O primeiro-ministro que substituirá o atual premiê britânico, Keir Starmer, que anunciou nesta segunda-feira (22) sua renúncia ao cargo, será o sétimo do país em dez anos, o que motiva a pergunta: o Reino Unido se tornou ingovernável?
Starmer anunciou um processo interno de votação no Partido Trabalhista para escolher seu sucessor como líder da legenda e, consequentemente, como premiê britânico, para que o escolhido seja empossado até a volta do recesso parlamentar, em setembro. Porém, a direita nacionalista pede a convocação de eleições gerais antecipadas no país – o próximo pleito nacional está previsto para 2029.
A pressão para a renúncia de Starmer vinha aumentando desde o início do ano, quando ele admitiu que tinha conhecimento das ligações do ex-embaixador britânico nos Estados Unidos Peter Mandelson com o falecido financista americano Jeffrey Epstein – que comandava um esquema de tráfico sexual de menores – quando o indicou para o cargo diplomático em Washington, mas o premiê alegou que o aliado “mentiu” sobre a “extensão” desse relacionamento.
A estagnação econômica do Reino Unido e tensões migratórias também pressionavam Starmer, e a gota d’água veio nas eleições locais britânicas realizadas em maio, quando o partido de direita nacionalista Reforma Reino Unido impôs uma forte derrota aos trabalhistas. Vários integrantes da sua gestão haviam renunciado nas últimas semanas.
O Reino Unido, acostumado com governos longevos – a conservadora Margaret Thatcher ficou 11 anos no cargo de premiê, entre 1979 e 1990, enquanto o trabalhista Tony Blair permaneceu em Downing Street durante dez anos, entre 1997 e 2007 –, se tornou nos últimos anos um dos países mais instáveis politicamente da Europa.
O conservador David Cameron, que estava no cargo desde 2010, renunciou em 2016 após o plebiscito em que a população britânica aprovou a retirada do país da União Europeia, saída apelidada de Brexit.
Sua sucessora, Theresa May, deixou Downing Street em 2019, após não conseguir aprovar um acordo com os termos para a saída da UE.
Boris Johnson, também do Partido Conservador, conseguiu aprovar o acordo para deixar o bloco, implementado em 2020, mas foi outro que durou apenas três anos no cargo, ao renunciar devido ao Partygate, como foi chamado o escândalo de integrantes do governo britânico que participavam de festas enquanto a população do Reino Unido enfrentava as restrições da pandemia de Covid-19.
Liz Truss foi premiê por apenas 50 dias em 2022, desgastada pela rejeição à sua proposta de pacote econômico, e Rishi Sunak ficou até 2024, quando os conservadores foram derrotados pelos trabalhistas nas eleições gerais.
“Governar o Reino Unido é mais desafiador do que há uma década”, diz especialista
Em artigo recente para o Institute for Government, Hannah White, diretora e CEO do think tank britânico, afirmou que o Reino Unido não se tornou “ingovernável”, mas que o país enfrenta desafios que os líderes locais não conseguiram resolver nos últimos anos.
“Embora o Brexit tenha sido uma decisão impactante e exclusiva do Reino Unido, outras grandes crises recentes tiveram impacto global, causando desafios semelhantes aos governos em todo o mundo. Mas, em muitos casos, por uma série de razões, seus efeitos sobre o Reino Unido foram mais severos”, escreveu White, que citou “a considerável turbulência política e o enorme esforço administrativo resultantes da decisão de deixar a UE; o choque econômico e social da pandemia; e as consequências para a energia e o comércio da escalada das tensões geopolíticas e das guerras”.
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Em entrevista à Gazeta do Povo, Eduardo Galvão, professor de políticas públicas do Ibmec Brasília, concordou com a avaliação de que o Reino Unido não se tornou ingovernável, já que “as instituições britânicas continuam funcionando, as regras são respeitadas e a transição ocorre dentro da normalidade democrática”.
Porém, o especialista destacou que “eleitores mais voláteis, ciclos de informação mais acelerados, polarização e expectativas crescentes encurtaram o horizonte político dos governos”.
“O que está em jogo é a capacidade do Reino Unido de recuperar previsibilidade política e preservar sua influência internacional em um cenário global cada vez mais complexo. O país continua governável. Governá-lo, porém, tornou-se uma tarefa muito mais desafiadora do que era há uma década”, afirmou Galvão.
A respeito da reivindicação do Reforma Reino Unido de que sejam convocadas eleições gerais antecipadas, o especialista disse que esse cenário é pouco provável, já que os trabalhistas mantêm maioria parlamentar. Mas ele ponderou que o simples fato dessa possibilidade “entrar no debate já revela uma mudança importante na política britânica”.
“Nos últimos anos, governos com maioria confortável descobriram que a governabilidade depende de algo mais difícil de construir do que votos no Parlamento: legitimidade política sustentada ao longo do tempo. O desafio do próximo premiê será justamente reconstruir essa conexão em um ambiente marcado por maior fragmentação eleitoral e menor fidelidade partidária”, projetou Galvão.
Outro entrevistado pela Gazeta do Povo, o economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena, disse que a derrota nas eleições regionais em maio, “inclusive em regiões onde o Partido Trabalhista era tradicionalmente muito forte”, escancara “o enfraquecimento significativo da liderança de Keir Starmer e da capacidade do partido de manter sua base eleitoral”.
Nesse sentido, a legenda governista não deve convocar eleições gerais neste momento por entender que “poderiam abrir caminho para uma vitória direta do Reforma Reino Unido”.
“Não acredito que o Reino Unido tenha se tornado ingovernável. No entanto, tanto conservadores quanto trabalhistas não conseguiram fazer com que o Reino Unido pós-Brexit funcionasse de forma satisfatória. O país se tornou mais pobre, mais burocrático e mais complexo. A questão migratória, que foi um dos principais argumentos para a saída da União Europeia, acabou se tornando ainda mais problemática do que muitos imaginavam”, disse Lucena.
“Vejo essa dificuldade de governança como um reflexo da falta de sinceridade política de ambos os grandes partidos em reconhecer que o Brexit não produziu os resultados prometidos. A saída da União Europeia abriu divisões profundas na sociedade britânica, e o establishment político parece relutante em retomar esse debate”, afirmou o analista.
Autor: Gazeta do Povo








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