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Mulheres sofrem pressão para fazer sexo no resguardo – 20/06/2026 – Equilíbrio

Vídeos em que o cantor Nattan fala sobre o puerpério da esposa, a apresentadora Rafa Kalimann, têm circulado nas redes sociais e gerado críticas. Numa entrevista em fevereiro, ele disse: “Na hora que a fábrica abrir, eu não vou perder tempo. Se ela quiser se esquivar, eu: não, vem para cá, e vai vir”.

O puerpério, ou resguardo, é a fase na qual a mulher passa por mudanças físicas e emocionais e deve evitar relações sexuais para que o corpo se recupere após o parto. Depois que as declarações do cantor vieram à tona, várias mulheres compartilharam relatos da pressão que sofreram de parceiros para voltar a fazer sexo nesse período.

Uma delas foi a trabalhadora autônoma Sara Ferreira, 28, mãe de dois filhos. Seu segundo parto, feito com fórceps, ocorreu em 2017, quando ela tinha 19 anos. Ela ainda estava com pontos na região vaginal quando o namorado pediu para quebrar o resguardo, afirmando que ele “não aguentaria tanto tempo”.

Ferreira se sentia dolorida, exausta e depressiva. “Era muito nova, com dois bebês, dando conta de tanta carga física e emocional sozinha”, diz. Ela se lembra da “dor horrível” que sentiu durante a relação e de sangramentos. “Foi um sentimento de vazio, dor, desamparo e solidão”, conta. O pai do bebê foi embora cinco meses após o nascimento do filho.

A duração do puerpério pode variar de 2 a 12 semanas. A recomendação de órgãos como a Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) é de 6 semanas, ou 42 dias. O prazo varia para cada pessoa, e pode ser que ela precise de mais tempo, afirma Sandra Cristina Poerner Scalco, ginecologista e membro da comissão nacional especializada em sexologia da Febrasgo.

A médica reforça que a decisão sobre quando retomar relações sexuais deve ser individualizada e centrada na mulher, considerando sua recuperação física, conforto e desejo sexual. “Antes do critério tempo, devemos pensar no bem-estar”, diz.

Independentemente do tipo de parto, esse período é necessário para o útero se reestabelecer e para a recuperação do assoalho pélvico, além de permitir a cicatrização de lacerações ou da incisão cirúrgica. Também há uma reorganização hormonal, explica Karina Belickas, ginecologista do Hospital e Maternidade Santa Joana.

Transar antes da conclusão desse processo expõe a mulher a riscos, afirmam as médicas. Em caso de cesárea, por exemplo, pode haver infecção dos pontos. No parto normal, episiotomias (cortes cirúrgicos no períneo) podem reabrir e causar sangramento e dor. Além disso, a penetração pode machucar ou provocar desconforto.

Scalco diz que é importante evitar o sexo nas duas primeiras semanas, quando o risco de sangramento e infecção é maior, pois o colo uterino pode estar parcialmente aberto e o endométrio sendo cicatrizado.

A amamentação ainda provoca secura vaginal e um bloqueio hormonal semelhante ao da menopausa, acrescenta Belickas. Tudo isso somado ao sono reduzido por cuidar de um recém-nascido influencia na libido.

Fora a parte física, a mulher vive um alto grau de fragilidade psíquica no pós-parto, afirma Monalisa Nascimento dos Santos Barros, psicóloga e professora de saúde da família da UFBA (Universidade Federal da Bahia). A nova mãe passa por muitas dúvidas e medos.

Uma parcela significativa das mulheres retoma a atividade sexual antes de se sentir pronta, diz a ginecologista da Febrasgo. Isso pode causar sofrimento emocional e disfunção sexual permanente, completa.

O marido da cozinheira Gisele Costa de Lima, 48, a pressionou para transar quando ela ainda estava fragilizada após perder seu primeiro bebê por negligência médica, em 1996. “Eu não relutei pois era muito nova, sem orientação nenhuma e confundi isso com afeto”, conta.

Seu segundo bebê nasceu em 1997, no dia em que ela completou a maioridade. Lima tentou resistir à quebra do resguardo, mas o cônjuge respondeu que ela devia cumprir suas “obrigações como esposa” e que “não reclamasse, senão ele procuraria outra na rua”. Como não tinha rede de apoio, ela se sentiu sozinha. “Sofri calada a cada relação.”

Barros explica que todo ato sexual em que não há consentimento é um estupro marital. “É como se essa disponibilidade para o sexo estivesse dentro do contrato matrimonial estabelecido como regra, mas não é”, diz a psicóloga. A coerção de atender ao desejo do homem sob pena de ele ir embora também é uma violência.

Chantagens do tipo são comuns. Gabriella Prado, 34, que mora com os três filhos, ainda lembra do que ouviu do parceiro: “Se eu não tenho em casa, tenho que procurar na rua”. Ela passou por uma cesárea de emergência após complicações, em 2018, e teve inflamação nos pontos. Sobrecarregada dez dias após dar à luz, cedeu por causa das ameaças.

Prado conta que sentiu muitas dores e nenhum prazer. Ao voltar à ginecologista, recebeu a orientação de seguir o resguardo por 40 dias. O cônjuge, então, a traiu. “Na minha cabeça não era abuso o que ele fazia, era só um marido querendo a mulher”, recorda. “Depois que comecei a entender o que era abuso, vi que sofri todos os tipos: financeiro, patrimonial e emocional.”

A professora da UFBA acredita que um pai envolvido na parentalidade não pressionaria a parceira para transar. Seu próprio desejo diminuiria ao estar voltado aos cuidados com o bebê. “O parceiro está tão distanciado que se sente no direito de manter o seu ritmo sexual como se nada tivesse acontecido”, comenta.

A atitude, no entanto, é comum na sociedade machista, que delega a tarefa do cuidado apenas à mulher, avalia Barros. Para ela, essa pressão é ainda uma forma de objetificar o corpo feminino. Isso pode trazer impactos psicológicos, como afetar a autoestima, a capacidade de confiar e de se entregar a outras pessoas.

Por outro lado, também há mulheres que sentem desejo no puerpério e podem voltar a ter relações. As ginecologistas reforçam que a penetração não é a única forma de prazer. Aconchego, carícias e outros estímulos são possíveis e podem satisfazer a ambos.

Quando decidir voltar a fazer sexo, a mulher deve ficar atenta a alguns sinais, observam as médicas. Entre eles, dor na penetração, secreção com odor, sangramento ou febre. Ausência de desejo, ansiedade antecipatória e evitação sexual também são alertas importantes. Nesses casos, é indicado procurar ajuda médica.

Autor: Folha

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