda das commodities.
Claudio Montoro, professor do Insper e advogado especializado em recuperação judicial, aponta que o fenômeno climático tende a reforçar a fragilidade financeira do campo. “É um catalisador de riscos para um setor que já opera com margens de lucro comprimidas”, afirma.
Mas não é só o campo que vai sentir os efeitos. A conta de luz, a carne e as hortaliças que chegam à mesa do brasileiro devem ficar mais caras nos próximos meses. As projeções de inflação estão em alta há 13 semanas, segundo o boletim Focus do Banco Central (BC). A última, divulgada na segunda-feira (8), sinaliza uma inflação de 5,11% em 2026, mais de 0,6 ponto percentual acima da meta.
O que é o El Niño e como o fenômeno prejudica o agro
O El Niño é um aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial que altera a circulação atmosférica e muda padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta.
A expectativa é de que o próximo evento seja mais grave do que o de 1997/98, um dos mais intensos em 150 anos de medições, que atingiu o pico de 2,8° no aumento da temperatura das águas.
Seus efeitos são marcados por uma assimetria meteorológica: enquanto a região Sul enfrenta chuvas torrenciais e inundações, o Norte e o Nordeste sofrem secas severas. Já o Centro-Oeste, coração produtor do país, lida com irregularidade hídrica.
No Sul, o excesso de chuva dificulta o manejo, favorece doenças fúngicas e prejudica a qualidade dos grãos. No Mato Grosso e no Matopiba (região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), a ameaça é o atraso das chuvas e veranicos severos — períodos prolongados de seca durante a estação chuvosa — no início do ciclo.
No Sudeste e no Centro-Oeste, os impactos são mais irregulares: calor mais frequente, pancadas mal distribuídas e mudanças no comportamento das frentes frias.
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El Niño ocorre em momento de grande vulnerabilidade para o agro
A sustentabilidade econômica do produtor tem sido comprimida por custos de produção elevados combinados à queda na rentabilidade, gerando um recorde de endividamento. As commodities agropecuárias tiveram uma queda real média de 10,9% em 12 meses até maio, segundo o Banco Central.
Para a Genial Investimentos, insumos essenciais (fertilizantes, transporte de cargas e bandeiras tarifárias de energia) têm pressionado fortemente o custo das operações no campo.
Mas o problema não está só no preço dos insumos. “O produtor sente o impacto antes mesmo de plantar. São mais sacas para garantir o mesmo conjunto de insumos e tecnologias”, diz comunicado oficial da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Outra pressão vem da taxa Selic, que encareceu o crédito para os produtores rurais. As projeções do mercado indicam menos cortes na taxa de juros, o que deixa produtores rurais em situação crítica por mais tempo.
Para David Telio, professor do Instituto Brasileiro de Direito do Agronegócio (IBDA) e diretor de novas estruturas financeiras da TerraMagna, fintech especializada em crédito para o agronegócio, a crise financeira no agro deve se agravar.
Riscos para a próxima safra
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que há risco elevado de quebra de safra em algumas regiões. As culturas mais expostas são soja, milho, trigo, algodão e, em algumas localidades, café e cana-de-açúcar.
Roberto Araújo, gerente de relações institucionais e de sustentabilidade da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), aponta que, em um momento de vulnerabilidade financeira para parte dos produtores, o El Niño amplia a incerteza e os riscos de rentabilidade.
“Exige-se que a gestão profissional, o planejamento baseado em dados meteorológicos e o uso de instrumentos de proteção, como o seguro rural, atuem como amortecedores essenciais para preservar a competitividade do setor”, ressalta o especialista.
Onda de recuperações judiciais e inadimplência
Dados da Serasa Experian apontam que o agronegócio fechou 2025 com o maior volume de solicitações de recuperação judicial (RJ) desde 2021. Foram registradas 1.990 solicitações — aumento de 56,4% ante 2024.
A alta é liderada por produtores rurais pessoa física, que somaram 853 pedidos (alta de 50,7%). O Mato Grosso, maior produtor nacional, lidera com 332 registros, seguido por Goiás e Paraná.
Paralelamente, a inadimplência no campo escalou para 8,2% da população no último trimestre de 2025 — aumento de um ponto percentual ante o ano anterior, segundo a consultoria. “Instituições financeiras, diante da incerteza, priorizam agora análises mais robustas e maiores garantias, reduzindo o apetite ao risco”, diz Marcelo Pimenta, diretor de agronegócio da Serasa Experian.
Risco geopolítico: desabastecimento de fertilizantes
Além do El Niño, o cenário geopolítico adiciona outra camada de exposição. O professor do Insper lembra que o desabastecimento de fertilizantes, devido ao prolongado período de fechamento do Estreito de Ormuz e aos conflitos no Irã, representa uma ameaça concreta para os próximos ciclos de plantio.
Levantamento realizado pela CNA apontou que o volume de importações físicas de fosfatados e nitrogenados caiu 4% no comparativo entre os primeiros quadrimestres de 2025 e 2026. O valor gasto com as importações aumentou 16%. “Esse movimento exige mais capital de giro e aumenta a exposição do produtor ao câmbio, à logística internacional e à geopolítica”, ressalta a entidade.
Consequências da crise não ficam restritas ao agro
Os efeitos no campo devem afetar diretamente o custo de vida nas cidades e a condução da política econômica do país. O impacto mais imediato tende a ser nos preços dos alimentos. O mercado financeiro projeta que o fator climático pode adicionar até 0,8 ponto percentual ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026, que já está sob pressão.
O setor elétrico também está em alerta. A seca severa projetada para o Norte e o Nordeste pode reduzir drasticamente os reservatórios das hidrelétricas, aumentando a dependência de usinas térmicas, bem mais caras.
Para fontes ouvidas pela reportagem, esse choque de custos em alimentos e energia cria um cenário em que os riscos de alta da inflação superam os de queda, forçando o Banco Central a manter os juros altos por mais tempo.
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Autor: Gazeta do Povo








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