Existe discriminação de gênero no mercado de trabalho. E existem as nossas escolhas.
Eu tive sorte. Recebi como legado mulheres que pularam o muro do preconceito. Nem por isso conseguiram se livrar dos pedágios que a vida impõe.
Alicinha, minha bisavó, poderia ter sua história contada de várias maneiras. A versão da minha avó Maricota era: Alicinha tinha sido uma mulher livre demais para o seu tempo. Separou-se quando a filha tinha 3 anos e, nos anos 1950, viveu diferentes relações e amores. Encontrou na vida privada uma saída para um problema público.
Mas a conta apareceu. Aquela liberdade tinha custo, e não foi ela sozinha quem o pagou.
Minha avó repetia: “Você pode tudo”. Cresci achando que teria a liberdade de ser tudo o que quisesse. Até topar com a realidade. Nos meus três filhos, recusei a licença-maternidade. Nunca me passou pela cabeça abdicar da carreira, nem da maternidade. Como organizar o tempo quando a vida ganhou uma segunda operação para ser tocada em paralelo?
Foi então que encontrei Claudia Goldin, Nobel de economia em 2023. Ela mostra que, desde os anos 1970, as mulheres passaram a investir em educação e a associar a identidade à carreira, saindo da universidade tão produtivas quanto os homens, provando que não existia barreira de capacidade ou de vocação.
Ainda assim, recebem cerca de 0,77 dólar para cada dólar masculino, diferença essa que surge a partir do nascimento dos filhos. A penalidade é maior nos “greedy jobs”, que premiam disponibilidade contínua e flexibilidade total.
Idalina, a avó da minha avó Maricota, também fez suas escolhas. Tinha mais prazer na literatura do que a época admitia. Talvez não tenha sido a mãe que cuidava da casa e dos apetrechos do cotidiano, mas apresentou às filhas Homero e outros clássicos.
As filhas de Idalina também saíram do roteiro. Maria Inez circulou entre artistas, adiou a maternidade. Assumiu o papel de dura, intelectual e liberal. Para ela, isso era um elogio. Para os outros, um defeito. Na época, o que se esperava da mulher é que ela fosse maternal. Alicinha se recusava a ser mulher do Simão Bacamarte, personagem de Machado de Assis. Em vez disso, escolheu sua liberdade sexual e se separou logo após o nascimento da filha.
Maricota, por sua vez, transformou as fantasias da mãe em trabalho e seguiu firme como psicanalista. Sustentou três filhos e encabeçou dois divórcios, em busca do amor da vida dela.
Hoje, dentro das empresas, as restrições continuam claras. A dualidade aparece em decisões pequenas e repetidas: aceitar a reunião às 21h para não perder tração ou preservar a rotina da criança; viajar de última hora para mostrar comprometimento ou manter alguma previsibilidade em casa.
No papel, cada escolha parece pontual; com o tempo, viram reputação, bônus e promoção.
As avaliações reconhecem quem fica até mais tarde, mas não perguntam quem cuidou do filho doente. Como observa Goldin, o mercado mede o trabalho pago, mas não remunera (nem mede bem) a atenção à família. Se uma babá cuida do seu filho, isso aparece nas estatísticas de renda. Se é a mãe que fica, não.
O discurso atual vende liberdade como soma, como se fosse possível empilhar desempenho sem mexer no relógio, no corpo e na casa. Só que recursos são finitos. Você aloca, prioriza e paga o custo do que ficou de fora.
Percebi que, para ser a profissional que eu queria, teria de renunciar a momentos importantes da maternidade, mas não à maternidade em si.
Com a liberdade com que encaravam a vida, Idalina, Alicinha, Maria Inez e Maricota puderam ser o que desejaram, mas não tiveram tudo. Sabiam o preço das escolhas, renunciaram muita coisa e construíram outro tanto.
Algumas se tornaram intelectuais e transformaram gerações.
Minha avó decidiu que a arte era valiosa, mas alguém tinha que pagar a conta. A ética do trabalho virou exemplo para seus filhos.
Temos que escolher quem queremos ser em cada uma de nossas versões.
Para mim, conciliar é isso: explicitar trade-offs e parar de fingir que a conta some. Ela só muda de lugar.
Autor: Folha








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