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Vinicius Junior é futebol como música na cara dos racistas – 30/06/2026 – Márcio Macedo

Sim, de virada é mais gostoso. Mas também é mais sofrido. A vitória da seleção brasileira nesta segunda-feira (29) contra o Japão pode ser descrita como uma vitória no melhor estilo corintiano: sofrida e na raça.

O Japão saiu na frente com um gol que nasceu de um erro de nosso meio-campo. Por outro lado, a seleção demonstrou maturidade ao reagir ao gol sofrido e buscou o empate, que veio numa cabeçada de Casemiro. Gabriel Martinelli foi o responsável por fazer o gol que deu a vitória ao Brasil aos 50 minutos do segundo tempo, nos livrando por pouco de uma prorrogação. Mas a bola do jogo, que todo mundo esperava que entrasse, foi a da jogada individual de Vinicius Junior, que foi defendida pelo goleiro japonês, Zion Suzuki. Seria um golaço.

Vinicius Junior é o cara. Joga bem, de forma alegre, e chama o time e a torcida para a partida. Em minha opinião, o atacante do Real Madrid é a melhor inspiração para o time brasileiro.

A escritora afro-americana Toni Morrison escreveu em seu livro de ensaios “A Fonte da Autoestima” que o racismo é uma forma de distração que impede as pessoas negras de fazerem as coisas que realmente importam. O pensamento de Morrison, autora que ganhou o Nobel de Literatura em 1993, me veio à mente ao lembrar das situações de racismo que Vinicius Junior tem vivido em sua carreira como jogador na Espanha.

Em uma partida do Real Madrid contra o Valência no estádio de Mestalla, em 2023, o atacante negro foi chamado de “macaco” (mono) por grande parte do estádio. O jogo chegou a ser paralisado e, após confusão nos acréscimos, Vinicius Junior foi expulso injustamente.

Ainda em 2023, um boneco vestido com sua camisa e simulando um enforcamento foi exibido em uma partida contra o Atlético de Madri com uma faixa que levava a frase “Madrid odeia o Real”.

Em oito anos de atuação pelo Real Madrid, o jogador brasileiro já denunciou 20 casos de racismo ocorridos contra ele. Esse é o tipo de violência que jogadores e técnicos negros vivenciam de forma sistêmica no futebol desde que o mundo é mundo.

Para conferir, basta ler o clássico escrito pelo jornalista Mário Filho em 1947, “O Negro no Futebol Brasileiro”. A obra descreve o processo de popularização e inserção de jogadores negros no futebol em uma época em que tinham que usar pó de arroz para clarear o rosto e poder participar de um esporte de elite nas primeiras décadas do século20.

É por isso que considero Vinicius Junior o cara. Se considerarmos a sugestão da escritora Toni Morrison, de que o racismo é uma espécie de distração ou barulho que, através de vários tipos de violência (física, psicológica e simbólica), impede que a população negra obtenha a excelência no que faz, a resposta de Vinicius Junior às ofensas racistas que sofreu é a alegria com que joga futebol.

Uma alegria que lembra música, amor e celebração coletiva, que ocorreram nos bares, lares e reuniões de amigos que se reuniram nesta segunda-feira para ver a vitória do Brasil contra os samurais do futebol.

Toni Morrison, que morreu em 2019, ficaria feliz em saber que Vinicius Junior consegue transformar futebol em música, pois sua principal lição estética é que toda arte negra deveria buscar a excelência da música negra. Vinicius Junior faz futebol como música na cara dos racistas. Eis nossa excelência negra e brasileira. É “Cosa Nostra”.


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Autor: Folha

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