O governo brasileiro deve descartar a possibilidade de retaliar os Estados Unidos por conta do “tarifaço” anunciado na quarta-feira (15) e continuar com a missão de buscar mais mercados para os produtos brasileiros no exterior, avalia Alexandre Chaia, professor do Insper, em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo.
O especialista aponta que uma eventual retaliação brasileira – como aumentar reciprocamente as tarifas para importação de produtos norte-americanos – poderia resultar em preços mais altos a consumidores e empresas.
As novas tarifas de 25% sobre parte dos produtos devem afetar exportações brasileiras equivalentes a US$ 11 bilhões, segundo estimativa da Amcham Brasil, e impactar mais fortemente os setores de máquinas, calçados e móveis.
Chaia, entretanto, avalia que o Brasil tem trunfos para não sentir tanto os efeitos do novo tarifaço. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
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Gazeta do Povo: Que tipo de medida de reação, por parte do governo, faria sentido economicamente sem escalar o conflito ou prejudicar consumidores e empresas brasileiras?
Alexandre Chaia: O governo não deveria tomar nenhuma medida agora. Há essa possibilidade [de retaliação] que está na mesa. Mas o governo já está fazendo o que é certo: ampliar o rol de exportadores para que a gente possa diminuir o impacto das novas tarifas, que deve ser baixo.
A maior parte da pauta de exportação para os Estados Unidos está protegida, porque é importante para eles. O que foi afetado é marginal, então pesará pouco.
Se o governo fizer alguma retaliação, vai piorar as coisas, e colocar mais calor nesse fogo e não trará benefício nenhum — só prejudicará o consumidor brasileiro. Retaliação com tarifas prejudicaria os consumidores brasileiros ao encarecer importações.
Como medida de contenção de danos, o governo precisa apoiar as empresas que terão dificuldade — as poucas que terão.
O Plano Brasil Soberano, com linhas de crédito via BNDES, é suficiente para aliviar os setores afetados, ou seria apenas um paliativo até uma solução política?
Alexandre Chaia: O governo enfrenta uma situação de restrição fiscal, limitando recursos para apoio direto. O plano [Brasil Soberano] é suficiente para cobrir perdas dos setores afetados.
Conseguimos, desde o primeiro tarifaço dos EUA [em 2025], ampliar os negócios com a União Europeia. Depois, teve o acordo novo com o Japão. E tem novos acordos que o governo fez para ampliar os mercados, que substituirão parte da demanda dos EUA. As poucas empresas que serão afetadas, na verdade, acabarão sendo levadas a arrumar novos mercados.
Enquanto esses novos mercados não surgirem, o plano do governo é suficiente para ajudar. Não vejo necessidade de fazer novas medidas além do próprio plano.
O susto maior foi o tarifaço anterior, que foi cancelado. Ali, o governo brasileiro foi pego meio de surpresa. No atual tarifaço, o governo já estava mais preparado. Além disso, os principais produtos de exportação para os EUA acabaram ficando de fora por causa exatamente da necessidade dos norte-americanos.
Então, acredito que é suficiente o governo manter essas regras de apoio com linhas de BNDES para as empresas que foram afetadas.
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Qual é a estimativa em relação ao impacto do tarifaço no PIB brasileiro e nas exportações totais para os EUA?
Alexandre Chaia: Estimar o impacto é prematuro. As exportações para EUA representam uma pequena porcentagem do PIB [cerca de 1,6% do PIB brasileiro, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços – MDIC] e a lista de exceções foi muito grande. Se o governo realmente apoiar, é possível que o impacto seja bem reduzido.
E, como a gente acaba tendo um mercado consumidor que acaba demandando boa parte dos nossos produtos, o consumo local se torna o principal motor de crescimento da economia. Então é mais fácil sobreviver a esses choques.
No final, o tarifaço acabou tendo muito mais viés político do que prático, porque a maior parte das exportações foi preservada.
Alexandre Chaia
Como os Estados Unidos, apesar de tudo isso, não estão conseguindo substituir as importações com outros parceiros, provavelmente vão continuar comprando do Brasil. A perda não vai ser tão grande e quem vai pagar a conta é o consumidor americano, que vai pagar mais pelo produto que chega a ele.
Existe risco de repasse de custo para o consumidor brasileiro, ou o efeito fica concentrado nos exportadores?
Alexandre Chaia: Não vejo esse risco. O risco de repasse nos preços é para os consumidores americanos, porque estamos exportando para lá e quando chega lá o produto fica mais caro porque haverá uma tarifa adicional.
Aqui, como consumidores, a tendência é de quase nenhum impacto. Se houver, será positivo. Se no mercado interno houver excesso de produtos, isso resultará em mais oferta, o que pressionará os preços para baixo. Então, para o consumidor local, o risco é muito baixo.
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Autor: Gazeta do Povo








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