domingo, maio 10, 2026
7.3 C
Pinhais

Absorvemos melhor as informações no papel do que em telas? – 10/05/2026 – Equilíbrio

O governo sueco anunciou recentemente que está substituindo o uso de dispositivos digitais em sala de aula por livros físicos. A decisão foi tomada devido a preocupações com a queda nas notas dos testes e o aumento do tempo gasto em frente às telas.

Essas preocupações são bem fundamentadas? E o que a ciência da leitura diz sobre as possíveis consequências da ler em dispositivos digitais em comparação com os livros?

Para responder a essas perguntas, vale lembrar que, embora ler possa parecer uma tarefa fácil, essa impressão é falsa. Ler é, sem dúvida, a tarefa mais difícil que alguém pode aprender, que exige anos de educação formal e prática para ser dominada. Ao contrário da linguagem falada, é uma habilidade para a qual não temos predisposição biológica.

Por que ler é tão difícil?

Para entender por que a leitura é difícil, é preciso primeiro compreender a fisiologia da leitura.

Enquanto você lê esta frase, seus olhos estão realizando uma série de movimentos rápidos, chamados sacadas, de uma palavra para a seguinte. Durante essas sacadas, o processamento da informação visual é suprimido e só está disponível durante breves intervalos, chamados fixações, quando os olhos permanecem imóveis.

Experimentos que medem os movimentos oculares dos leitores mostraram que fixamos o olhar na maioria das palavras porque nossa capacidade de extrair informações visuais durante cada fixação é extremamente limitada.

Em línguas como o inglês, que são lidas da esquerda para a direita, nossa capacidade de perceber as características que distinguem as letras é limitada a uma pequena região do campo visual chamada extensão perceptual. Essa extensão abrange de dois a três espaços de letras à esquerda do ponto de fixação até oito a 12 espaços de letras à direita do ponto de fixação.

A assimetria da extensão reflete o movimento da atenção ao longo do texto. Ela se estende para a esquerda em línguas como o árabe, que são lidas da direita para a esquerda. O tamanho da extensão é menor em sistemas de escrita densos, como o chinês.

Também sabemos, por meio de experimentos de rastreamento ocular e neuroimagem, que as palavras exigem tempo para serem identificadas. Nossas melhores estimativas sugerem que a informação visual leva 60 milissegundos para se propagar dos olhos até o cérebro e que as palavras precisam de mais cem a 300 milissegundos para serem identificadas —um milissegundo é um milésimo de segundo.

Essas restrições limitam a velocidade máxima de leitura a 300-400 palavras por minuto, dependendo da dificuldade do texto e do nível de compreensão do leitor.

Os defensores da leitura dinâmica, que prometem falsamente velocidades de leitura mais rápidas, ensinam como ler um texto superficialmente. A compreensão diminui a uma taxa inversamente proporcional ao ganho de velocidade.

É importante ressaltar que o limite máximo de velocidade de leitura exige anos de prática para ser alcançado, pois requer que os sistemas cerebrais responsáveis pela visão, atenção, identificação de palavras, processamento da linguagem e movimentos oculares operem de forma altamente coordenada. Qualquer fator que impeça essa coordenação, portanto, reduzirá a compreensão.

Consequências da leitura digital

Quais são, então, as prováveis consequências da leitura digital?

Com alguns dispositivos, como os leitores eletrônicos, há poucos motivos para suspeitar que a leitura digital difira dos livros, pois ambos os formatos suportam os processos mentais necessários para uma leitura proficiente.

Os dispositivos mais questionáveis são aqueles que introduzem distrações, como sites de notícias intercalados com anúncios, ou que apresentam formatação inadequada, como texto centralizado com espaços grandes ou desiguais entre as palavras. Este último aspecto raramente é encontrado em textos impressos.

Embora as consequências desses dois fatores sejam pouco pesquisadas, já se aprendeu o suficiente sobre a cognição humana para fazer previsões fundamentadas.

Por exemplo, imagens e áudio não relacionados a um texto, como anúncios pop-up, podem capturar a atenção. Embora a maioria dos adultos tenha desenvolvido um nível de controle executivo suficiente para ignorar tais distrações, as crianças pequenas ainda não o possuem.

As implicações para uma criança que tem dificuldade em compreender o significado de um texto são óbvias. Sua compreensão será prejudicada na medida em que for necessário um esforço adicional para ignorar distrações, ou se ela ainda não tiver a coordenação mental necessária para entender que o texto foi interrompido.

Há também evidências, provenientes de experimentos de rastreamento ocular, de que muitos ambientes digitais, como páginas da web, podem induzir estratégias de leitura específicas, como a leitura dinâmica para obter a ideia geral ou a busca por informações.

Embora essas estratégias possam ser adaptativas em alguns contextos, elas reduzem a compreensão geral. Essa possibilidade deve ser especialmente preocupante para crianças, pois são necessários anos de prática para coordenar os sistemas mentais que sustentam os níveis de habilidade de leitura de um adulto.

Essas preocupações têm recebido mais atenção recentemente, pois o início da pandemia de Covid provocou uma transição para o ensino online e um aumento significativo na leitura digital. Embora essas mudanças tenham sido motivadas por necessidades práticas, suas consequências a longo prazo ainda não estão claras.

Até o momento, as pesquisas sobre rastreamento ocular foram realizadas em telas de computador. Novas tecnologias estão se tornando disponíveis e nos permitirão comparar diretamente os movimentos oculares e a compreensão entre dispositivos digitais e papel. Isso deverá nos dar mais clareza sobre os benefícios versus os custos dos dispositivos digitais.

Considerando que a capacidade de leitura é um fator preditivo da educação, do status socioeconômico e do bem-estar de uma pessoa, a importância de avaliar as consequências a longo prazo da leitura digital não pode ser subestimada.

Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas