De Inglaterra x Argentina, a semifinal número dois da Copa do Mundo na América do Norte, daqui a muitos anos, todos irão se lembrar de duas coisas:
1) a reação espetacular, em um intervalo de sete minutos, com virada nos acréscimos do segundo tempo, da seleção sul-americana sob o comando de Messi; e
2) a inoperância inglesa depois de sair na frente, aos 10min da segunda etapa, com o técnico Thomas Tuchel retrancando a equipe com a entrada de mais jogadores de defesa.
Uma respeitada jornalista desta Folha, atrás de uma resposta talvez inexistente, trouxe a seguinte pergunta, diante da chuva de críticas que trovejaram na cabeça do alemão que comanda o English Team: “Dá para defender a estratégica do técnico Tuchel no jogo que tirou a Inglaterra da Copa?”.
Um desafio. Quem viu o jogo, e este que escreve viu inteiro, com umas piscadelas no primeiro tempo –modorrento, truncado, carente de emoção, indigno de um Mundial empolgante–, conclui, pela apresentação inglesa depois que o Anthony Gordon abriu o placar, que a Inglaterra se acovardou.
Não os jogadores, que se mantiveram firmes e com vontade (não tanta quanto a dos argentinos) até o apito final –não se nota falta de empenho ou brio–, e sim Tuchel (pronuncia-se Túrrel), que ao mudar acabou colocando o time mais atrás.
Há defesa para o alemão? Eis a questão.
O primeiro inglês a ser substituído foi justamente o autor do gol, o atacante Gordon. Ele deixou o campo aos 27 minutos (17 após marcar o gol). Loucura! Como tirar o cara que fez o gol?
É complicado. Gordon, em dia inspirado, poderia até fazer outro. Justificável, porém. O camisa 18 cansa mais rápido que os colegas, não é um primor na forma física. Tanto que, dos cinco jogos em que começou jogando, foi substituído em quatro, sempre entre os 10 minutos e os 27 minutos da segunda etapa.
Estando na frente, e vendo a Argentina ganhar terreno, Tuchel não quis trocar atacante por atacante (tinha Rashford, Madueke, Saka, Toney, Watkins, os dois primeiros bastante velozes, bons para contra-ataques) e sim colocar o zagueiro Konsa, que também atual na lateral direita.
Lionel Scaloni, minutos antes, colocara Nico González, um ponta-esquerda, no lugar do volante Paredes, e a Argentina passou a forçar jogadas por ali. A ideia de Tuchel foi reforçar a marcação no setor, já que Reece James, outro que fisicamente não é dos melhores, ficava sobrecarregado.
Deu certo. Não foi por ali que a Argentina empatou nem virou. O lance do gol de empate (assim como o da virada) começou pela direita do ataque argentino.
Tuchel foi reativo também às outras alterações na Alviceleste. Com De Paul e Montiel, Scaloni turbinava seu lado ofensivo destro, e com Lautaro Martínez, metia mais um homem de área.
O alemão então colocou um lateral-esquerdo jovem e vigoroso (O’Reilly) e um zagueiro veterano e –igualmente– vigoroso (Burn). Ambos altos (1,93 m e 2,01 m), pois era previsível que a Argentina passasse a alçar bolas na área. Saíam, extenuados, o volante Rice e o lateral-direito James.
O empate não veio de um cruzamento, mas de um ótimo chute de Enzo Fernández da entrada da área. Faltou alguém marcando Enzo. Bellingham, aparentemente o responsável, desesperado, atirou-se para interceptar a bola. Chegou atrasado.
Na virada, falharam os que permitiram o cruzamento de Messi (O’Reilly e Spence, outro que estava exaurido) e os quatro beques grandões ingleses (Konsa, Stones, Burn, Guéhi) que não grudaram em Lautaro, 1,74 m, livre. Precisava um junto a Lautaro. Não tinha nenhum. Cabeceio: 2 a 1.
Tuchel não entra em campo, não marca Messi, não marca Lautaro. As mexidas dele tinham sua lógica. O que faltou?
Amainar o ímpeto argentino, por meio de faltas não violentas. Foram apenas quatro infrações inglesas no segundo tempo. Dirão que é antijogo. Mas as faltas táticas existem, fazem parte do futebol, atravancam quando é preciso –os argentinos são mestres nisso.
Faltou também pensar em um modo de contra-atacar. Tuchel escolheu o caminho de apenas se defender. Teorizou uma ideia. Se funcionasse, muito comentarista e torcedor inglês diria que ele acertou, que era a fórmula perfeita. Ir a uma final resolve tudo.
Perdeu, virou Geni.
Autor: Folha








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