Próximo ao bar Moocaires, na zona leste de São Paulo, torcedores da seleção alviceleste se reuniram para acompanhar a semifinal da Copa do Mundo contra a Inglaterra. O duelo entre as equipes de Lionel Messi e Harry Kane foi exibido em um telão montado na esquina do estabelecimento, em um posto de gasolina.
Lotado, o posto foi fechado e não pode abastecer veículos na tarde desta quarta (15). O público também ocupou a via lateral, a rua Leme da Silva, onde um carro da Polícia Militar bloqueava a passagem de automóveis.
A torcida trouxe bumbos e buzinas. Ao longo do jogo, os fãs cantavam, pulavam e celebravam a seleção argentina. O áudio da transmissão não era ouvido na maior parte do espaço, somente ao lado da caixa de som, próxima ao telão.
“La Cuarta Estrella”, música que embala a equipe sul-americana neste Mundial, foi a mais entoada durante o duelo. “Quero ver a quarta estrela brilhar na camisa. Sou argentino do berço até o caixão”, diz a letra.
“Por Malvinas, pelo Diego. Pela última do Leo. Argentina, quero te ver bicampeã”, gritavam os torcedores.
Um dos torcedores que puxava as canções era Daniel Oliveira, 40. Brasileiro, o professor morou na Argentina por alguns anos, onde trabalhou, teve um relacionamento e precisou tirar toda a documentação para viver no país. Hoje, de volta ao Brasil, diz carregar um pouco dos dois lados. “Tenho sangue duplo”, afirmou à Folha.
Oliveira conta que, para os argentinos, a partida contra a Inglaterra vai muito além do futebol e carrega um significado difícil de explicar para quem está de fora. Para ele, envolve paixão, amor, política e família, fazendo do futebol o ponto máximo dessa relação. “O futebol nos dá a chance de sermos mais fortes do que eles [ingleses]”.
Segundo o professor, estar na final é o resultado de um trabalho construído com garra e energia dos jogadores e torcedores espalhados pelo mundo. “Maradona começou tudo isso, Messi continuou seu caminho e agora ele pode nos trazer a dobradinha, a taça dupla”.
No teto do posto, a bandeira argentina foi posicionada ao lado da brasileira e do Juventus, equipe tradicional da Mooca. Outra, a maior delas, homenageava o craque argentino Maradona (1960-2020) e exibia imagens do jogador sobre um fundo azul. No topo, a frase: “Gracias, Maradona”.
Uma caminhonete verde estacionada no posto de gasolina também chamou a atenção. Torcedores ocupavam a caçamba do veículo enquanto agitavam uma bandeira da Associação do Futebol Argentino (AFA). Outra bandeira da Argentina estava estendida sobre o capô.
Nos arredores do posto, ambulantes vendiam bandeiras da Argentina e chapéus em azul e branco, com preços de R$ 20 a R$ 30.
Também brasileiro, o engenheiro Henrique Sbragia, 44, foi trajado com a camisa da Alviceleste e chapéu com as cores do país. Ele assistia ao jogo no posto enrolado na bandeira argentina.
“Pelo meu filho mais novo, eu fingi que torcia [pelo Brasil] nessa Copa. Eu tinha camisa e tudo”, comentou.
Sbragia acompanha o futebol argentino desde 2002. Para ele, a seleção brasileira perdeu, ao longo dos anos, a raça e a vontade de vencer que hoje enxerga nos argentinos. Ele cita as atuações da Alviceleste nesta Copa, especialmente contra Suíça e Egito, como exemplos da entrega do time em campo.
“Toda essa vontade de ganhar o Brasil não tem faz tempo”, afirmou. “Em 1994, eu torci para o Brasil. Era criança, tinha 12 anos. Em 1998, não torci para ninguém. Já em 2002, comecei a ver a Argentina de uma forma diferente, com uma raça que o Brasil não tinha. Desde então, eu sou da Argentina.”
Nem mesmo o gol marcado por Anthony Gordon, da Inglaterra, no início do segundo tempo, foi suficiente para silenciar a torcida argentina. Os fãs da equipe de Messi embalavam a transmissão com “vamos, vamos selección”. A cada investida argentina, as músicas ganhavam mais força.
Quem também assistia à partida no posto era Roseli Panocian, 67, que foi casada com um argentino. Ela conta que torce pela Argentina, mas mantém um carinho especial pelas duas seleções. “Meu marido era argentino, mas já faleceu. Então, eu fico entre Brasil e Argentina. Como o Brasil saiu, para mim é Argentina. Ganhar essa Copa seria um orgulho porque penso nele. Ele gostava muito de futebol”, disse.
Do outro lado da rua, o Moocaires exibia regras para a entrada do público. O bar, comandado pelo argentino Cristian Galarza, une os nomes do bairro da Mooca e da capital Buenos Aires. Por lá, era permitido entrar com camisas de time —desde que fossem de equipes argentinas.
O primeiro gol argentino foi recebido com ainda mais festa no posto. Já o segundo, marcado nos acréscimos do segundo tempo, foi uma explosão de alívio e alegria: cerveja lançada para o alto, abraços apertados e beijos entre os torcedores celebraram a classificação argentina.
Após o apito final, o próprio Galarza atravessou a rua para se juntar à comemoração no posto. Nas mãos, também carregava um bumbo estampado com os rostos de jogadores da seleção argentina.
A festa continuou noite adentro e teve até sinalizadores azuis. Ao som do bumbo, os torcedores seguiram entoando músicas tradicionais da torcida argentina, entre elas “Brasil, decime qué se siente”, que ficou famosa durante a Copa do Mundo de 2014.
A canção relembra a eliminação do Brasil para a Argentina nas oitavas de final do Mundial de 1990, na Itália. A letra cita o drible de Diego Maradona que resultou no gol de Claudio Caniggia, afirma que os brasileiros “choram desde a Itália” e exalta Lionel Messi, além de colocar Maradona acima de Pelé.
Autor: Folha








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