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IA vai inundar o serviço público como um tsunami – 16/08/2026 – Ronaldo Lemos

O uso da inteligência artificial vai afogar o serviço público com a força de um tsunami. Isso já é visível hoje em vários países. Como a IA facilitou redigir petições e recursos administrativos, órgãos públicos estão ficando assoberbados com a quantidade de demandas que recebem.

Na Inglaterra, as escolas relatam aumento de reclamações de pais redigidas por IA. Pedidos de acesso à informação subiram 60% de 2022 a 2025. No órgão que supervisiona a polícia, ao menos um quarto dos pedidos de revisão judicial já é feito com IA.

Nos EUA, o Judiciário já está sendo tomado pela inteligência artificial. Casos civis feitos sem advogado subiram de 11% para 17%. Petições que antes chegavam com duas páginas agora chegam a ter 600, feitas por IA. Um juiz classificou o fenômeno como “ameaça existencial” aos tribunais.

Na Alemanha, o Judiciário do estado mais populoso relata aumento de 55% nos processos de urgência, em parte com petições feitas com IA. A tendência é nacional. Em alguns órgãos administrativos, há expectativa de fechar 2026 com volume de recursos até 50% acima de 2022.

Muitas dessas demandas citam leis erradas, precedentes que não existem, teorias legais inventadas. Gerar uma petição ou um recurso administrativo ficou muito barato. Só que analisar tudo continua caro e dependente de humanos. Em suma, a IA não só entope o setor público, mas transfere a ele um custo enorme.

Diante disso, o que fazer? O primeiro ponto é que há um aspecto positivo. Pessoas que nunca tiveram acesso ao serviço público agora passam a tê-lo usando IA. Parte desse fenômeno consiste na ampliação do acesso à Justiça e à administração pública, o que é positivo.

No entanto, o serviço público está despreparado para o tsunami. O diagnóstico do despreparo pode ser lido no estudo de integrantes do Banco Mundial publicado em julho de 2026, co-liderado pelo brasileiro Tiago Peixoto, chamado Radar (sigla para Readiness for AI Discovery and Agentic Reach), do qual sou um dos contribuidores.

O estudo analisou 166 países medindo os dois lados da moeda: se uma IA consegue informar corretamente o cidadão sobre um serviço público e se um agente de IA consegue chegar ao serviço e navegá-lo para resolver a questão.

Cada vez mais gente terá o primeiro contato com o serviço público por meio de uma IA. Em vez de acessar sites governamentais para renovar sua carteira de motorista, o cidadão pedirá ajuda para a IA.

O estudo constata que as plataformas de IA analisadas são bastante capazes na descrição dos serviços públicos nos 166 países. O problema vem a seguir: quando o usuário usa a IA para tentar resolver sua questão, o setor público está despreparado para atender.

A consequência é clara. O serviço público precisará se transformar por causa da IA ou será afogado por ela. E, em breve, correremos o risco de estarmos usando IA de um lado como cidadãos e, do outro, uma IA (talvez a mesma) estará processando nossas demandas no Judiciário e no serviço público.

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Autor: Folha

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