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Pró-natalismo é esquema de pirâmide, diz filósofo – 12/07/2026 – Mundo

“Eu quero mais bebês nos Estados Unidos”, disse J. D. Vance em seu primeiro discurso como vice-presidente do país, em 2025. No início deste ano, Donald Trump lançou um site de descontos em medicamentos que oferece hormônios para fertilização in vitro a preços reduzidos.

Os líderes americanos não são os únicos a investir numa agenda pró-natalista. Xi Jinping pressiona para que mulheres tenham mais filhos na China, assim como Giorgia Meloni, na Itália, Marine Le Pen, na França, e representantes de partidos conservadores na Alemanha.

Mas, do ponto de vista filosófico, há quem desafie a noção de que o caminho natural –e correto– é procriar. É o caso do sul-africano David Benatar, o maior expoente do antinatalismo, a corrente de pensamento contrária à de Vance, Trump, Xi e Meloni.

Em entrevista por videoconferência à Folha, Benatar questiona a ideia de que a humanidade deve ceder ao imperativo da reprodução. “O simples fato de sermos programados evolutivamente de certa maneira não significa que isso seja moralmente aceitável”, diz.

Benatar pediu que a entrevista fosse feita apenas por áudio, como costuma fazer em conversas com a imprensa. Ele diz ter aversão a fotografias, não divulga imagens próprias e todas as fotos associadas a seu nome na internet retratam outras pessoas.

Professor emérito de filosofia na Universidade da Cidade do Cabo, Benatar escreveu livros sobre a questão, incluindo “Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence” (“Melhor Nunca Ter Existido: o Mal de Vir à Existência”, em tradução livre), de 2006, “The Second Sexism: Discrimination Against Men and Boys” (“O Segundo Sexismo: Discriminação Contra Homens e Meninos”), de 2012, e “Debating Procreation: Is It Wrong to Reproduce?” (“Debatendo a Procriação: É Errado Reproduzir?”), de 2015.

Benatar fundamenta seu pensamento na ideia de uma “assimetria axiológica”, ou seja, uma assimetria de valores. Segundo ele, quando uma pessoa deixa de experimentar um prazer, essa ausência é ruim porque representa uma privação. Já quando o prazer não existe porque quem poderia senti-lo jamais nasceu, não há ninguém sendo privado dele. Sob essa lógica, deixar de dar a vida a alguém não significaria privá-lo do prazer. Em contrapartida, trazer uma pessoa ao mundo seria, inevitavelmente, expô-la ao sofrimento.

Isso porque, segundo o filósofo, o sofrimento é inerente à condição humana. Mas, para ele, não se restringe à nossa espécie. “Pense nos animais criados em sistemas de confinamento industrial, por exemplo. Eles sofrem de forma praticamente ininterrupta do início ao fim da vida.”

Ao desenvolver sua reflexão sobre a misantropia, a aversão à humanidade, Benatar afirma ainda que a recusa em ter filhos não apenas evita o sofrimento daqueles que deixariam de nascer, mas também impede que eles venham a causar sofrimento a outras pessoas.

Como o sr. define antinatalismo?

Há diferentes formas de entendê-lo, mas o entendimento típico seria a visão de que é errado trazer novos seres sencientes à existência.

Quando o senhor diz seres sencientes, inclui animais além dos seres humanos, certo?

Isso está correto, sim. Qualquer outro ser senciente.

Onde o sr. acredita que esteja a imoralidade em trazer seres sencientes à existência?

De forma simplificada, ao trazer um ser senciente à existência, você está criando um ser vulnerável a todos os danos que possam atingi-lo. Como não há nenhuma desvantagem no caso alternativo, ou seja, quando você não traz o ser à existência, há aqui uma desvantagem em criar esse ser.

Por isso eu diria que é errado. E é um dano bastante sério também. Não estamos falando de trivialidades. Qualquer um que venha à existência vai sofrer danos bastante severos, sendo a morte um dos principais.

O sr. poderia listar alguns outros desses danos?

Isso vai variar dependendo de que tipo de ser estamos falando, mas dor, sofrimento, ansiedade, estresse e todo o tipo de estado mental negativo e condições físicas que rotineiramente afetam os seres existentes.

Pense nos animais de criação intensiva, por exemplo: eles têm sofrimento praticamente ininterrupto do começo ao fim de suas vidas. Isso também é verdade para muitos humanos, que têm muitas adversidades e experiências infelizes. E, claro, todo mundo morre.

O sr. acredita que o sofrimento é inerente à existência humana. Tenho curiosidade de saber se o sr. acha que esse sofrimento é de alguma forma agravado pelas crises atuais, incluindo o colapso ambiental ou as instabilidades políticas e econômicas.

Acho que o sofrimento está profundamente enraizado na estrutura da vida senciente, portanto, é inevitável para os seres sencientes. Eu acho que as coisas podem ser piores ou melhores dependendo das circunstâncias.

Os humanos hoje podem viver muito mais tempo do que antes, e muitos têm acesso à medicina moderna e aos anestésicos. São coisas que nossos ancestrais não tinham. Então, de algumas formas, as coisas melhoraram, mas não em todos os sentidos.

O sr. se posiciona como antinatalista, mas não pró-morte. O sr. não endossa o suicídio, por exemplo.

Eu acho que há circunstâncias em que o suicídio pode ser a opção menos ruim para alguém, mas, como regra geral, eu considero a morte algo ruim também. Na verdade, é uma das coisas que explicam por que vir à existência é ruim, já que deixaremos de existir em algum momento.

Então, eu acho que morrer é sempre ruim, mas isso não significa que a morte seja sempre a pior coisa que pode acontecer. Às vezes, pode haver destinos piores.

