A volta da magreza extrema como padrão estético, que teve seu auge nos anos 1990 com a modelo britânica Kate Moss, não afeta apenas meninas jovens, mas também mulheres mais velhas. Celebridades como as atrizes Olivia Wilde, 42, Nicole Kidman, 59, e Demi Moore, 63, têm aparecido com corpos cada vez menores nos tapetes vermelhos.
O problema é que correr atrás de um corpo esquálido a partir dos 40 anos aumenta ainda mais o risco de problemas que tendem a aparecer com o envelhecimento, como perda de massa magra e força muscular, desnutrição e osteoporose, especialmente quando a dieta é inadequada.
No Brasil, as mulheres com idade média de 47 anos são justamente as maiores consumidoras de canetas emagrecedoras, segundo levantamento feito neste ano pela Folha a partir dos dados do SNGPC (Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados).
E são muitos os fatores que contribuem para que esse público recorra a remédios para emagrecer sem indicação médica ou à autoprivação de alimentos na busca por um corpo mais magro. Segundo Fábio Salzano, psiquiatra e vice-coordenador do Programa de Transtornos Alimentares do IPq (Instituto de Psiquiatria da USP), trata-se de um período de vulnerabilidade, com mudanças físicas e sociais.
Com a chegada da menopausa, é normal que gordurinhas a mais comecem a se depositar na barriga e que o rosto revele a queda de colágeno e o surgimento de rugas. Some a esta nova imagem à pressão estética de sempre, só que turbinada na era da magreza extrema 2.0, para entender o nó que esse período pode dar na cabeça da mulher.
O Brasil é o país com o maior número absoluto de procedimentos estéticos faciais do mundo (910.879 em 2024), segundo o relatório mais recente da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. Os EUA aparecem em segundo lugar (563.426) e o México em terceiro (292.478). Somos também o país que mais faz procedimentos estéticos cirúrgicos (2.354.513 em 2024) e campeões mundiais em cirurgias nas pálpebras.
“É impossível manter o mesmo corpo, a mesma pele e o mesmo cabelo que você tinha aos 20, 30 anos. E é uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso”, afirma Karen de Marca, endocrinologista e presidente eleita da SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia). “É como se um corpo muito magro estivesse associado à felicidade e ao sucesso. Essa exigência que recai sobre as mulheres aumenta o estresse psíquico e traz danos sérios.”
É impossível manter o mesmo corpo, a mesma pele e o mesmo cabelo que você tinha aos 20, 30 anos. E é uma loucura o que as mulheres acabam fazendo para tentar obter isso
Salzano toca no mesmo ponto. “Há uma questão cultural que faz com que as pessoas pensem que se elas parecerem mais novas e mais magras, contarão mais pontos. E, infelizmente, quando perdem muito peso, em vez de receberem preocupação, elas são recompensadas com elogios. ‘Que ótimo, você tem 60 anos com o corpo de uma adolescente’. Mas será que esse deveria ser o foco nessa idade? Por que se submeter a isso e aumentar seu risco de desenvolver um transtorno alimentar?”
De acordo com um artigo publicado no International Journal of Eating Disorders em 2025, as mudanças associadas à menopausa fazem com que essa fase da vida possa ser tão significativa para o desenvolvimento de transtornos alimentares em mulheres quanto a puberdade é na adolescência.
Histórico familiar de doenças psiquiátricas, inatividade social, a já citada mudança corporal (e a alteração na autoimagem) e a exposição a dietas muito restritivas (com ou sem uso de medicamentos) aumentam esse risco entre as pessoas mais velhas, segundo Salzano. “Não é todo mundo que faz dieta que desenvolve um transtorno alimentar, mas por que se submeter a esse risco? É uma roleta-russa.”
Os especialistas ouvidos afirmam que pessoas com mais de 40 ou 50 anos que buscam a magreza extrema, com restrição de calorias, nutrientes e minerais como o cálcio, têm maior chance de perder tecido ósseo e desenvolver osteoporose mais rapidamente, de sofrer fraturas e de terem arritmias e outras doenças cardiovasculares.
Além disso, uma dieta pobre e muito restritiva pode deixar cabelos e unhas mais quebradiços e a pele com aspecto mais envelhecido. Na prática clínica, usuárias de canetas emagrecedoras relatam fraqueza, desânimo e baixa energia, que podem ser sinal de desnutrição e do impacto que ela causa com a falta dos substratos necessários para a formação óssea muscular.
A endocrinologista lembra ainda que o músculo é reconhecido hoje como um órgão regulador do metabolismo, e não apenas fonte de força ou definição corporal. “É dentro do músculo que você melhora a sensibilidade à insulina. Ele tem receptores para o GLP-1, um dos fatores que ajuda na melhora metabólica que acontece com as canetas emagrecedoras. Mas, se você perde muita massa muscular no processo, perde também esse benefício.”
Um estudo publicado no Scientific Reports, da Nature, em 2023, com mais de 18 mil adultos acompanhados por quase sete anos, mostrou um efeito protetor da gordura. Em mulheres mais velhas, a mortalidade por todas as causas foi mais alta entre aquelas com o IMC mais baixo.
Para De Marca, o caminho não é contraindicar o emagrecimento para essa faixa etária, mas reconhecer que ele precisa ser conduzido de forma diferente e sem radicalismo. O ideal, diz ela, é associar qualquer estratégia de perda de peso a treino de força e aporte adequado de proteína, cálcio e vitaminas com acompanhamento médico.
Autor: Folha








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