Por oito anos, Jordan sentiu como se tivesse caído sob um feitiço poderoso. Ela tinha o que outros considerariam um relacionamento casual com um colega de trabalho, mas apesar de não conhecê-lo bem, sentia-se poderosamente atraída por ele e tinha certeza de que ele era sua alma gêmea.
“Eu pensava nele todos os dias, o tempo todo”, diz Jordan, 35, que pediu que apenas seu primeiro nome fosse usado para preservar sua privacidade. Ela pensava nele a cada letra de música. Inventava motivos para contatá-lo. Tinha fantasias elaboradas nas quais eles terminavam juntos.
A experiência de Jordan foi intensa, mas não incomum. Embora as pesquisas sejam escassas, Tom Bellamy, neurocientista da Universidade de Nottingham, na Inglaterra, estimou que até 50% das pessoas experimentam esse tipo de paixão romântica obsessiva pelo menos uma vez na vida. Isso se chama limerência.
O que a limerência é e o que não é
A limerência é um estado psicológico caracterizado por um profundo anseio por alguém, pensamentos obsessivos e intrusivos, comportamentos compulsivos e um forte desejo de reciprocidade emocional, afirma Orly Miller, psicóloga registrada em Nova Gales do Sul, Austrália.
O termo foi cunhado na década de 1970 pela psicóloga Dorothy Tennov, mas não é reconhecido no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o guia diagnóstico usado em pesquisas, formação médica e atendimento clínico.
Enquanto uma paixonite é tipicamente passageira, a limerência pode durar meses, anos ou até décadas, diz Miller. Também é mais intensa. Uma paixonite ou encantamento se torna limerência quando começa a prejudicar a capacidade de funcionamento de uma pessoa, por exemplo, impedindo-a de trabalhar, dormir ou comer.
A limerência não é o mesmo que amor. Miller disse que, embora ambos envolvam sentimentos fortes, a limerência é uma experiência psicológica voltada para dentro, baseada em fantasia e ambiguidade.
A outra pessoa “se torna um símbolo: ‘Você é a fonte da minha felicidade; você é a fonte da minha realização'”, afirma Albert Wakin, professor aposentado de psicologia da Universidade Sacred Heart, em Connecticut.
A limerência não precisa ser romântica ou sexual, diz Lynn Marshall, psicóloga que estuda limerência na Universidade de Chichester, na Inglaterra.
Lili, 46 anos, assistente social clínica em Massachusetts, diz que recentemente desenvolveu sentimentos fortes por uma amiga. Quando essa amiga não respondia suas mensagens de texto ou emails, ela caía em desespero. “Era intensamente doloroso”, ela diz. “Eu acordava de manhã, começava a pensar nisso, ia dormir à noite, continuava pensando nisso.” Ela também pediu que seu sobrenome não fosse usado para proteger sua privacidade.
A limerência envolve uma compulsão por buscar sinais indicando que a outra pessoa está interessada. Algo casual — um olhar, uma mensagem, uma interação nas redes sociais — pode ser usado para “criar essas histórias e narrativas realmente elaboradas sobre se significa rejeição ou reciprocidade”, diz Miller.
Viciado no ‘talvez’
Na limerência, uma pessoa mantém a esperança de que a outra pessoa tenha sentimentos, mas também tem dúvidas.
“A incerteza é o combustível que mantém tudo funcionando”, diz Abby Medcalf, psicóloga baseada na Califórnia.
Segundo Bellamy, a limerência se assemelha ao vício. Quando alguém percebe reciprocidade, o cérebro registra isso como uma recompensa. Se essas recompensas vêm de forma imprevisível, isso pode intensificar o impulso de continuar buscando-as.
Cientistas têm se perguntado se algumas pessoas são mais propensas a experimentar limerência do que outras. O trabalho de Marshall sugere que adultos com apego ansioso — que têm medo de abandono e frequentemente tiveram cuidadores emocionalmente instáveis na infância — têm risco acima da média.
Pessoas com limerência também são frequentemente ansiosas e podem apresentar comportamentos obsessivos e compulsivos, mas não necessariamente têm transtorno de ansiedade generalizada ou transtorno obsessivo-compulsivo, disse Medcalf.
Quebrando o feitiço
Embora a limerência tipicamente deixe as pessoas infelizes, ela não pode simplesmente ser deixada de lado, diz Miller.
Ainda assim, Bellamy observa, pode ajudar perceber e rotular as compulsões quando elas surgem, pensar: “Eu quero mandar mensagem para essa pessoa, e isso é um impulso limerente”. Ele também sugeriu focar nos defeitos da outra pessoa ou imaginar o que aconteceria se outras pessoas descobrissem a paixão.
A abordagem mais eficaz, ele disse, seria cortar o contato com a outra pessoa. Então as recompensas intermitentes parariam. Mas isso nem sempre é possível, e certamente não é fácil, ele diz.
Quando o colega de trabalho de Jordan eventualmente cortou laços com ela, ela não conseguia dormir e mal conseguia comer. “Isso realmente, realmente, realmente me abalou”, ela disse.
Miller disse que trabalhar com um terapeuta que entende a limerência pode ser útil. Estratégias cognitivo-comportamentais podem ajudar. Frequentemente, ela diz, as pessoas sentem limerência por outras que têm qualidades que elas anseiam ou perderam acesso em si mesmas. Na terapia, elas podem aprender a identificar e satisfazer esses desejos, transformando a limerência em uma fonte de cura.
Pode ser “um veículo para transformação e desenvolvimento pessoal”, diz Miller.
Autor: Folha








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