Há bastante debate em torno da ideia do suicídio assistido, e especialmente sobre o procedimento se tornar lei e política em alguns países. O que o sr. pensa sobre isso?

Eu sou a favor, em princípio, desse tipo de medida, por quão ruim a vida pode se tornar. Quer dizer, as pessoas podem estar sofrendo condições absolutamente terríveis. Podem ter câncer ósseo que as consome de dor, e a única forma de evitar isso seria colocá-las em estados profundos de inconsciência, o que é subjetivamente equivalente à morte.

Eu acho que pessoas que não tiveram escolha sobre serem trazidas à existência deveriam, sob certas circunstâncias, ter a opção de encerrá-la se ela se tornar verdadeiramente insuportável.

Mas, ao mesmo tempo, claro, precisamos ter salvaguardas, porque eu acho que muitas das pessoas que de fato põem fim à própria vida —não no contexto da morte assistida, mas as pessoas que tiram a própria vida pelos métodos tradicionais— não estão de fato tomando uma decisão inteiramente racional.

Se alguém decide tirar a própria vida, isso seria uma assimetria, já que essa pessoa estaria causando dor à sua comunidade?

Isso é algo que as pessoas precisam levar em conta: qual é o impacto do próprio suicídio sobre os outros. Então, essa é certamente uma consideração relevante, e eu acho que pode haver suicídios egoístas.

Vamos imaginar que alguém fez coisas terríveis a outras pessoas e está enfrentando um julgamento, e agora quer pôr fim à própria vida, privando assim suas vítimas de um certo tipo de encerramento. Talvez isso seja errado porque você cuidou mais dos seus próprios interesses do que dos interesses de outras pessoas.

Mas, em casos em que a assistência médica é fornecida para a morte, a qualidade de vida se tornou tão ruim que, na verdade, parece egoísta exigir que as pessoas permaneçam vivas naquela condição. Então precisamos considerar tanto os interesses da pessoa que quer morrer quanto os daquelas que serão afetadas. Mas isso não significa que os interesses ou as opiniões das outras pessoas sempre prevaleçam.

O que o sr. acha sobre os movimentos pró-natalistas que tratam as taxas de fertilidade como uma questão de Estado?

É uma espécie de esquema de pirâmide. Então, o que você faz é continuamente ter de criar novas pessoas para prover as pessoas existentes, mas você sabe muito bem que essas novas pessoas que você cria vão então precisar de novas pessoas criadas para elas.

O esquema pode continuar por um tempo, mas, em algum momento, ele vai quebrar e, então, você vai ter muitíssimo sofrimento. Então, minha visão é que o sofrimento da última geração é inevitável. E vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Quanto mais cedo acontecer, mais sofrimento será evitado.

Não sou a favor de assassinar pessoas, não acredito em exterminar a espécie humana. Se a extinção viesse a ocorrer com uma redução gradual da fertilidade, seria triste para os humanos que vivessem até a última geração, e na última geração também.

Mas, primeiro, é inevitável que algumas pessoas sofram isso. E, segundo, não é claro que quaisquer benefícios que cheguem às pessoas existentes justifiquem o dano causado às gerações futuras.

Ao mesmo tempo, temos a percepção de que a reprodução é central para diferentes sociedades, e alguns até a veem como uma espécie de imperativo biológico. Há um valor social atribuído à reprodução?

Definitivamente há um valor social atribuído a isso, e acho que isso costuma ter base biológica. Eu não nego nada disso, mas é um tipo de programação evolutiva que temos. E o simples fato de sermos programados evolutivamente de certa maneira não significa que isso seja moralmente aceitável.

Se você pensar no estupro no mundo natural, isso pode ser um fenômeno natural que ocorre, pode até haver um elemento de programação evolutiva nisso, mas não significa que seja moralmente permissível.

O mesmo vale para outros tipos de agressão. Se a agressão é um produto biológico, isso não significa que seja algo a que simplesmente possamos nos entregar. Então, nós somos capazes de refletir sobre esses impulsos e instintos biológicos, e eu acho que devemos fazê-lo.

Movimentos pró-natalistas costumam ser antiaborto. O sr. acredita que deveria haver alguma restrição ao aborto, no mesmo sentido em que o sr. acredita que deve haver para o suicídio assistido?

Não acho que o antinatalismo, por si só, implique qualquer posição sobre o aborto. Você pode combinar essa visão com uma que diz que, digamos, na concepção, um ser já está em existência, certo?

Eu não acho que haja nada de errado com o aborto nas fases iniciais da gestação. A partir do momento em que que o feto se torne senciente, então eu acho que os interesses dele precisam ser levados em consideração.

Isso não significa segregar ou anular os interesses da mulher, mas vamos imaginar que ela quisesse escolher um método de aborto que infligisse dor a um feto em estágio muito avançado. Bem, eu não acho que exista uma escolha livre aqui, porque agora você está causando dano a outro ser senciente.

Mas a grande maioria dos abortos ocorre no primeiro trimestre, que é bem antes de qualquer senciência se desenvolver. As mulheres deveriam ter o direito legal de abortar, mas isso não significa que, até o momento do nascimento, elas possam moralmente fazer o que quiserem com o feto.


RAIO-X | David Benatar, 59

Professor emérito da Universidade da Cidade do Cabo, é o maior expoente da corrente filosófica do antinatalismo. Ele prega o fim da reprodução como a escolha mais moral. Escreveu “Better Never to Have Been: The Harm of Coming into Existence” (“Melhor Nunca Ter Existido: o Mal de Vir à Existência”, em tradução livre), em 2006.

Autor: Folha

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