Chegou por DM no Instagram o pedido de ajuda. Um leitor estava com um “enrosco no bolso”, tinha vontade de conhecer melhor os vinhos da Borgonha, mas, para surpresa de ninguém, faltava grana. Ele perguntava: há um caminho confiável e não tão caro assim para começar a se aproximar desse universo próprio? Após visitar produtores de uma das regiões mais míticas da França e do planeta por uma semana, tenho pistas de como responder à questão.
A começar, um pouco de contexto. A Borgonha é desejada pelo mundo inteiro e nunca sobrou muita atenção para o Brasil. No entanto, desde que o presidente americano Donald Trump passou a ameaçar o vinho francês com taxas de até 200%, o mercado brasileiro passou a cintilar. Os números explicam o novo interesse: as exportações de vinhos da Borgonha para cá já subiram 31% em volume e 36% em valores no ano passado. Embora tenhamos a fatia de apenas 1% dos vinhos exportados para todo o mundo, somos o principal mercado da América do Sul. Ou seja: eles estão de olho na gente e produtores antes inéditos devem desembarcar por aqui.
Os vinhos da Borgonha são hierarquizados pela origem das uvas que os compõem: na base da pirâmide estão os chamados regionais, que trazem o nome Borgonha no rótulo e usam cepas de toda a região; subindo um degrau, há os village, que trazem o nome da AOC e uvas da denominação apenas; depois os premier cru e, no topo, os grand cru. Nessas duas categorias, há uvas produzidas apenas no cru/climat que estampa o rótulo, os melhores da região.
Mas, claro, como dá para complicar um pouco, há também os vinhos do patamar dos village que trazem nomes dos climats, como são chamadas as parcelas mais especiais. E isso pode indicar que eles trazem algo a mais de especial, uma característica única do lugar —o que é a chave da Borgonha, a singularidade de cada pequeníssimo pedaço de terra. E aqui está a primeira pista de como beber Borgonha e não falir, um vinho village com alguma especificidade.
Outra dica: saia da rota. Saia das AOCs mais badaladas, procure as menos conhecidas. Vá ao sul, ao Mâconnais, onde há mais sol e os vinhos são generosos. Saint-Véran, Pouilly-Fuissé, Mâcon-Villages e Viré-Clessé são bons nomes.
“Na Borgonha, o vinho é a fuça do ano e do produtor”, me disse Jean Jacques Feral, enólogo-chefe do Domaine Montbarbon. Pesquisar sobre o estilo do domaine é fundamental. Um bom produtor faz um regional mais interessante do que um village. O comportamento climático da safra também ensina sobre como escolher. O que acontece ao longo do ano, na Borgonha, tem impacto direto ao que vai ser apresentado na taça: anos mais quentes podem fazer vinhos mais ricos, opulentos; anos mais frios, vinhos mais contidos, com acidez mais alta.
Por fim, embora a Borgonha seja a terra da chardonnay e da pinot noir, há outras castas que oferecem excelente experiência. Em Saint-Bris, pertinho de Chablis, é permitida a sauvignon blanc, com uma expressão única e muito elegante: é salina e cremosa na boca. Os vinhos de Clotilde Davenne (na De La Croix), provam o que estou falando. Em Irancy, encontramos a casta ancestral césar, que também pode vir misturada à pinot noir. E, ao sul, em bouzeron, há maravilhas sendo feitas com a aligoté, como prova o Domaine Paméla et Aubert de Villaine (na Mistral).
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Autor: Folha




















