No segundo casamento, a terapeuta corporal Mariana Cecchetti, 44, diz que o excesso de telas, a falta de prioridade para a relação e a divisão desigual das tarefas domésticas estão entre os desafios de manter uma união de 17 anos.
Mãe de três filhos e moradora de Niterói (RJ), ela afirma que, mesmo sem crianças pequenas em casa, a dinâmica familiar ainda tende a ocupar o lugar da vida a dois. Hoje, o marido realiza tarefas por iniciativa própria. Mas, para ela, esse movimento demorou anos para acontecer.
Antes disso, afirma ter passado por várias etapas: “pedir, cobrar, brigar, simplesmente fazer, simplesmente sair e largar tudo para trás, fingir que não me incomoda, desistir”.
A história ajuda a traduzir um recorte da pesquisa “Raio-x da vida afetiva: como o brasileiro vive e o que quer do amor 2025–2026“, feita pelas psicanalistas Carol Tilkian e Camila Holpert. O levantamento foi realizado online, conduzido pela plataforma de pesquisas On The Go, entre 10 e 12 de dezembro de 2025, como 997 pessoas (504 mulheres e 493 homens), da geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) aos baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964).
Na pesquisa, os problemas mais relatados na vida amorosa foram sobrecarga das tarefas cotidianas (22%) e dificuldade de diálogo (21%). Em seguida aparecem falta de tempo (19%) e excesso de telas (18%). A traição surge com 6%, embora possa estar subnotificada.
Perto, mas separados pelas telas
A leitura não é que a infidelidade tenha deixado de doer, mas que muitas relações parecem ser corroídas antes por algo menos explosivo: falta de escuta, agenda cheia, celular na mão e sensação de estar junto sem estar disponível.
Para Carol Tilkian, pesquisadora e colunista da Folha, muitos casais aprenderam a funcionar como engrenagem, mas nem sempre como vínculo. A lógica da produtividade entrou na vida amorosa: é preciso resolver quem leva as crianças para escola, como o dinheiro será guardado e quais tarefas precisam ser feitas. Mas, nesse processo, muitos deixam de se escutar.
Quando essa “presença ausente” é levada à conversa, acrescenta, surge outra dificuldade: sustentar o incômodo sem transformá-lo em ataque. “A gente está tão inseguro que ouve o incômodo como uma agressividade e uma crítica. E aí eu rebato. E vira um contra o outro, e não o que podemos fazer juntos, como casal, para achar um caminho comum.”
A gente está tão inseguro que ouve o incômodo como uma agressividade e uma crítica. E aí eu rebato. E vira um contra o outro, e não o que podemos fazer juntos, como casal, para achar um caminho comum
No caso de Mariana, as telas ocupam o lugar do descanso e até do atrito. “Todo mundo goza com sua tela na mão. Se diverte sozinho, treta sozinho, relaxa sozinho. Então não há tempo disponível para se encantar, atritar e relaxar com quem está ao lado.” Às vezes, ela diz ao marido: “Quero agendar uma saída com você. Tira a cara do celular e olha para mim”.
E parece que tem dado certo: “Lentamente, o movimento da gente como casal está voltando a acontecer.”
O marido dela, que prefere não se identificar, reconhece que as queixas eram um problema da relação. Diz que, às vezes, também sentia falta da presença e que o mais difícil era “saber como mudar”. Hoje, quando há “janela de oportunidade”, os dois tentam fazer algum programa a dois.
Falta de letramento emocional
Para o psicólogo e escritor Rossandro Klinjey, o celular não é apenas um aparelho que distrai. “Ele é um esconderijo”, afirma. “É mais fácil olhar para a tela do que olhar para quem está do lado esperando ser visto.”
Klinjey diz que desejo e conexão nascem nos intervalos do cotidiano, hoje sequestrados pelo digital. Também vê falta de letramento emocional: as pessoas sabem descrever o que sentem, mas não sabem o que fazer com o sentimento do outro. “A gente não termina mais por traição, a gente termina por desidratação. É um amor que morre de sede com os dois na casa.”
A falta de presença também aparece antes que a relação se consolide. Entre os solteiros que estão sozinhos, 56% dão nota de 0 a 4 para a própria vida amorosa, o grupo mais insatisfeito da pesquisa.
O gerente de projetos Miguel Piedade, 38, terminou um relacionamento de três meses ao perceber que raramente cabia na agenda do companheiro. “Em um mês eu vi meu namorado em um único dia”, diz o carioca. “Resolvi não mais tentar e terminei. A pessoa, quando quer, dá um jeitinho, e senti que estava me rebaixando.”
Hoje solteiro, afirma que muita gente quer “um chamego, um sexo, uma companhia momentânea”, mas não compromisso. “Relacionamento exige esforço, compromisso e, na vida corrida, vira mais uma atribuição.”
O consultor de marketing Vitor Thomaz, 33, sente esse cansaço nos aplicativos e nos encontros presenciais. “Parece entrevista de emprego, em que profissão, renda, corpo e estilo de vida funcionam como filtros. É como se estivéssemos voltando aos tempos dos dotes”, diz o morador de São Paulo.
Nos aplicativos gays, afirma, a seleção também passa pelo corpo. “Tem uma ode ao corpo. As fotos são de corpos padrão e viagens à Europa.” Depois que perdeu o emprego, uma conversa diária foi se diluindo até virar ghosting. “Agora eu parei de procurar mesmo. Deletei todos os perfis nos aplicativos. Hoje, o que imagino de relacionamento ideal é estar com alguém que queira construir memórias juntos.”
Sem papéis de gênero distribuídos, casal precisa negociar mais
Embora a pesquisa não tenha esse recorte como eixo principal, as autoras fizeram uma leitura complementar por orientação sexual, o que ajuda a mostrar que a “presença ausente” assume contornos específicos entre pessoas LGBTQIA+.
Entre homossexuais, falta de escuta aparece em 30%, e cobranças, em 29%. Entre bissexuais, chamam atenção tratamento de silêncio (34%), ghosting (18%) e manipulação (18%). Nos casais homoafetivos, 35% dizem sentir que dão mais do que recebem, mais que o dobro do índice entre casais heterossexuais, de 16%.
Para Tilkian, isso não significa que essas relações sejam menos afetivas, mas que a promessa de maior simetria também pode produzir sobrecarga. Sem papéis de gênero tão automaticamente distribuídos, o casal precisa negociar mais. Quando essa conversa não acontece, alguém vira gestor, cuidador ou organizador da relação.
Reconhecer a própria participação no resgate do tesão
A professora Caroline Soares, 45, solteira há cinco anos, diz que a sensação de esforço unilateral é o que mais a desanima quando começa a conhecer alguém. Para ela, muitos homens admiram mulheres independentes, mas têm dificuldade de lidar com a rotina, os desejos e os limites que essa autonomia envolve. “Quando a mulher coloca limites para manter seu foco, muitas vezes essa atitude é entendida como falta de atenção pelo homem.”
Caroline diz que quer se relacionar, mas não a qualquer custo. “Estar com alguém se sentindo sozinha é o pior sentimento. Muitas vezes, estar sozinha é também fortalecer seu amor-próprio para não aceitar uma solidão a dois.”
Para Mariana, reconstruir a vida a dois exige gestos concretos: sair sem filhos e sem amigos, beijar de língua demoradamente, olhar para o marido no cotidiano, “chegar perto e cheirar a barba dele”. Também exige sair da reclamação automática e reconhecer sua participação no resgate do tesão.
“Percebo que já me separei e voltei algumas vezes, ainda que morando na mesma casa. Assim como qualquer outro relacionamento, ou andar de bicicleta, o equilíbrio só acontece porque existe movimento. Não existe ‘foram felizes para sempre’.”
Autor: Folha








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