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Infantino buscou imagem de boleiro, mas termina ofuscado – 17/07/2026 – Esporte

Em algum momento das principais partidas da Copa do Mundo de 2026, Gianni Infantino teve o seu rosto exibido nos telões dos estádios e, simultaneamente, para a audiência de bilhões de pessoas que assistiam aos jogos pela TV e pela internet.

Com o dirigente presente nas tribunas era certa a exposição ostensiva dele na TV, principalmente porque todas as imagens exibidas pelos detentores de direitos de transmissão são geradas pela mesma empresa, a Host Broadcast Service, com escritórios na Suíça, em Londres e Miami. A Fifa detém 49% das ações da companhia, sendo a outra parte controlada por um grupo chinês.

A Fifa não confirma a exigência de que a imagem de Infantino seja mostrada sempre que ele estiver em um estádio, mas admite que tem um acordo com a empresa para a exibição de “dignitários”, que incluem importantes dirigentes do futebol, além de pessoas de relevância, como campeões mundiais.

O cartola fez da sua presença constante uma marca do torneio e, não raro, com um esforço para criar uma imagem de boleiro. Inúmeras vezes, fez questão de exibir nas redes sociais suas interações com lendas do futebol, como uma roda de bobinho ao lado dos brasileiros Ronaldo, Rivaldo, Kaká, Roberto Carlos, Cafu e Bebeto.

A narrativa construída por ele, no entanto, acabou transformada após o episódio em que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter acionado Infantino por telefone para interceder após a expulsão do americano Folarin Balogun, no início do mata-mata.

A confessa interferência de Trump —em um contato também admitido por Infantino, embora o dirigente da entidade máxima do futebol tenha assegurado a autonomia dos órgãos de ética— transformou o cartola em coadjuvante de uma Copa em que o protagonista fora das quatro linhas foi o presidente dos EUA.

Nesta sexta-feira, em um evento em Nova York ao lado de Infantino, Trump descreveu o episódio como o mais “inesquecível” desta Copa do Mundo.

“Houve momentos inesquecíveis, provavelmente o mais inesquecível foi quando deram o cartão vermelho para aquele senhor”, disse o político. “Fui obrigado a ligar para o Gianni e fazer uma recomendação. Eu disse: ‘Gianni, gostaria de fazer uma recomendação. Deixem o cara entrar no jogo.’ Não, eu não disse isso. Eu disse: ‘Gostaria de apresentar uma reclamação.’ E, na verdade, eu não tinha ideia do que ia acontecer.”

Trump pareceu satisfeito com o resultado. “Sabe, é muito melhor porque não há controvérsia”, disse ele. “Eles [a Bélgica, nas oitavas] ganharam o jogo e nosso time estava com todos os seus jogadores. Pense bem, se ele não o tivesse deixado jogar, diriam: ‘Teríamos ganhado o jogo se tivéssemos nossos melhores jogadores’. Então, Gianni tomou mais uma de suas muitas boas decisões.”

O caso gerou uma onda de revolta no mundo do futebol e também abalou a imagem da própria seleção dos EUA. Após a expulsão de Balogun no jogo contra a Bósnia, a Fifa usou o artigo 27 do seu regulamento, que permite a suspensão de medidas disciplinares. A regra pôs Balogun em um período probatório de um ano, permitindo que ele atuasse na partida seguinte, contra a Bélgica, quando os EUA foram eliminados, goleados por 4 a 1.

A ONG de direitos humanos Fair Square entrou com uma denúncia no Comitê de Ética do COI (Comitê Olímpico Internacional) contra a Infantino, alegando “violações recorrentes na neutralidade política” previstas pelo código da entidade. Os vínculos com Trump e o episódio no Mundial envolvendo a seleção anfitriã foram citados.

“Gianni Infantino violou repetidamente as regras de neutralidade política do COI ao oferecer seu apoio político ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Também fornecemos evidências de outras duas violações graves, que solicitamos que o COI investigue. A primeira delas diz respeito à possível submissão à pressão política do presidente Trump para contornar as regras disciplinares da Fifa em campo durante a Copa do Mundo masculina de 2026”, informou a ONG.

A Fifa não comentou sobre a denúncia.

Antes do início do Mundial, Infantino e Trump tiveram inúmeros encontros públicos, principalmente no Salão Oval da Casa Branca, onde o dirigente foi visto mais do que qualquer outro líder político mundial.

Em dezembro de 2025, o dirigente concedeu ao presidente dos EUA o primeiro Prêmio da Paz da Fifa. A escolha virou alvo de denúncias no Parlamento Europeu e no Comitê de Ética da Fifa.

Durante a Copa, no entanto, os dois ainda não posaram juntos, ao menos antes da final. Trump não compareceu a nenhuma partida, nem mesmo da seleção dos EUA.

Nas duas primeiras semanas do Mundial, Infantino foi a 24 dos 72 jogos da primeira fase. Em diversas ocasiões, chegou a acompanhar presencialmente dois jogos no mesmo dia.

Sua viagem mais longa em um único dia foi em 15 de junho, quando voou mais de 4.000 km de Miami a Seattle para assistir Bélgica x Egito. Em seguida, viajou 1.545 km até Los Angeles, onde assistiu ao duelo entre Irã e Nova Zelândia.

Em 26 de junho, também teve uma longa viagem, quando decolou de Miami, fez uma breve parada em Dallas e depois seguiu para Seattle, onde foi fotografado na partida entre Egito e Irã. O avião que levava o dirigente partiu de Seattle cerca de cinco horas após a chegada, voando outros 4.345 km de volta para Miami, onde pousou na manhã seguinte.

Consultada pela Folha, a Fifa não confirma o número exato de partidas em que o cartola esteve presente, mas confirmou o esforço do dirigente para “estar perto da ação, visitar cada uma das 16 cidades-sede e ver o maior número possível de participantes, seguindo a tradição de torneios anteriores”.

Na Copa do Mundo do Qatar, Infantino aproveitou as dimensões do pequeno país do Golfo para presenciar todos os 64 jogos da edição de 2022.

Na América do Norte, com o torneio espalhado por EUA, Canadá e México, se viu obrigado a fazer diversas viagens para cumprir seus compromissos esportivos e, sobretudo, políticos.

Ainda de acordo com a Fifa, “às vezes, as viagens são organizadas em companhias aéreas comerciais [incluindo companhias de baixo custo] e, outras vezes, em voos fretados, dependendo do que for mais eficiente e econômico nas circunstâncias”.

Embora use esses encontros para fortalecer seus laços com dirigentes das federações envolvidas em cada uma das partidas, a submissão a Donald Trump deve afetar os objetivos políticos de Infantino.

Autor: Folha

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